Um novo relatório do TikTok, a gigante das redes sociais, trouxe à tona tendências de comportamento do consumidor que prometem moldar o mercado global nos próximos anos. No entanto, o que parece ser uma descoberta para o universo corporativo já é uma realidade vivida e praticada há muito tempo nas favelas brasileiras.
Essa validação global da inovação periférica por uma plataforma de bilhões de usuários expõe um paradoxo: enquanto o mercado formal busca o novo, as comunidades periféricas há décadas operam com lógicas de consumo, engajamento e relacionamento que agora são consideradas “emergentes”.
É um reconhecimento tardio da inteligência e do pragmatismo que impulsionam a economia de R$ 300 bilhões anuais das periferias, conforme detalhado em um relatório recente que analisou as descobertas do TikTok.
A Autenticidade Como Base: O “Chá de Realidade” das Favelas
A primeira grande tendência de mercado identificada pelo TikTok é o “Chá de Realidade”. Ela descreve um movimento de pessoas que abandonam o escapismo para abraçar a vida real, mesmo com suas imperfeições. O relatório destaca um crescimento de 40% em buscas anuais relacionadas a hashtags como #lockedin (mentalidade de foco) e #healingseason (cuidado real com a saúde mental), afirmando que “a fantasia está perdendo força”.
Para quem vive nas favelas brasileiras, essa autenticidade nunca foi uma escolha, mas uma condição. Não há espaço para romantizar a pobreza quando é preciso acordar às 5h da manhã para uma jornada de trabalho exaustiva. Também não se idealiza a luta ao ver uma mãe fazendo malabarismos para fechar as contas do mês.
A periferia sempre se pautou por um pragmatismo criativo, encarando a realidade e construindo soluções com os recursos disponíveis. Contudo, o mercado corporativo, por muito tempo, adotou uma postura oposta, ora vitimizando as favelas como “pobrezinhos que precisam de ajuda”, ora exotizando-as como “guerreiros inspiradores”. Ambas as abordagens desumanizam e distorcem a verdade.
Agora, em 2026, o TikTok “descobre” que consumidores globais querem autenticidade, e as marcas correm para se adaptar a essa nova, mas antiga, realidade.
Jornadas Não Lineares: O “Fora do Script” da Economia Periférica
Outra tendência de mercado mapeada pelo TikTok é o “Fora do Script”, que sinaliza o fim do funil linear de marketing. A plataforma revelou que 52% das pessoas continuam pesquisando DEPOIS de encontrar o que buscavam, e que 1 em cada 4 usuários pesquisa algo nos primeiros 30 segundos no aplicativo. Isso demonstra que a descoberta gera novas descobertas, em loops infinitos de informação.
Para executivos acostumados com planilhas de Excel e estratégias de funil, essa informação pode ser disruptiva. Mas para quem vive em comunidade, essa é a lógica do dia a dia. A informalidade sempre operou de forma circular, nunca linear.
Um empreendedor periférico não segue um “roteiro do cliente” em etapas predefinidas. Ele testa, ajusta, pivota, conecta e improvisa constantemente. Uma solução leva a outra, um contato abre diversas oportunidades, e a confiança é construída através de múltiplos pontos de interação. Quando uma marca chega à favela com uma campanha tradicional, a comunidade já validou o que funciona e seguiu em frente.
O que o TikTok está documentando não é uma nova tendência de mercado, mas sim a lógica que 18 milhões de brasileiros usam há décadas. É um sistema que o mercado formal só agora tenta replicar, reconhecendo a inovação periférica como um modelo a ser seguido.
Valor Além do Preço: O “ROI Emocional” e os Tastemakers da Quebrada
A terceira tendência de mercado, e talvez a mais reveladora, é o “ROI Emocional”. O TikTok percebeu que o impulso de compra está perdendo para a intenção, e que os consumidores buscam marcas que justifiquem o “porquê” da compra, não apenas o “quanto custa”. Além disso, há uma clara ascensão dos “tastemakers” sobre os influenciadores tradicionais.
Um tastemaker, ou formador de opinião, não é definido por milhões de seguidores, mas por uma comunidade engajada e por parcerias criteriosas, construindo confiança ao longo do tempo. O relatório aponta que há 1,7x mais chances de experimentar uma marca nova por causa da comunidade em torno dela, evidenciando o poder da conexão genuína.
As favelas brasileiras sempre foram e continuam sendo grandes tastemakers. O funk, o streetwear, as gírias e a culinária periférica frequentemente migram para o mainstream, inspirando chefs premiados e dominando a internet. No entanto, o mercado corporativo ainda insiste em tratar as periferias como mero “público-alvo”, em vez de reconhecê-las como verdadeiros formadores de tendências de mercado.
Essa mudança de perspectiva é crucial. Quando uma marca se aproxima de uma favela perguntando “como alcançar esses consumidores?”, ela já está atrasada. A comunidade já definiu o que tem valor, já construiu seus códigos de confiança e validou o que realmente funciona. A pergunta correta não é “como vender para eles?”, mas sim “como podemos aprender e cocriar com eles?”.
A Nova Lógica de Mercado e a Expertise da Favela
Enquanto o TikTok documenta essas “novas” tendências de mercado, as periferias brasileiras movimentam R$ 300 bilhões anuais operando com essa mesma lógica há décadas. O Brasil corporativo, por sua vez, ainda investe em “inclusão” como se fosse um favor, ignorando a vasta expertise presente nessas comunidades.
Empresas como Google, Amazon e Avon, ao procurar o Grupo CRIA (onde o autor da análise atua como CEO), não estão “ajudando favelas”. Elas estão buscando uma inteligência de mercado que não possuem internamente. A autoridade territorial não se aprende em workshops de diversidade, mas é uma expertise vivida e um instinto único.
Se uma plataforma global como o TikTok está reconhecendo a lógica das periferias como tendências de mercado emergentes, é fundamental que três pontos mudem na abordagem corporativa. Primeiro, as marcas precisam se mover na velocidade dos tastemakers das favelas, que já definem a cultura.
Segundo, contratar um influenciador periférico para uma campanha pontual não é uma estratégia eficaz. É preciso ter profissionais das favelas em posições de decisão estratégica, integrando essa visão autêntica e inovadora. Terceiro, e talvez o mais importante, é reconhecer que as empresas não estão “dando oportunidade”, mas sim acessando uma expertise valiosa.
Quando uma marca entra em uma comunidade, ela não está “levando desenvolvimento”, mas sim aprendendo as lógicas de mercado que a informalidade domina e que nenhum MBA tradicional ensina. É hora de valorizar a inovação periférica como a força motriz que ela realmente é.