A apreensão de cinco celulares adicionais pertencentes a Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, na segunda fase da Operação Compliance Zero, está no centro de uma crescente polêmica judicial. Estes dispositivos são considerados por investigadores como cruciais para desvendar um suposto esquema envolvendo autoridades públicas e o Judiciário.

No entanto, uma decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), de retirar os aparelhos da custódia da Polícia Federal e nomear peritos específicos para a extração dos dados, tem gerado apreensão. A medida levanta sérias preocupações sobre a integridade das provas do Banco Master e a capacidade de conectar as novas evidências com o que já foi apurado na operação iniciada em novembro.

Analistas alertam que o processo pode atrasar significativamente a investigação, comprometendo a eficácia de futuros depoimentos. As informações foram apuradas pela Gazeta do Povo.

Controvérsia na Custódia das Provas

A decisão do ministro Dias Toffoli, relator do caso no STF, de avocar o inquérito e encaminhar os materiais apreendidos para a Procuradoria-Geral da República (PGR) causou um mal-estar institucional. Além de transferir a custódia, Toffoli indicou nominalmente quatro peritos da Polícia Federal (PF) para a extração dos dados dos celulares, uma prática incomum em investigações.

Normalmente, a PF é responsável por periciar, guardar e analisar as provas, apresentando relatórios que subsidiam as ações do Ministério Público. A interferência direta do STF na fase pericial é vista por especialistas como uma manobra que pode atrasar a apuração e, em tese, favorecer os investigados, como Daniel Vorcaro, que deve depor em breve.

O ministro alegou que a medida visa preservar a integridade do material apreendido e garantir o controle judicial, especialmente por envolver indícios de crimes com autoridades com foro privilegiado. Contudo, investigadores temem que o sigilo extremo e a nomeação de peritos específicos abram margem para seletividade de provas, comprometendo a análise e o cruzamento de informações.

Ainda segundo a fonte, os quatro peritos designados por Toffoli são considerados idôneos, mas não são conhecidos pela agilidade, o que pode atrasar o acesso da equipe maior de 12 peritos da PF, que fará a análise aprofundada. Este cenário intensifica o clima tenso entre a PF e o gabinete do ministro, afetando a cadeia de custódia das provas.

Conflitos de Interesse e Blindagem Institucional

A atuação de Dias Toffoli no caso tem sido alvo de questionamentos desde que a defesa de Daniel Vorcaro alegou foro privilegiado, após o surgimento do nome de um deputado federal da Bahia nas investigações. A parcialidade do ministro foi posta em xeque quando veio a público que ele viajou em um jato particular com um dos advogados do Banco Master.

Além disso, analistas alertam para uma possível blindagem em conexões indiretas. Há indícios de ligação entre fundos do Banco Master e empresas que tiveram participação de familiares de Dias Toffoli, por meio de uma cadeia de investimentos investigada pela PF. Movimentações financeiras milionárias em empreendimentos no Paraná, envolvendo um cunhado de Vorcaro, também estão sob apuração.

Outra suspeita recai sobre a relação do banco com o escritório de advocacia Barci de Moraes, onde atua Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Um contrato milionário para a defesa dos interesses do Banco Master em órgãos como o Banco Central e a Receita Federal motivou questionamentos sobre um possível conflito de interesses, embora Moraes tenha negado interferência.

O constitucionalista André Marsiglia alerta que o sigilo quase absoluto e o acesso restrito às provas, somados a um inquérito instaurado por Moraes para investigar vazamentos no Coaf e na Receita Federal envolvendo magistrados e familiares, podem indicar uma cadeia de proteção. “Sobretudo depois que nomes de pessoas ligadas aos ministros passaram a aparecer no caso”, destacou o especialista.

A Importância dos Celulares para a Investigação

Os celulares de Daniel Vorcaro e outros dispositivos eletrônicos apreendidos são considerados peças-chave para elucidar o suposto esquema ilegal envolvendo o Banco Master e figuras influentes em Brasília. Investigadores descrevem esses aparelhos como “bombas reveladoras”, contendo vídeos, documentos e trocas de mensagens.

Essas comunicações, conforme a fonte, envolveriam agentes do mercado financeiro, integrantes da elite política e órgãos de cúpula do Estado, incluindo tribunais de controle e o próprio Judiciário. O sigilo e a restrição de acesso aos aparelhos colocam em risco a preservação dessas provas e a obtenção de elucidações que poderiam ter um “efeito bombástico”.

A segunda fase da Operação Compliance Zero buscou aprofundar as apurações sobre supostas fraudes financeiras e esquemas de lavagem de dinheiro, com foco nos dispositivos eletrônicos. A Polícia Federal afirmou que o objetivo era “interromper a atuação da organização criminosa, assegurar a recuperação de ativos e dar continuidade às investigações”.

Próximos Passos e Questionamentos

Novas fases da operação não estão descartadas, e Daniel Vorcaro, juntamente com outros investigados, deverá prestar novos depoimentos à PF. Contudo, a determinação de Toffoli de que os depoimentos sejam colhidos em dois, e não em cinco dias, como previsto inicialmente, levanta mais preocupações.

Para investigadores, a rapidez exigida pode comprometer a qualidade dos depoimentos, pois é “muito provável que até as datas mencionadas, as novas provas sequer tenham passado por extração e perícia”. Este cenário dificulta o cruzamento de informações e a formulação de perguntas mais embasadas.

O suposto esquema, que já indicaria fraudes financeiras, ocultação patrimonial e uma complexa rede de influência, envolve crimes como organização criminosa, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta e manipulação de mercado. O prejuízo estimado chega a R$ 12 bilhões, conforme especialistas e o ministro Fernando Haddad.

O constitucionalista André Marsiglia reforça a necessidade de clareza: “Diante do que foi determinado para as provas, há questionamentos sobre a autonomia da Polícia Federal para realizar perícias imediatas. A forma de custódia e análise delas poderá ser determinante não apenas para o desfecho do caso, mas também para a credibilidade e a robustez jurídica de todo o processo”. Ele questiona a quem interessa “manter essas provas tão bem guardadas, sob um sigilo extremo em um caso que, por interesse público e financeiro, sequer deveria estar sob sigilo”.

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