Ligga Telecom é vendida para Brasil TecPar em acordo bilionário e consolida mercado de banda larga
A Ligga Telecom, operadora de banda larga controlada pelo empresário Nelson Tanure, anunciou a assinatura de um contrato de venda de sua principal operação, a de banda larga por fibra óptica, para a Brasil TecPar. O acordo, avaliado em R$ 1,775 bilhão, representa um marco significativo no mercado de telecomunicações brasileiro, impulsionando a Brasil TecPar para o posto de quarta maior operadora de banda larga fixa do país.
O valor total da aquisição compreende R$ 495 milhões pelo controle da operação e a assunção de uma dívida líquida estimada em R$ 1,28 bilhão da Ligga. A transação ocorre em um momento delicado para Tanure, que enfrenta pressões de credores e contestações de sócios minoritários, além de estar sob investigação em operações da Polícia Federal relacionadas a fraudes financeiras.
Paralelamente, a Ligga já havia negociado sua operação de 5G no início do ano, vendida por R$ 20 milhões para a Unifique Telecomunicações. Essas movimentações refletem um processo de reestruturação e desinvestimento em meio a desafios financeiros e jurídicos. As informações foram divulgadas pela imprensa especializada em negócios e telecomunicações.
Histórico e Contexto da Aquisição da Ligga Telecom
A Ligga Telecom, anteriormente conhecida como Copel Telecom, tem uma trajetória marcada por aquisições e mudanças de controle. A empresa foi privatizada pela estatal Companhia Paranaense de Energia (Copel) em novembro de 2020, sendo arrematada por Nelson Tanure, por meio do fundo Bordeaux Participações, em um negócio de R$ 2,4 bilhões. Na época, Tanure contou com o aporte de capital de fundos como Farallon, Prisma, BTG e Santander, utilizando ações da própria Ligga como garantia fiduciária.
A necessidade de Tanure em liquidar ativos parece ter se intensificado devido a pressões de credores, especialmente com o vencimento de dívidas. Para reforçar as garantias, ele chegou a oferecer ações da Light e da Aliança Saúde, que foram executadas pelas instituições financeiras no início deste mês. No entanto, a dívida da Ligga permaneceu ativa, culminando na venda da operação de fibra óptica.
Essa venda não ocorreu sem controvérsias. O sócio minoritário da Ligga, Agnaldo Bastos Lopes, manifestou publicamente sua insatisfação, alegando falta de informações adequadas sobre as negociações e criticando a gestão de Tanure, que descreveu como “desastrosa”. As contestações levantam questões sobre a transparência e os trâmites do processo de venda.
Nelson Tanure e as Investigações da Polícia Federal
O nome de Nelson Tanure esteve recentemente associado à Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em janeiro deste ano. A investigação apura um esquema de fraudes contábeis e financeiras que teria envolvido o Banco Master, instituição financeira liquidada pelo Banco Central em novembro passado. Tanure é apontado pelas investigações como tendo ligações com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
Em sua defesa, Tanure nega qualquer irregularidade, afirmando que suas relações com o Banco Master foram estritamente de cliente e que todas as transações foram lícitas. Contudo, reportagens indicaram que recursos do caixa da Ligga Telecom foram utilizados para aplicações em cédulas de crédito bancário (CCBs) emitidas pelo Master, levantando suspeitas sobre o fluxo financeiro entre as empresas e a instituição bancária.
A venda da Ligga, portanto, ocorre em um contexto complexo, onde desafios financeiros se somam a escrutínio legal e disputas societárias. A pressão dos credores e a necessidade de capital para honrar compromissos parecem ter sido os principais impulsionadores da decisão de vender a operação principal da empresa.
Brasil TecPar: Consolidação e Expansão no Mercado de Banda Larga
Com a aquisição da operação de fibra óptica da Ligga Telecom, a Brasil TecPar dá um salto significativo em sua capacidade e alcance no mercado brasileiro. A empresa adicionará aproximadamente 344 mil clientes à sua base, abrangendo residências, empresas e órgãos públicos. Essa expansão consolida a Brasil TecPar como um player de peso no setor de telecomunicações.
Fundada em 1995 no Rio Grande do Sul, a Brasil TecPar iniciou suas atividades com serviços de internet discada (dial-up) e, ao longo dos anos, expandiu sua atuação através de aquisições estratégicas. A incorporação da carteira de clientes da Ligga a posiciona como a quarta maior operadora de banda larga fixa do Brasil, com um total de 1,689 milhão de acessos. Atualmente, as três maiores operadoras são Claro, Vivo e Oi (agora Nio).
A estratégia de crescimento por aquisições tem sido uma marca da Brasil TecPar, permitindo-lhe ganhar escala e competir em um mercado cada vez mais concentrado. A operação com a Ligga representa a maior aquisição da empresa até o momento, sinalizando sua ambição de se firmar entre os líderes do segmento.
Detalhes Financeiros da Transação e Dívida Assumida
O valor total de R$ 1,775 bilhão acordado para a aquisição da Ligga Telecom pela Brasil TecPar é composto por duas partes principais: o pagamento de R$ 495 milhões pela operação de banda larga por fibra óptica e a assunção de uma dívida líquida estimada em R$ 1,28 bilhão. Essa estrutura demonstra que uma parcela significativa do valor da transação está atrelada à quitação de passivos da Ligga.
A dívida assumida pela Brasil TecPar reflete os investimentos e custos operacionais que a Ligga acumulou, incluindo a aquisição da Copel Telecom e os custos de expansão da rede de fibra óptica. A capacidade da Brasil TecPar de gerenciar e reestruturar essa dívida será crucial para o sucesso da integração e para a sustentabilidade financeira do negócio.
A venda da operação de 5G por R$ 20 milhões para a Unifique Telecomunicações, realizada anteriormente pela Ligga, indica uma estratégia de desmobilização de ativos menos estratégicos ou que demandam investimentos específicos, concentrando esforços na venda da operação principal para sanar obrigações financeiras mais vultosas.
Impacto no Mercado e Futuro da Ligga Telecom
A aquisição da Ligga Telecom pela Brasil TecPar tem um impacto direto na dinâmica competitiva do mercado de banda larga no Brasil. Ao se tornar a quarta maior operadora, a Brasil TecPar aumenta sua participação de mercado e sua capacidade de investimento em infraestrutura e tecnologia, podendo intensificar a concorrência com os players já estabelecidos.
Para os consumidores, a consolidação pode significar a chegada de novas ofertas e melhorias na qualidade dos serviços, especialmente em regiões onde a Ligga possuía forte presença. No entanto, em mercados onde ambas as empresas atuavam, pode haver uma redução nas opções disponíveis a longo prazo, dependendo das estratégias de integração e precificação da nova entidade combinada.
O futuro da marca Ligga como entidade independente, após a venda de sua operação principal de fibra óptica e da operação de 5G, permanece incerto. É provável que a marca seja gradualmente descontinuada ou incorporada à identidade da Brasil TecPar, seguindo o padrão de outras aquisições no setor de telecomunicações.
Aprovação Regulatória e Próximos Passos da Transação
A conclusão da venda da Ligga Telecom para a Brasil TecPar está sujeita à aprovação de órgãos reguladores essenciais para o setor de telecomunicações e de defesa da concorrência. Entre as principais etapas está a análise e o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Esses órgãos avaliarão se a operação representa algum risco à livre concorrência no mercado de banda larga e se cumpre os requisitos técnicos e regulatórios. O processo de aprovação pode levar alguns meses e envolver a imposição de condições ou remédios para mitigar eventuais impactos negativos identificados.
Somente após a obtenção das devidas autorizações regulatórias, a Brasil TecPar poderá, de fato, integrar totalmente a operação de fibra óptica da Ligga Telecom aos seus negócios, consolidando sua posição como um dos principais provedores de internet fixa do país.
Desafios e Oportunidades para a Brasil TecPar Pós-Aquisição
A integração de uma operação de grande porte como a da Ligga Telecom apresenta desafios significativos para a Brasil TecPar. A unificação de bases de clientes, sistemas de gestão, equipes e infraestruturas de rede requer um planejamento meticuloso e uma execução eficiente para evitar interrupções nos serviços e garantir a satisfação dos clientes.
Um dos principais desafios será a gestão da dívida de R$ 1,28 bilhão assumida. A Brasil TecPar precisará otimizar a estrutura de capital e as finanças da nova operação para garantir sua rentabilidade e capacidade de investimento futuro. A sinergia esperada com a aquisição deverá ser explorada para reduzir custos e aumentar a eficiência operacional.
Por outro lado, a oportunidade de se tornar a quarta maior operadora de banda larga do Brasil é imensa. A expansão da cobertura, o acesso a uma base de clientes maior e a potencial oferta de serviços convergentes (móvel, fixo, TV) representam um caminho promissor para o crescimento e a consolidação da Brasil TecPar no mercado de telecomunicações, fortalecendo sua posição competitiva diante de gigantes como Claro, Vivo e Oi.
Contestação Societária e o Futuro da Ligga sob Tanure
A venda da Ligga Telecom não está isenta de contestações internas. Agnaldo Bastos Lopes, sócio minoritário da operadora, tem manifestado publicamente sua discordância com o processo de venda, alegando que não recebeu informações claras e completas sobre as negociações. Suas críticas à gestão de Nelson Tanure adicionam uma camada de complexidade jurídica e de governança à transação.
Essas contestações podem gerar litígios e atrasar o fechamento do negócio, caso não sejam resolvidas amigavelmente. A insatisfação de um sócio minoritário pode indicar problemas na condução dos negócios e na transparência dos processos decisórios, o que pode afetar a percepção do mercado e a confiança dos investidores.
Para Nelson Tanure, a venda da Ligga representa uma saída estratégica de um ativo que se tornou um passivo financeiro e jurídico. A pressão dos credores e as investigações em curso parecem ter forçado a decisão de alienar a operação principal, buscando mitigar riscos e honrar compromissos financeiros, enquanto a empresa se reconfigura ou mesmo se desintegra após a venda de seus principais ativos.