Santa Catarina se torna polo de megabaterias para energia renovável no Brasil

Em um movimento estratégico para o futuro energético do Brasil, a WEG, gigante brasileira de equipamentos elétricos, anunciou a construção de uma nova fábrica em Itajaí, Santa Catarina. A unidade será dedicada à produção de sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS), tecnologia crucial para gerenciar a intermitência das fontes renováveis como a solar e a eólica. O anúncio ocorre em um momento de crescente preocupação com a estabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN) e em antecipação ao primeiro leilão de baterias do país, previsto para junho deste ano.

A iniciativa responde a uma necessidade cada vez mais premente: a de “estocar” o vento e o sol, como já havia sido apontado pela ex-presidente Dilma Rousseff em 2015, mas agora com a tecnologia BESS amplamente disponível e em expansão global. A nova fábrica, com um investimento de R$ 280 milhões, promete elevar a capacidade produtiva da WEG em até 2 GWh anuais, o que equivale a fornecer energia para cerca de 400 mil residências por um dia inteiro, utilizando exclusivamente a energia armazenada.

O projeto não apenas reforça a posição do Brasil na corrida pela transição energética, mas também busca mitigar riscos de instabilidade na rede elétrica e fortalecer a indústria nacional. A fábrica de Itajaí se soma à já existente em Jaraguá do Sul, também em Santa Catarina, onde a WEG já produz sistemas BESS, mas a nova unidade terá dedicação exclusiva, ampliando significativamente o alcance da empresa neste mercado em ascensão. As informações foram divulgadas pela própria WEG e pelo Ministério de Minas e Energia, destacando o alinhamento entre o setor privado e as políticas públicas para o avanço energético do país.

A necessidade de “estocar” o vento e o sol: um desafio global

A fala da ex-presidente Dilma Rousseff em 2015 sobre a dificuldade em “estocar” vento, que gerou polêmica e piadas, na verdade, apontava para um desafio técnico fundamental: a gestão da intermitência das energias renováveis. Fontes como a solar e a eólica produzem energia de forma variável, dependendo das condições climáticas. O sol brilha durante o dia e o vento sopra em diferentes momentos, muitas vezes fora dos horários de pico de consumo.

Essa variabilidade cria um descompasso temporal entre a geração e a demanda. Durante a madrugada, quando a geração eólica pode ser alta, o consumo é baixo. Já no fim da tarde e início da noite, período de maior demanda (o chamado “horário de ponta”), a geração solar diminui drasticamente. Sem mecanismos eficientes de armazenamento, o excedente de energia limpa pode ser desperdiçado, enquanto, em outros momentos, é necessário recorrer a fontes mais caras e poluentes, como as termelétricas, para suprir a demanda.

Especialistas alertam que, sem a adoção de tecnologias de armazenamento, o Sistema Interligado Nacional (SIN) pode enfrentar um “colapso” nos próximos meses devido às flutuações no fornecimento. A tecnologia BESS surge como a solução mais promissora para garantir a estabilidade e a confiabilidade do fornecimento de energia elétrica, integrando de forma mais eficaz as fontes renováveis à matriz energética brasileira.

WEG impulsiona a indústria de megabaterias em Santa Catarina

A nova fábrica da WEG em Itajaí representa um marco para a indústria brasileira de tecnologia para a transição energética. Com um investimento de R$ 280 milhões, a planta será equipada com linhas de montagem automáticas e semiautomáticas, além do uso de robôs móveis autônomos, garantindo um alto nível de modernidade e eficiência produtiva. A expectativa é que a unidade gere 90 novos empregos diretos, mas o impacto vai além da geração de empregos, posicionando o Brasil como um player relevante no mercado global de armazenamento de energia.

A capacidade produtiva anual prevista é de 2 GWh, suficiente para equipar 400 sistemas de 5 MWh. Essa capacidade é estimada como capaz de manter aproximadamente 400 mil residências funcionando por um dia inteiro, utilizando unicamente a energia armazenada nas baterias. Essa escala demonstra o potencial da tecnologia para atender a demandas significativas e oferecer segurança energética.

Além da linha de montagem, o complexo em Itajaí abrigará um laboratório dedicado a testes, desenvolvimento e qualificação de produtos. Essa infraestrutura de ponta visa aprimorar processos, reforçar o controle de qualidade e acelerar a criação de novas soluções em BESS. Uma subestação de energia também será instalada para simular condições reais de operação, garantindo a robustez e a confiabilidade dos sistemas produzidos.

O papel estratégico do BESS na transição energética

Os Sistemas de Armazenamento de Energia em Baterias (BESS) são essenciais para a consolidação das energias renováveis. Eles funcionam como reservatórios de energia: a eletricidade gerada em momentos de alta produção, quando a demanda é baixa, é armazenada para ser liberada em períodos de pico de consumo ou quando a geração natural é insuficiente. Isso garante um fornecimento de energia mais constante e confiável, reduzindo a dependência de fontes fósseis.

O presidente da WEG, Alberto Kuba, ressaltou a importância estratégica do investimento: “Trata-se de um investimento alinhado com o objetivo estratégico de posicionar a WEG e o Brasil de forma mais competitiva no cenário global de transição energética, mitigando riscos e fortalecendo a presença nacional nesse segmento em expansão”. O projeto conta com financiamento do programa BNDES Mais Inovação, em parceria com a Finep, evidenciando o apoio governamental a iniciativas que promovam a descarbonização e a inovação tecnológica.

A tecnologia BESS é amplamente utilizada em países como China, Estados Unidos e na Europa, e seu crescimento no Brasil é uma tendência clara. A capacidade instalada globalmente em armazenamento de energia já ultrapassa 250 GWh, com projeções de movimentar mais de R$ 80 bilhões em investimentos globais até 2034. O Brasil, apesar de estar um pouco atrasado, busca acelerar sua participação neste mercado.

Leilão de baterias: um passo crucial para o futuro energético

O anúncio da fábrica da WEG coincide com a expectativa do primeiro leilão de baterias de armazenamento do Brasil, previsto para junho deste ano. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, confirmou a realização do certame, que visa expandir a capacidade de armazenamento de energia no país. Atualmente, a capacidade instalada no Brasil gira em torno de 1 GWh, mas o presidente da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), Markus Vlasits, considera o leilão essencial para evitar apagões.

Vlasits estima que o leilão possa atrair até R$ 10 bilhões em projetos. Empresas interessadas já teriam propostas prontas desde o ano passado, quando um leilão similar foi anunciado, mas não se concretizou. A expectativa é de que sejam oferecidos mais de 20 GW em projetos, superando a meta de contratação do governo, que seria de 2 GW. Isso demonstra o grande potencial de mercado e o interesse do setor privado em investir em armazenamento de energia no Brasil.

No entanto, há uma preocupação no setor de que o prazo para o leilão possa ser apertado. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ainda precisa incorporar as mudanças da reforma do setor elétrico na regulamentação sobre o uso da tecnologia BESS. A agilidade na regulamentação é vista como crucial para garantir a viabilidade do leilão e impulsionar a adoção da tecnologia em larga escala.

Aplicações práticas do BESS no Brasil

A tecnologia BESS já encontra aplicações significativas em diversas regiões do Brasil, demonstrando sua versatilidade e importância para a segurança energética. Um dos casos de uso mais relevantes está no Amazonas, onde mais de 200 localidades desconectadas do SIN dependem de termelétricas a óleo diesel. A implementação de sistemas BESS nessas áreas pode reduzir drasticamente os custos operacionais e o impacto ambiental, ao mesmo tempo que garante um fornecimento de energia mais estável.

Outro projeto de destaque foi instalado em Registro, no interior de São Paulo, com foco na segurança energética do agronegócio local. A atividade agrícola, que muitas vezes depende de processos contínuos e sensíveis a interrupções no fornecimento de energia, se beneficia enormemente da confiabilidade que os sistemas de armazenamento proporcionam. Além desses casos específicos, iniciativas isoladas em indústrias e comércios por todo o país já utilizam a tecnologia para otimizar o consumo e garantir a continuidade de suas operações.

Esses exemplos práticos reforçam a tese de que o BESS não é apenas uma solução para a intermitência das renováveis, mas também uma ferramenta para democratizar o acesso à energia, reduzir custos e aumentar a eficiência em diversos setores da economia brasileira. A expansão do uso dessa tecnologia é vista como um passo indispensável para a modernização e a sustentabilidade do setor elétrico nacional.

Desafios e oportunidades na adoção em larga escala

Apesar do avanço tecnológico e do crescente interesse, a adoção em larga escala dos sistemas BESS no Brasil ainda enfrenta alguns desafios. A necessidade de regulamentação clara e ágil por parte da Aneel, especialmente após a reforma do setor elétrico, é um ponto crítico. A incerteza regulatória pode desencorajar investimentos de longo prazo e atrasar a expansão do mercado.

Por outro lado, os movimentos recentes do governo, como a visita do ministro Alexandre Silveira à China para atrair o interesse de gigantes como Huawei e CATL, indicam uma forte determinação em viabilizar a tecnologia. A busca por parcerias internacionais e o incentivo à produção nacional, como a fábrica da WEG, são estratégias cruciais para superar os entraves e acelerar a adoção do BESS.

A oportunidade reside em consolidar o Brasil como um centro de excelência em armazenamento de energia, aproveitando seu vasto potencial em fontes renováveis. A integração de sistemas BESS ao SIN não só garantirá a estabilidade da rede, mas também abrirá novas avenidas para a inovação e o desenvolvimento econômico, posicionando o país na vanguarda da transição energética global.

O futuro da energia no Brasil: armazenamento como protagonista

A construção da fábrica de megabaterias em Santa Catarina e o iminente leilão de armazenamento marcam o início de uma nova era para o setor elétrico brasileiro. A capacidade de “estocar” energia limpa e renovável é fundamental para que o Brasil atinja suas metas de descarbonização e garanta um suprimento energético seguro e acessível para todos os cidadãos.

A tecnologia BESS, antes vista como uma utopia, agora se consolida como uma realidade palpável e essencial. A WEG, com seu investimento estratégico em Itajaí, lidera a corrida pela produção nacional de sistemas de armazenamento, impulsionando a inovação e a competitividade do país. A expectativa é que, nos próximos anos, o Brasil se torne um player relevante no mercado global de baterias, transformando seu potencial em energia renovável em um sistema elétrico mais resiliente e sustentável.

A jornada rumo a um futuro energético mais limpo e seguro passa, invariavelmente, pelo armazenamento. A capacidade de gerenciar a variabilidade das fontes eólica e solar, aliada a políticas públicas eficazes e ao investimento em tecnologia nacional, pavimentará o caminho para um Brasil com energia mais confiável, econômica e amiga do meio ambiente.

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