Saúde mental em alta: o que antes era tabu, hoje domina conversas e redes sociais
As conversas em bares e rodas de amigos ganharam novos temas. Termos como “gatilho”, “trauma”, “limites” e “responsabilidade afetiva” tornaram-se comuns, marcando uma mudança cultural significativa onde a saúde mental, antes restrita a consultórios, agora é um assunto pop.
Essa ascensão, impulsionada pelas redes sociais e pela busca por autoconhecimento, traz benefícios como a redução de estigmas e a democratização da linguagem emocional. No entanto, especialistas alertam para os riscos da superficialidade e da “estetização” do sofrimento, onde conceitos profundos podem ser esvaziados de seu significado clínico.
O psicólogo Jair Soares dos Santos, fundador do Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas (IBFT), explica as nuances desse fenômeno, os perigos da “performance emocional” e como abordagens como a Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG) interpretam essa nova dinâmica no mundo contemporâneo, conforme informações divulgadas pela CNN Brasil.
A popularização da terapia: ganhos e desafios na era digital
A hashtag #saudemental, por exemplo, ultrapassa 2 milhões de visualizações apenas no TikTok, evidenciando a magnitude do interesse popular. Para Jair Soares dos Santos, essa popularização tem um papel social fundamental: reduzir o estigma associado ao cuidado psicológico e ampliar o acesso a uma linguagem emocional que, por muito tempo, foi marginalizada ou considerada um privilégio.
“A popularização da terapia traz um ganho enorme: aproxima as pessoas de recursos de cuidado interno e oferece linguagem emocional acessível”, afirma o psicólogo. Essa democratização permite que mais indivíduos se sintam encorajados a buscar ajuda e a falar abertamente sobre suas vulnerabilidades, quebrando barreiras históricas.
Contudo, a transformação da saúde mental em uma tendência cultural também apresenta seus próprios desafios. Segundo Santos, quando o sofrimento se torna um produto cultural, existe o risco de esvaziar conceitos clínicos importantes. Termos com profunda carga emocional e significado terapêutico, como “trauma” ou “gatilho”, podem ser utilizados de forma genérica e superficial, perdendo sua precisão e impacto.
“Performance emocional”: o perigo de falar sem elaborar
O especialista ressalta que a terapia não deve ser vista como uma questão de “estética” ou modismo, mas sim como um compromisso sério com a transformação profunda do indivíduo. A Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG), por exemplo, identifica um perigo específico na “performance emocional”, que ocorre quando uma pessoa fala sobre sua dor ou sofrimento sem, de fato, entrar em contato e processá-la em um nível mais profundo.
“Falar e elaborar são coisas bem diferentes”, pontua o psicólogo. A superficialidade com que alguns temas de saúde mental são tratados nas redes sociais e em conversas informais pode criar uma ilusão de progresso, quando na verdade o indivíduo pode estar apenas narrando sua experiência sem aprofundar em seu sistema emocional e em suas origens.
Essa distinção é crucial para que o processo terapêutico seja efetivo. A mera verbalização de sentimentos, sem um trabalho interno de ressignificação e integração, não leva à cura ou à mudança duradoura. É a elaboração, o contato íntimo com as próprias emoções e memórias, que promove a real transformação.
A horizontalidade das conversas: por que desabafamos em qualquer lugar?
A cena de alguém desabafando em um ambiente informal, como um bar, sobre questões que antes seriam reservadas a um consultório, tornou-se comum. Jair Soares dos Santos explica que essa mudança se deve à alteração nos códigos sociais. Ambientes informais tendem a criar uma sensação de horizontalidade nas interações, onde as barreiras de autoridade e especialidade se diluem.
Nesses contextos, a conversa flui de maneira mais livre, sem a formalidade de um setting terapêutico. “Em contextos assim, a revelação não surge pela busca de cura, mas pela busca de pertencimento. A fragilidade cria vínculo”, observa o psicólogo. A vulnerabilidade compartilhada, mesmo que superficialmente, pode gerar conexões e um senso de comunidade.
No entanto, o profissional faz um alerta importante: o que é compartilhado nesses espaços geralmente se configura como uma “vulnerabilidade narrada, não processada”. As pessoas compartilham suas histórias, seus sentimentos e suas dores, mas nem sempre acessam as raízes desses sofrimentos, o que ficou gravado em seu corpo e em seu sistema emocional. A conexão se estabelece pela narrativa, mas a cura exige um mergulho mais profundo.
TRG: a diferença entre conectar e transformar
A Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG) reconhece o valor humano e social das trocas informais, que podem, de fato, diminuir a sensação de solidão interna e promover um senso de pertencimento. A capacidade de se conectar com outros através da partilha de experiências, mesmo que de forma superficial, é uma necessidade humana intrínseca.
Contudo, a TRG reforça enfaticamente que essas interações não substituem o trabalho terapêutico formal. Conversar pode conectar pessoas e aliviar momentaneamente o peso emocional, mas é a terapia, com suas ferramentas e técnicas específicas, que tem o potencial de promover uma transformação genuína e duradoura. A profundidade do trabalho terapêutico permite acessar e ressignificar traumas e padrões de comportamento que a conversa casual não alcança.
O processo terapêutico envolve um mergulho no inconsciente, a identificação de crenças limitantes, o reprocessamento de memórias dolorosas e a construção de novas respostas emocionais e comportamentais. É um caminho de autoconhecimento e cura que vai além da simples partilha de sentimentos.
Os mitos do “autocuidado pop”: quando cuidar de si envolve desconforto
O conceito de autocuidado tornou-se um mantra popular, mas, segundo Jair Soares dos Santos, grande parte do discurso atual tende a romantizar esse processo. Um dos equívocos mais comuns é a crença de que autocuidado é sempre leve, prazeroso e isento de desconforto.
Na realidade, cuidar de si envolve, muitas vezes, encarar situações desconfortáveis. Isso pode incluir revisitar memórias dolorosas, identificar padrões de comportamento autodestrutivos, romper com relacionamentos tóxicos, admitir autoenganos e estabelecer limites que podem ser difíceis e dolorosos de impor. O verdadeiro autocuidado exige coragem e enfrentamento.
Outro mito prevalente é o da autossuficiência. O psicólogo explica que muitas dores têm origem relacional, ou seja, surgiram em contextos de vínculos. Por essa razão, nem sempre é possível elaborar completamente essas dores sozinho. O suporte técnico de um profissional torna-se essencial quando a própria mente cria defesas para evitar o confronto com o núcleo da dor, bloqueando assim o processo de cura.
Autocuidado versus Fuga: a linha tênue entre cura e anestesia
A confusão entre autocuidado e fuga é outro ponto de atenção levantado pelo especialista. Ele ressalta que evitar aquilo que dói não constitui cuidado, mas sim anestesia. Essa distinção é fundamental para um processo de saúde mental saudável e efetivo.
O caminho proposto por abordagens como a TRG é o oposto: olhar diretamente para aquilo que marcou o sistema emocional, para que a dor possa, enfim, ser compreendida, processada e reorganizada. Ignorar ou reprimir a dor apenas a adia e pode intensificá-la a longo prazo, manifestando-se de outras formas.
O verdadeiro autocuidado envolve a coragem de confrontar as próprias feridas, compreendendo suas origens e trabalhando ativamente para a cura. Isso requer um mergulho profundo em si mesmo, com o acompanhamento adequado, quando necessário, para navegar pelas complexidades do sofrimento humano.
Emoção como identidade: a vida real transformada em conteúdo online
Um fenômeno contemporâneo marcante é a transformação da vida emocional em conteúdo para as redes sociais. Desabafos que antes eram privados agora se tornam posts, e relatos de experiências pessoais se convertem em vídeos e artigos.
Segundo Jair Soares dos Santos, isso ocorre porque a emoção passa a ser utilizada como uma forma de organizar a identidade. Indivíduos que passaram por sofrimentos se apresentam como sobreviventes, e aqueles que superaram adversidades se definem como resilientes. “A narrativa vira persona”, explica o psicólogo, indicando que a história pessoal se torna um elemento central na construção da autoimagem e da forma como são percebidos pelos outros.
Porém, existe um risco inerente a essa dinâmica: a cristalização no papel da própria ferida. Para o especialista, a TRG faz uma distinção clara entre expressar uma emoção e ficar preso a ela. Mesmo quando a dor é verbalizada publicamente, isso não garante que ela tenha sido elaborada internamente. “Não é a audiência que cura, mas sim o contato íntimo consigo mesmo”, afirma Santos.
A necessidade legítima de testemunho e a busca pela validação interna
A necessidade humana de ser ouvido e de ter suas experiências validadas é legítima. O desejo de não sofrer sozinho impulsiona muitas pessoas a compartilhar suas histórias, buscando um senso de conexão e compreensão no outro. Essa busca por testemunho é um reflexo da nossa natureza social e da importância dos vínculos afetivos.
O desafio, segundo Jair Soares dos Santos, reside em deslocar o foco da validação externa para a reorganização emocional interna. Embora o reconhecimento e a empatia de terceiros possam ser reconfortantes, a cura e a transformação verdadeiras emanam do próprio indivíduo, de seu processo de autoconhecimento e da capacidade de ressignificar suas experiências.
A jornada terapêutica, portanto, visa fortalecer essa capacidade interna, permitindo que a pessoa se torne sua própria fonte de validação e cura. Ao acessar e reprocessar as emoções profundas, o indivíduo constrói uma base sólida de bem-estar, menos dependente da aprovação externa e mais ancorada em sua própria integridade emocional.