O cenário político e financeiro brasileiro foi agitado por uma decisão inusitada do Tribunal de Contas da União (TCU), que, por meio do ministro Jhonatan de Jesus, determinou uma inspeção no Banco Central. Esta medida, considerada inédita e indevida, visava apurar as circunstâncias da liquidação do Banco Master, gerando forte reação no mercado financeiro e na opinião pública.
Após ampla pressão e o questionamento formal do Banco Central, o ministro Jhonatan de Jesus recuou de sua própria ordem. Contudo, a justificativa apresentada levanta dúvidas sobre a real motivação, sugerindo que a decisão pode ter sido mais uma tentativa de esfriar o caso do que um reconhecimento de erro.
Este episódio, somado a outras movimentações controversas em torno do Banco Master, acende um alerta sobre a necessidade urgente de transparência e de uma investigação rigorosa para desvendar a teia de interesses envolvida, conforme apurado pelas fontes.
O Recuo do TCU e a Defesa da Autonomia do Banco Central
A decisão inicial do ministro Jhonatan de Jesus de inspecionar o Banco Central, tomada de forma monocrática, foi amplamente criticada por sua natureza inédita e pela potencial interferência na autonomia do BC. O recurso apresentado pelo Banco Central argumentava que tal medida, se cabível, deveria ser resultado de uma decisão colegiada, e não individual.
O ministro utilizou este recurso como pretexto para suspender sua ordem, aguardando o retorno do recesso do TCU. No entanto, sua justificativa para a reviravolta, que culpou a “dimensão pública assumida pelo caso, com contornos desproporcionais para providência instrutória corriqueira”, não convenceu.
Críticos apontam a falta de explicação para o que haveria de “corriqueiro” em uma medida sem precedentes. A ação do ministro foi vista como um ataque à autonomia do Banco Central, um pilar fundamental para a estabilidade econômica do país.
Até mesmo o presidente do TCU, Vital do Rêgo, embora defendendo a corte, afirmou que “o que nós veremos é que o BC teve toda razão em liquidar o Banco Master”. Ele classificou a suspensão como resultado de um “tensionamento”, sem admitir que o TCU tenha extrapolado suas competências.
A Interferência Política no Controle de Contas
A atuação do TCU neste caso não é um incidente isolado, mas reflete um padrão de autoampliação de poderes da corte. A Gazeta do Povo já havia destacado que o Tribunal vem avançando sobre as competências de diversas agências reguladoras há anos.
Carlos Ari Sundfeld, professor de Direito da FGV-SP, ressaltou que o TCU “tem interferido em processos decisórios sem relação com o controle de contas, interferindo na formatação de outorgas de infraestrutura e até na negociação de acordos, um papel que não lhe cabe”.
Este fenômeno é atribuído a múltiplas causas, incluindo o enfraquecimento das agências reguladoras e a própria composição do TCU. Muitos de seus membros, como Jhonatan de Jesus, ex-deputado federal ligado ao Centrão, são indicações mais políticas do que técnicas, o que levanta questões sobre a imparcialidade e a expertise da corte em temas tão complexos como a liquidação de um banco.
Campanha de Difamação e a Trama em Brasília
Além da polêmica no TCU, o caso do Banco Master revelou uma série de manobras para tentar reverter a liquidação. Influenciadores procuraram a imprensa para denunciar uma campanha coordenada e bem remunerada para desacreditar o Banco Central.
Um levantamento da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), divulgado pelo jornal O Estado de S.Paulo, identificou quase 5 mil críticas ao BC em um único dia, 27 de dezembro do ano passado. O Banco Master foi liquidado em meados de novembro, e a campanha visava principalmente Renato Gomes, ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, um dos defensores da liquidação.
Montagens e informações falsas, como a alegação de que a avaliação da compra do Master pelo Banco de Brasília levou apenas 42 minutos, foram disseminadas, quando, na verdade, o processo durou meses. Essa orquestração de desinformação sublinha a gravidade da situação e a falta de transparência em torno dos fatos.
A Urgência por Transparência e Justiça no Caso Master
A Polícia Federal deve investigar a campanha de difamação contra o Banco Central, somando-se às investigações já em curso sobre as fraudes do Banco Master que levaram à sua liquidação. É inegável que poucas decisões de liquidação bancária geraram reações tão intensas e multifacetadas.
A lista de eventos controversos é extensa: o sigilo inexplicável imposto pelo ministro do STF Dias Toffoli, incluindo uma ordem de acareação (posteriormente revogada) entre o dono do Master, Daniel Vorcaro, e diretores do BC; a inspeção caótica do TCU; a tentativa frustrada de aprovar um projeto de lei para demitir diretores do BC; o silêncio sobre um contrato milionário do Master com o escritório de advocacia da esposa de Alexandre de Moraes; e a contratação de influenciadores para discutir temas financeiros complexos.
Não basta que todas essas questões sejam apuradas com rigor; é fundamental que sejam investigadas com total transparência. O Brasil merece conhecer a verdadeira teia de interesses que envolve Daniel Vorcaro, quem busca protegê-lo e quais são as razões por trás de tantas movimentações atípicas em torno do Banco Master.