Starlink Gratuito no Irã: A Luta por Conectividade Contra a Repressão Governamental
O Irã tem enfrentado uma semana de severo bloqueio de internet, impactando diretamente a população em meio a protestos antigovernamentais. A falta de conexão tem dificultado a comunicação e a divulgação de informações sobre a situação no país.
Nesse cenário de isolamento digital, a empresa SpaceX, de Elon Musk, deu um passo significativo. Ela está oferecendo acesso gratuito à internet via satélite Starlink para usuários iranianos, conforme revelado por um especialista em tecnologia com contato direto com a rede.
Contas Starlink previamente inativas no Irã foram reativadas e tiveram suas taxas de assinatura suspensas desde a última terça-feira, 13 de dezembro, segundo Ahmad Ahmadian, diretor-executivo da organização Holistic Resilience, em informações divulgadas pela CNN.
A Conexão Starlink Como Janela para o Mundo
A iniciativa de disponibilizar a internet gratuita no Irã surge após discussões entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e Elon Musk, sobre o acesso via satélite no país. Nem a SpaceX nem a Casa Branca comentaram oficialmente sobre o assunto.
Para os ativistas, o acesso gratuito é um alívio bem-vindo. Ahmadian explicou à CNN que o uso do terminal de satélite é simples: “É só conectar… basta colocar [o terminal de satélite] em algum lugar com boa visibilidade do céu e pronto”.
Apesar de ser uma ajuda valiosa, especialistas alertam que a Starlink provavelmente alcançará apenas uma pequena parcela da população iraniana de 92 milhões de pessoas. Além disso, o regime possui a capacidade de tentar bloquear o serviço.
Em muitos casos, a Starlink tem sido a “única maneira de divulgar” informações ao mundo sobre manifestantes mortos, conforme destacou Ahmadian à CNN. A tecnologia se tornou um braço fundamental do poder brando dos EUA em regiões fechadas, como a Ucrânia.
Desafios e o Grande Firewall Iraniano
O governo iraniano é conhecido por sua vasta experiência em vigilância e censura digital. Doug Madory, da empresa de monitoramento Kentik, afirmou à CNN que os governantes do Irã “criaram seu próprio Grande Firewall que bloqueia tudo, exceto o tráfego autorizado”.
Bloquear o acesso à internet é relativamente simples para o regime, pois apenas duas empresas conectam o Irã à rede global. As autoridades iranianas estão utilizando táticas diversas para interferir e degradar os sinais da Starlink no país.
Ahmadian mencionou que parte dessa interferência é de “nível militar”, similar às ações da Rússia contra os terminais da SpaceX nas linhas de frente da Ucrânia. Isso demonstra a sofisticação dos métodos usados pelo regime.
Mesmo sem uma licença oficial para operar no Irã, Musk já havia afirmado que o serviço estava ativo. As autoridades iranianas criminalizaram o uso da Starlink após o conflito entre Israel e Irã no ano passado, tornando seu uso um risco de execução.
O Impacto Limitado, Mas Crucial, da Conectividade
Apesar dos riscos, houve um aumento na demanda por equipamentos Starlink no Irã após os ataques de Israel, conforme relatado por Ahmadian. Estima-se que existam cerca de 50 mil receptores Starlink no país, segundo Mahsa Alimardani, especialista em tecnologia da organização Witness.
Alimardani descreveu as conexões Starlink como uma “pequena janela” para a repressão sangrenta no Irã. Ela enfatizou à CNN que “se essa janela de transmissão pudesse ser ampliada, seria uma grande vantagem e até mesmo um fator de dissuasão para o regime em seus esforços para cometer o que provavelmente será considerado uma atrocidade sob um bloqueio de comunicação”.
Além da Starlink, o governo dos Estados Unidos tem financiado redes virtuais privadas (VPNs) e outras ferramentas de software para ajudar os iranianos a contornar a censura. No entanto, o governo Trump cortou o financiamento para esses esforços no ano passado.
Pelo menos uma organização que trabalhava para fornecer terminais Starlink ao povo iraniano perdeu o financiamento americano. Funcionários do Departamento de Estado expressaram frustração com os cortes, com um deles dizendo à CNN que, mesmo programas ativos, muitos estavam “com dificuldades porque os pagamentos não estão sendo feitos em dia”.
A CNN solicitou um posicionamento do Departamento de Estado, e a Missão Permanente do Irã junto às Nações Unidas recusou-se a comentar sobre a reportagem. A internet gratuita no Irã, embora limitada, representa um elo vital para a informação e a resistência.