Santa Catarina, um dos estados mais dinâmicos do Brasil, enfrenta um desafio logístico iminente que pode comprometer seu futuro econômico. Para garantir que a infraestrutura de transportes consiga atender às crescentes demandas da indústria e sustentar o robusto crescimento econômico, o estado precisará de um investimento colossal nos próximos anos.

A projeção aponta para a necessidade de R$ 57 bilhões entre 2026 e 2029. Sem esses recursos, há um risco real de o estado sofrer um apagão logístico, impactando diretamente todos os setores econômicos, o que pode levar à perda de competitividade e à redução de investimentos, limitando a geração de emprego e renda.

Essa estimativa alarmante foi revelada na “Agenda Estratégica para Infraestrutura e Transporte”, documento lançado pela Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), que mapeou os principais gargalos e definiu obras prioritárias para o setor produtivo catarinense.

Rodovias lideram a demanda por investimentos em Santa Catarina

O levantamento da Fiesc destaca que a maior parte das necessidades de investimento em infraestrutura de transportes se concentra no modal rodoviário. Até 2029, as rodovias catarinenses devem demandar R$ 40,2 bilhões, um valor que representa cerca de 70% do total estimado para o setor no estado.

Essa predominância reflete a estrutura logística de Santa Catarina, que é fortemente dependente do transporte terrestre para o escoamento da produção industrial e agropecuária. Mesmo com a relevância dos portos e aeroportos, a maior parte das cargas ainda circula pelas estradas.

Na sequência da análise, aparecem os investimentos em ferrovias, com previsão de R$ 9,9 bilhões. O modal aquaviário exigirá R$ 4,89 bilhões, enquanto os setores aeroviário e dutoviário demandam valores menores, de R$ 991,9 milhões e R$ 873,1 milhões, respectivamente, segundo o cálculo da Fiesc.

Parceria Público-Privada é crucial para grandes projetos

Do total de R$ 57 bilhões projetados pela Fiesc, a iniciativa privada deverá ser responsável por R$ 42,6 bilhões. O setor público, por sua vez, responderá por aproximadamente R$ 14,3 bilhões, distribuídos entre as esferas federal, estadual e municipal.

Esse cenário reforça a dependência de concessões, Parcerias Público-Privadas (PPPs) e investimentos empresariais para viabilizar projetos estruturantes. Para Gilberto Seleme, presidente da Fiesc, o montante necessário impõe um desafio adicional, especialmente em um cenário de restrição fiscal e para projetos que dependem de recursos federais.

Entre os investimentos privados previstos estão as ampliações dos portos de Navegantes e Itapoá, além de PPPs como a dragagem e o aprofundamento do canal de acesso à Baía da Babitonga. Aportes em rodovias concedidas, como a BR-101 Norte e Sul e a BR-116, também fazem parte dessa conta.

Um exemplo notável é a concessão da BR-101 no trecho Sul, operada pela Arteris Litoral Sul. Desde 2008, a concessionária investiu R$ 3,9 bilhões, entregando obras como os 50 quilômetros do Contorno Viário da Grande Florianópolis. Os aeroportos concessionados de Florianópolis e Jaguaruna também são estratégicos para a integração logística e o transporte de passageiros.

Setor industrial define prioridades para evitar gargalos logísticos

A indústria catarinense aponta obras como a conclusão das duplicações nas BRs 470 e 280 como as mais urgentes. A adequação de capacidade das BRs 282 e 163, a finalização da BR-285 e a manutenção da malha federal existente também são destaques entre as prioridades.

No setor portuário, a Fiesc considera prioritárias a segunda etapa da bacia de evolução e do canal de acesso ao complexo portuário de Itajaí, a recuperação e ampliação dos molhes de Imbituba, e o aprofundamento do canal da Baía da Babitonga.

A previsibilidade na liberação dos recursos é tão crucial quanto o volume investido. A federação alerta que obras com interrupções frequentes tendem a encarecer, atrasar entregas e gerar impactos negativos para a logística e a economia, intensificando o risco de um apagão logístico.

BR-470 e BR-282: eixos vitais com desafios e avanços distintos

A BR-470, principal corredor logístico de Santa Catarina, é citada como prioritária pela Fiesc. A rodovia conecta as regiões oeste e meio-oeste ao litoral norte, onde estão localizados os importantes portos de Itajaí e Navegantes, além do aeroporto de Navegantes.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit) informa que a duplicação da BR-470 alcançou 85% de execução, com 62 quilômetros duplicados e liberados ao tráfego. A obra abrange 73 quilômetros entre Navegantes e Indaial, divididos em quatro lotes, com um investimento total de R$ 1,7 bilhão.

Paralela à BR-470, a BR-282 desempenha um papel igualmente estratégico para a economia catarinense. A rodovia liga Florianópolis ao município de Paraíso, no extremo-oeste do estado, na fronteira com a Argentina, funcionando como um dos principais corredores de escoamento da produção industrial e agropecuária.

Apesar de sua relevância, a duplicação da BR-282 permanece na fase de elaboração de projetos, sem previsão de início das obras. O governador Jorginho Mello (PL-SC) chegou a propor a estadualização da BR-282 ao governo federal, visando a transferência da gestão e do orçamento de manutenção.

O Dnit informou que há 13 lotes de projetos de duplicação contratados entre Palhoça e São Miguel do Oeste, com investimento estimado em mais de R$ 3 bilhões após a aprovação dos projetos. Atualmente, 70% da rodovia está em boas condições de tráfego, com ações de conservação e recuperação em andamento.

Projetos estaduais de grande porte também refletem a dependência de investimentos privados, como a Via Mar. Essa será a primeira rodovia estadual de Santa Catarina com cobrança de pedágio, com obras previstas para começar até o fim de 2026.

O corredor viário de 145 quilômetros ligará Joinville ao contorno viário da Grande Florianópolis, com o objetivo de desafogar a BR-101 e melhorar o escoamento da produção e o fluxo turístico no litoral catarinense. O modelo de PPP prevê que os estudos e projetos sejam pagos pelo governo estadual, enquanto a execução das obras e a operação da rodovia ficarão sob responsabilidade da iniciativa privada.

Enquanto grandes projetos dependem de concessões e PPPs, os investimentos recentes do governo estadual têm resultado em melhorias na malha sob sua gestão. De acordo com a Secretaria de Infraestrutura e Mobilidade catarinense, mais de R$ 5,15 bilhões vêm sendo investidos em obras estruturantes, conservação e manutenção desde 2023. Em 2025, os repasses aos municípios somaram quase R$ 858,8 milhões, e 84% dos 5,3 mil quilômetros pavimentados estão classificados como em estado ótimo ou bom.

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