Mais uma vez, as ruas do Irã se tornaram palco de intensos protestos contra o regime teocrático que governa o país desde a Revolução Islâmica de 1979. A resposta das autoridades iranianas tem sido marcada por um grau de violência que alarma a comunidade internacional, com promessas de processos rápidos e execuções de manifestantes para tentar conter as multidões.
Em ocasiões anteriores, como em 2022, após a morte de Mahsa Amini, a jovem presa por não usar corretamente o hijab, os teocratas conseguiram sufocar a revolta popular. Contudo, a atual escalada de violência e a abrangência dos protestos sugerem que desta vez a situação pode ser diferente, colocando a teocracia iraniana sob um escrutínio sem precedentes.
A repressão já resultou em um número alarmante de vítimas. Segundo a organização Human Rights Activists (HRANA), sediada nos EUA, o total de mortos já ultrapassa os 2,4 mil, e mais de 18 mil iranianos foram atingidos pela violência estatal, entre mortos e presos. Em comparação, os protestos de 2022 tiveram menos de 500 mortos, conforme dados da Iran Human Rights (IHRNGO), evidenciando a brutalidade da resposta atual.
A Intensidade da Repressão e o Bloqueio da Informação
A situação no Irã é crítica, com a repressão ganhando licença para matar nas ruas. O mundo aguarda notícias sobre Erfan Soltani, um manifestante de 26 anos cuja execução foi anunciada, exemplificando a celeridade e a falta de respeito aos direitos dos réus nos julgamentos prometidos pelo governo.
Para controlar a narrativa e dificultar a organização dos manifestantes, os aiatolás bloquearam a internet no país há uma semana. Atualmente, apenas uma rede doméstica está em funcionamento, permitindo o acesso apenas a sites aprovados pelo governo.
A comunicação com o exterior também foi severamente restringida, tornando quase impossível telefonar para o Irã. Apesar disso, a rede CNN informou que, em alguns momentos, pessoas dentro do Irã conseguiram fazer ligações para fora do país, indicando brechas na censura.
A Economia como Estopim e a Expansão do Movimento
Desta vez, o principal catalisador dos protestos foi a crise econômica. A inflação de 2025 atingiu 42,5%, e a moeda local, o rial, sofreu uma desvalorização de 69% em relação ao dólar, mesmo com a moeda norte-americana perdendo valor globalmente no último ano.
Lojistas e comerciantes, insatisfeitos com a situação econômica, iniciaram as manifestações no final de dezembro. Rapidamente, jovens, estudantes e a população mais pobre, os mais afetados pela alta dos preços, juntaram-se ao movimento, transformando os protestos em atos contra o regime como um todo.
Inicialmente, o governo adotou um discurso conciliador, admitindo os problemas econômicos. No entanto, à medida que as manifestações se intensificaram e se espalharam por todas as 31 províncias do país, a postura mudou para a repressão violenta, indicando a gravidade da ameaça percebida pelo regime.
O Isolamento Internacional do Irã e a Pressão Externa
A atual onda de protestos é alimentada também pelo enfraquecimento internacional do Irã. Seus aliados no chamado “eixo da resistência”, como os grupos terroristas Hamas e Hezbollah, e os houthis do Iêmen, estão severamente debilitados, especialmente após a reação israelense ao ataque de 7 de outubro de 2023.
Na Síria, o aliado Bashar al-Assad caiu em dezembro de 2024, removendo um importante pilar de influência regional iraniana. Além disso, o próprio território iraniano não está incólume, como demonstraram os ataques israelenses e norte-americanos a instalações nucleares e as ações de Israel para eliminar líderes terroristas e chefes da Guarda Revolucionária iraniana.
Esse cenário permitiu que os Estados Unidos aumentassem sua pressão sobre a teocracia islâmica. Donald Trump, por exemplo, anunciou tarifas de 25% sobre produtos de países que negociarem com os iranianos, incluindo o Brasil, e sugeriu uma possível intervenção militar caso o regime execute manifestantes.
Contudo, a comunidade internacional observa com cautela as declarações de Trump, ciente de que suas políticas podem ser seletivas e imprevisíveis, como visto nas ações contra a Venezuela ou nas sanções aplicadas apenas à Índia após a compra de petróleo russo.
Um Futuro Incerto: Queda da Teocracia Iraniana e os Desafios Pós-Regime
A teocracia iraniana é conhecida por ser uma violadora contumaz dos direitos humanos, oprimindo mulheres e minorias como a população LGBT, além de prender e matar dissidentes. O regime também financia o terrorismo internacional e busca desenvolver armas atômicas, desestabilizando a região.
Não faltam motivos para que o regime dos aiatolás seja derrubado pelas mãos dos próprios iranianos. A questão se isso ocorrerá agora, no entanto, permanece incerta. Mesmo que o regime caia, não há garantia de que o futuro trará estabilidade e democracia, um cenário complexo que os vizinhos do Irã bem exemplificam.
A luta pela liberdade e por um futuro mais justo no Irã continua, com os olhos do mundo voltados para a resiliência dos manifestantes e a brutalidade da resposta estatal, em um momento decisivo para a história do país.