Tensão entre Tarcísio e Kassab: A linha tênue entre lealdade e submissão no cenário político paulista
A governabilidade em São Paulo tem sido marcada por um crescente atrito entre o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e seu Secretário de Governo, Gilberto Kassab (PSD). A troca de indiretas públicas entre os dois líderes políticos expôs um incômodo latente nos bastidores, que já vinha sendo percebido tanto no Palácio dos Bandeirantes quanto nas cúpulas do PSD. A polêmica ganhou contornos mais nítidos após Kassab sugerir, no final de janeiro, que Tarcísio precisaria desenvolver uma identidade própria, distinta da influência do ex-presidente Jair Bolsonaro, diferenciando assim os conceitos de lealdade e submissão.
Essa declaração foi amplamente interpretada por aliados do governador como uma crítica direta ao vínculo político entre Tarcísio e Bolsonaro. A resposta de Tarcísio não tardou e, durante um evento na quinta-feira (19), ele rebateu indiretamente, afirmando que quem fala em submissão demonstra desconhecimento sobre lealdade e amizade, ressaltando seu compromisso com seus próprios valores. No dia seguinte, Kassab publicou em suas redes sociais uma mensagem listando “bons amigos e conselheiros” em sua carreira política, relembrando apoios considerados acertos, incluindo o suporte à candidatura de Tarcísio em 2022. Esse movimento foi visto por observadores como uma resposta calculada à postura do governador.
Aliados de Tarcísio admitiram um esfriamento na relação política entre os dois, indicando que Kassab teria perdido espaço nas discussões estratégicas mais relevantes para o governo paulista. A recente contratação de um novo Secretário da Casa Civil, com perfil mais voltado à articulação política, reforça esse cenário de reconfiguração interna. Reservadamente, membros do grupo político de Tarcísio avaliam que o presidente do PSD “foi para o fim da fila” nas considerações para uma eventual composição como vice em 2026, após as recentes declarações. A avaliação geral é que a fala sobre submissão gerou um ruído desnecessário em um momento crucial para a consolidação política nacional de Tarcísio.
O embate público: Lealdade vs. Submissão em foco
O descontentamento entre Tarcísio de Freitas e Gilberto Kassab ganhou traços de embate público, com ambos os lados trocando farpas veladas que revelam discordâncias estratégicas e de visão política. A declaração de Kassab, que sugeriu a necessidade de Tarcísio ter “identidade própria” e diferenciar “lealdade de submissão” em relação a Bolsonaro, ecoou como um sinal de alerta para o grupo do governador. Para os aliados de Tarcísio, a fala de Kassab foi interpretada como uma tentativa de desqualificar a relação de Tarcísio com o ex-presidente, insinuando uma submissão que o governador nega veementemente.
Tarcísio, ao responder indiretamente, buscou reafirmar sua autonomia e seus princípios. Ao declarar que “quem fala em submissão não entende nada sobre lealdade nem sobre amizade”, o governador sinalizou que sua fidelidade aos seus valores e às pessoas com quem mantém laços é inabalável. A referência à amizade sugere que ele vê a relação com Kassab como algo mais profundo do que apenas um acordo político, mas que essa amizade estaria sendo testada pelas declarações do secretário. A postura de Tarcísio visa projetar uma imagem de liderança firme e independente, capaz de tomar suas próprias decisões sem se curvar a pressões externas.
A resposta de Kassab, através das redes sociais, demonstrou uma estratégia de comunicação calculada. Ao listar “bons amigos e conselheiros” e relembrar apoios importantes, como o dado à candidatura de Tarcísio em 2022, o secretário buscou reforçar seu papel como um aliado estratégico e experiente. Esse movimento pode ser interpretado como uma forma de Kassab de se posicionar como um pilar fundamental na trajetória política de Tarcísio, ao mesmo tempo em que sutilmente lembra ao governador o quanto ele pode precisar de sua experiência e de seu grupo político. A jogada, no entanto, não foi suficiente para dissipar a percepção de um crescente distanciamento entre os dois.
Bastidores do Palácio dos Bandeirantes: Kassab perde espaço e Tarcísio busca autonomia
Nos corredores do Palácio dos Bandeirantes, a percepção é de que Gilberto Kassab tem perdido influência nas decisões estratégicas do governo Tarcísio. Aliados do governador ouvidos pela reportagem indicam que o Secretário de Governo já não participa com a mesma intensidade das conversas que definem os rumos mais importantes da gestão paulista. Essa perda de espaço é vista como uma consequência direta das divergências de visão e das declarações que geraram atrito.
A recente nomeação de um novo Secretário da Casa Civil, com um perfil mais atuante na articulação política, é um indicativo adicional dessa reacomodação interna. A intenção seria fortalecer a capacidade de negociação e diálogo do governo com outras esferas de poder, possivelmente contornando a influência que Kassab exercia nessa área. Para os integrantes do grupo político de Tarcísio, a atuação de Kassab nas últimas semanas teria criado mais problemas do que soluções, justificando a necessidade de buscar novas estratégias e novas lideranças para a articulação política.
A avaliação reservada entre os aliados de Tarcísio é que as falas de Kassab sobre a relação do governador com Bolsonaro teriam prejudicado a imagem de Tarcísio em um momento delicado. A busca por consolidar uma posição nacionalmente requer uma comunicação mais alinhada e menos controversa. Por isso, a percepção de que Kassab teria “ido para o fim da fila” nas cogitações para uma possível chapa de vice em 2026 reflete essa insatisfação e a necessidade de Tarcísio de se desvencilhar de polêmicas desnecessárias.
A disputa silenciosa por 2026: Vice na mira e divergências estratégicas
O cenário político em São Paulo já se volta para as eleições de 2026, e as recentes movimentações entre Tarcísio de Freitas e Gilberto Kassab revelam uma disputa silenciosa por espaço e protagonismo nesse futuro pleito. Um dos pontos de atrito mais evidentes é a definição de quem ocupará a vaga de vice na chapa de Tarcísio, caso ele concorra à reeleição ou a um cargo maior.
Enquanto Kassab é apontado por seus aliados como um interessado em ser o vice de Tarcísio, o governador tem sinalizado uma preferência por manter o atual vice, Felício Ramuth. Essa divergência sobre a composição da chapa futura já indica uma diferença de planos e ambições. Tarcísio parece buscar uma composição que consolide sua base de apoio atual, enquanto Kassab, com sua experiência política, poderia almejar um papel de maior destaque.
Além da questão do vice, as divergências estratégicas sobre o posicionamento nacional de Tarcísio também acentuam as tensões. Enquanto o governador mantém um alinhamento público claro com Jair Bolsonaro, o PSD, sob a liderança de Kassab, tem buscado nos bastidores ampliar suas pontes com o centro político. Essa diferença de abordagem reflete a dificuldade do PSD em se desvencilhar de uma imagem mais conservadora e a tentativa de Tarcísio de atrair um eleitorado mais amplo, o que pode gerar conflitos de interesse e visões sobre os caminhos a serem trilhados.
PSD em expansão: Avanço em São Paulo gera incômodo na base aliada
Outro fator que contribui para o desgaste na relação entre Tarcísio e Kassab, e que gera desconforto em setores da base aliada do governo paulista, é a movimentação do PSD para filiar prefeitos e parlamentares no estado de São Paulo. Essa estratégia de expansão partidária do PSD, liderada por Kassab, é vista por alguns como uma tentativa de fortalecer a legenda em território paulista, o que pode vir a competir ou a gerar atritos com os partidos que compõem a base de apoio de Tarcísio.
O avanço do PSD em São Paulo, buscando atrair quadros políticos locais, pode ser interpretado como uma forma de Kassab de consolidar sua força política no estado e de se posicionar como um player relevante nas futuras disputas eleitorais. No entanto, essa movimentação pode gerar receios em outros partidos da base aliada, que veem a expansão do PSD como um risco à sua própria representatividade e influência. A articulação política, neste caso, torna-se um campo de disputa onde os interesses partidários se sobrepõem à unidade da base governista.
A busca do PSD por mais espaço político em São Paulo, especialmente em um momento em que Kassab busca se fortalecer para as eleições de 2026, pode gerar novas frentes de tensão. É fundamental para o governo Tarcísio gerenciar essas disputas internas e garantir que os interesses partidários não comprometam a governabilidade e a coesão da base aliada. A capacidade de Tarcísio de navegar por essas águas turbulentas definirá, em grande parte, seu sucesso em consolidar seu projeto político para os próximos anos.
A saída de Kassab do governo Tarcísio: Foco no PSD e estratégia eleitoral
Apesar do recente ruído e das divergências públicas, interlocutores próximos a Tarcísio e Kassab afirmam que, no momento, não há risco de um rompimento definitivo entre eles. Gilberto Kassab, inclusive, deve deixar o comando da Secretaria de Governo em breve, uma saída que já vinha sendo planejada anteriormente. A decisão de Kassab de deixar a pasta é motivada pelo desejo de se dedicar integralmente às estratégias do PSD para as próximas eleições.
Aliados de Kassab indicam que ele avalia ser incompatível permanecer como secretário de Estado em São Paulo enquanto participa ativamente de campanhas eleitorais em diversos outros estados do país. Essa decisão de focar no PSD e em campanhas nacionais reflete a ambição de Kassab em fortalecer o partido e projetar sua própria liderança em um cenário político mais amplo. A saída da Secretaria de Governo, portanto, é vista como um passo estratégico para que ele possa se dedicar a essas novas frentes de atuação.
A saída de Kassab, embora planejada, ocorre em um momento de alta tensão política, o que pode gerar interpretações diversas sobre suas motivações. Contudo, é inegável que ele continua sendo considerado uma peça relevante na articulação política da gestão paulista, mesmo que por um período limitado. Sua experiência e sua rede de contatos podem ser cruciais para o governo Tarcísio até o momento de sua saída. A partir daí, o governador terá o desafio de reorganizar a articulação política e lidar com as implicações da saída de um nome tão influente.
O impacto na articulação política e no futuro de Tarcísio
A troca de farpas e o consequente distanciamento entre Tarcísio de Freitas e Gilberto Kassab têm implicações diretas na articulação política do governo paulista e no projeto de Tarcísio para 2026. A perda de espaço de Kassab nas conversas estratégicas e sua iminente saída da Secretaria de Governo criam um vácuo que precisará ser preenchido, possivelmente com novas lideranças e novas dinâmicas de poder.
A nomeação de um novo Secretário da Casa Civil, com foco em articulação política, já sinaliza uma tentativa de Tarcísio de fortalecer essa frente de atuação. No entanto, a ausência de Kassab, conhecido por sua habilidade em costurar acordos e dialogar com diferentes espectros políticos, pode representar um desafio. Tarcísio precisará demonstrar sua capacidade de liderança e de negociação para manter a coesão de sua base aliada e avançar em sua agenda de governo.
Para 2026, a insatisfação expressa e a percepção de que Kassab teria “ido para o fim da fila” nas cogitações para vice indicam uma possível reconfiguração das alianças. Tarcísio parece estar buscando construir um caminho mais independente, menos atrelado a figuras que possam gerar controvérsia ou que não estejam totalmente alinhadas com sua visão de futuro. A forma como ele lidará com as tensões internas e com a saída de Kassab definirá, em grande medida, seu potencial de consolidação política e suas chances nas próximas eleições.
O futuro da relação Tarcísio-Bolsonaro e a estratégia do PSD
Um dos pontos centrais da discórdia entre Tarcísio e Kassab reside na estratégia de posicionamento político em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Enquanto Tarcísio mantém um alinhamento público e declarado com Bolsonaro, buscando capitalizar sobre a popularidade do ex-presidente, o PSD, sob a influência de Kassab, tem demonstrado uma inclinação a buscar um diálogo mais amplo com o centro político.
Essa divergência de visão estratégica reflete um dilema enfrentado por muitos políticos que emergiram sob a sombra de Bolsonaro: como manter a base fiel sem alienar potenciais aliados em um cenário de maior disputa eleitoral. Kassab, com sua experiência partidária, parece entender a necessidade de expandir o eleitorado do PSD e de se apresentar como uma opção mais palatável para um público mais diversificado. Essa estratégia, no entanto, pode entrar em conflito direto com a lealdade que Tarcísio demonstra a Bolsonaro.
A forma como Tarcísio navegará essa dualidade – manter o apoio de sua base bolsonarista ao mesmo tempo em que busca expandir sua influência para outros segmentos políticos – será crucial para seu futuro. A saída de Kassab do governo pode, paradoxalmente, dar a Tarcísio mais liberdade para definir sua própria estratégia nacional, sem as pressões de um aliado com visões distintas. O PSD, por sua vez, terá o desafio de encontrar seu espaço em um cenário político cada vez mais polarizado, buscando equilibrar suas alianças e sua identidade partidária.
A complexa teia de alianças e ambições no cenário paulista
O embate entre Tarcísio de Freitas e Gilberto Kassab é apenas um reflexo da complexa teia de alianças e ambições que moldam o cenário político paulista. A disputa por espaço no governo, a definição de candidaturas para 2026 e as estratégias partidárias se entrelaçam, criando um ambiente de constante negociação e, por vezes, de atrito.
A saída de Kassab da Secretaria de Governo, embora já planejada, representa um ponto de inflexão. Ele deixa a gestão estadual para focar no fortalecimento do PSD e na preparação de campanhas eleitorais em outros estados. Essa movimentação, enquanto visa consolidar o partido e sua própria liderança, pode gerar novas dinâmicas de poder em São Paulo e influenciar as futuras alianças políticas.
Para Tarcísio, o desafio agora é consolidar sua liderança, gerenciar as expectativas de sua base aliada e definir seu projeto político para os próximos anos sem a presença de um articulador como Kassab. A forma como ele conduzirá essas negociações e alianças definirá seu sucesso em se firmar como uma força política relevante no cenário nacional, especialmente em vista das eleições de 2026.