A Inveja como Motor da Luta de Classes: Uma Visão Além do Materialismo Marxista
O debate contemporâneo sobre a riqueza e a desigualdade tem se transformado, migrando de uma análise econômica factual para uma retórica carregada de emoção. Atualmente, o sucesso individual é frequentemente percebido como uma provocação moral, e a prosperidade alheia, como uma forma sutil de agressão. Esse cenário impulsiona propostas políticas que utilizam uma linguagem moralista, enquadrando a redistribuição como um ato de justiça e o ressentimento como compaixão.
Essa profunda mudança cultural, que permeia o discurso público e as agendas políticas, alinha-se de forma notável com um conceito que o teólogo e filósofo medieval Tomás de Aquino identificou há séculos: a inveja. Ele a definiu de maneira concisa e perspicaz como tristitia de bono alterius, ou seja, “tristeza pelo bem alheio”.
Diante dessa perspectiva, a luta de classes moderna, frequentemente apresentada como uma inovação social e econômica, revela-se, em sua essência, como a manifestação institucionalizada de um vício ancestral. Longe de ser um fenômeno puramente materialista ou histórico, seu principal motor reflete uma disposição humana que, ao longo do tempo, ganhou roupagem política e social, conforme análise detalhada do Acton Institute.
A Corrosão Moral da Inveja: Uma Distorção da Percepção Humana
Tomás de Aquino considerava a inveja um dos vícios mais singularmente corrosivos, distinguindo-a de outras falhas humanas por sua capacidade de distorcer a própria percepção moral, e não apenas restringir a ação. Enquanto a raiva reage a uma ofensa percebida e a ganância busca a posse de bens materiais, a inveja se ressente da excelência em si. Não se trata de desejar o que o outro tem, mas de sentir angústia pelo fato de o outro ter algo bom, mesmo que isso não cause nenhum dano direto ao invejoso.
Essa característica torna a inveja particularmente perniciosa. A pessoa invejosa experimenta o florescimento alheio como uma diminuição pessoal, uma sensação de que o sucesso do próximo ofusca o seu próprio, ainda que não haja prejuízo objetivo. É uma dor intrínseca que não busca a melhoria de si, mas a redução do outro. É a incapacidade de se alegrar com a felicidade ou o êxito do próximo, transformando a virtude ou a prosperidade alheia em uma fonte de sofrimento pessoal.
Aquino aprofundou sua observação ao notar que a inveja não age isoladamente, mas gera uma série de vícios secundários que amplificam seu poder destrutivo. Entre eles, ele destacou a difamação, a alegria com o infortúnio alheio e o ódio. Isso significa que, uma vez que a inveja se infiltra na política social e no tecido comunitário, ela não corrige injustiças, mas sim multiplica a disfunção, criando um ciclo vicioso de hostilidade e desagregação.
A Narrativa Bíblica de Caim e Abel: A Crise na Alma Antes da Violência
O diagnóstico de Tomás de Aquino sobre a inveja encontra uma poderosa expressão narrativa em um dos relatos mais antigos da humanidade: a história de Caim e Abel, presente no livro de Gênesis. Esta passagem bíblica oferece uma ilustração primordial de como a inveja, quando não dominada, pode levar a consequências devastadoras. Gênesis descreve como a oferta de Caim foi desprezada por Deus, enquanto a de Abel recebeu favor, desencadeando uma profunda alteração no semblante de Caim, que se fechou em descontentamento.
A resposta divina a Caim é particularmente reveladora, pois se dirige diretamente ao seu estado interior, e não à disparidade externa de suas ofertas. O Senhor adverte: “O pecado está à porta, à sua espreita; o seu desejo é contra ti; contudo, deves dominá-lo” (Gênesis 4:7). Essa advertência sublinha que a verdadeira crise não residia na aceitação ou rejeição das ofertas, mas na alma de Caim, na sua incapacidade de lidar com a prosperidade do irmão e na sua disposição para a inveja.
O ressentimento de Caim, impulsionado pela inveja, buscou uma resolução trágica: a eliminação do outro, em vez da transformação de si mesmo. Ele não procurou melhorar sua própria oferta ou sua atitude; em vez disso, optou por destruir a fonte de sua angústia, seu irmão. Esse padrão, em que a queixa e o ressentimento substituem a virtude como motor social, tem se repetido ao longo da história, demonstrando que a origem da luta e do conflito frequentemente reside em desordens internas, e não apenas em condições materiais.
A Sabedoria Talmúdica e a Cobiça: Da Inveja ao Roubo e Assassinato
A sabedoria judaica, através do Talmude, aborda a questão da inveja e da cobiça com uma sobriedade e profundidade semelhantes às de Tomás de Aquino, focando no desejo ordenado e na disciplina racional como antídotos. A Torá, em seus mandamentos, adverte explicitamente contra disposições cobiçosas que se fixam nas posses ou no status de outrem. Essa fixação é vista como um perigo, pois distorce o julgamento moral e mina a harmonia comunitária, elementos essenciais para a coesão social.
Para os estudiosos judeus, o remédio para a inveja e a cobiça não reside em coerções estruturais externas, mas sim no cultivo de hábitos internos, como a moderação e a gratidão. Bruce e Barbara Kadden, em sua obra Teaching Mitzvot, observam que, segundo o Talmude, o décimo mandamento (“Não cobiçarás”) resume todos os anteriores, porque a inveja e a cobiça podem levar a uma cascata de outros pecados, do desejo ao roubo e, por fim, à tirania, conforme registrado em Pesachin 107a.
Maimônides, um dos mais influentes pensadores judeus, em seus comentários sobre o lo tachmod (“não cobiçarás”), explicitou essa progressão perigosa. Ele argumentou que a cobiça, se não contida, leva ao roubo. Se os proprietários não desejam vender, mesmo diante de ofertas generosas, o desejo pelo bem alheio pode levar ao ato de roubar, como profetizado em Miqueias: “Cobiçaram casas e roubaram”. E, em um cenário ainda mais extremo, se o dono resiste e tenta proteger sua propriedade, os perpetradores, impulsionados pela cobiça, podem ser levados ao assassinato.
Tanto Maimônides quanto os autores talmúdicos compreenderam que um nivelamento externo da sociedade, sem uma reforma interior das disposições humanas, não cura o vício, mas o amplifica. A alma permanece inquieta e insatisfeita, mesmo após a redistribuição de bens, pois a raiz do problema – a inveja e a cobiça – permanece intocada, perpetuando o ciclo de descontentamento e conflito.
Adam Smith e a Simpatia Moral: Admirar o Sucesso vs. Ressentir a Superioridade
Adam Smith, frequentemente mal interpretado como um mero defensor do interesse próprio desenfreado, ofereceu uma perspectiva complementar e igualmente relevante para a compreensão da luta de classes, através de sua análise da simpatia e do sentimento moral. Em sua obra seminal A Teoria dos Sentimentos Morais, Smith observou a complexa dinâmica das emoções humanas em relação ao sucesso alheio.
Ele notou que os seres humanos instintivamente admiram o sucesso e a prosperidade, reconhecendo o mérito e a aspiração que eles representam. No entanto, essa admiração é frequentemente acompanhada por um ressentimento em relação à superioridade. Há uma tensão inerente entre o reconhecimento da excelência e a dificuldade de aceitar a posição de quem a alcançou. Smith argumentou que a sociedade civilizada, para prosperar e manter a coesão, requer uma formação moral robusta.
Essa formação moral é crucial para canalizar esses instintos de forma produtiva, transformando a admiração em emulação saudável, em vez de permitir que a inveja influencie negativamente a percepção dos cidadãos sobre o bem-estar alheio. Sem essa disciplina moral, a inveja pode corroer o tecido social, transformando a admiração em ressentimento e a colaboração em competição destrutiva.
Portanto, segundo Smith, uma sociedade comercial próspera não se baseia apenas em mecanismos de mercado, mas também na capacidade de seus membros de admirar o sucesso de forma construtiva, incentivando a emulação e a busca pela excelência, em vez de se render ao ressentimento. Quando a inveja prevalece, a sociedade perde a capacidade de inspirar e de se beneficiar das conquistas individuais, travando o progresso e fomentando a desunião.
As Falhas da Análise Marxista: Inveja como Discernimento, Não Desordem
Considerando as profundas reflexões de Tomás de Aquino, da tradição talmúdica e de Adam Smith, a análise de Karl Marx sobre a luta de classes revela uma falha fundamental no nível da psicologia moral. Marx, ao contrário desses pensadores, trata a inveja não como uma desordem da alma ou um vício a ser superado, mas sim como um discernimento legítimo, uma espécie de consciência histórica que emerge das condições materiais de existência. Ele reformula o ressentimento, uma emoção destrutiva, como uma consciência social revolucionária, validando-a como um motor para a transformação social.
Ao reduzir toda a vida econômica ao antagonismo de classes e à dinâmica de exploração entre proletariado e burguesia, Marx simplifica excessivamente a complexidade da agência moral humana. Ele subordina a moralidade individual à posição material de cada um na estrutura de produção, absolvendo, assim, a vida interior – as escolhas, virtudes e vícios – de uma análise mais profunda. Consequentemente, a virtude, a autodisciplina e a responsabilidade pessoal desaparecem de sua análise, substituídas por um determinismo estrutural.
Nessa visão marxista, o sucesso econômico é interpretado como roubo, o acúmulo de riqueza como exploração e a excelência individual como uma forma de dominação. Essa estrutura ideológica oferece uma validação emocional poderosa para a queixa e o ressentimento, ao mesmo tempo em que desencoraja o autocontrole, a gratidão e a aspiração moral individual. Não há espaço para o florescimento pessoal através do trabalho árduo ou da inovação, apenas a luta contra um sistema opressor.
Dessa forma, o marxismo opera menos como uma ciência econômica neutra e mais como um catecismo do ressentimento. Ele santifica a hostilidade em relação à realização produtiva e à excelência individual, enquanto promete uma libertação por meio de uma equiparação coercitiva. A história, no entanto, tem repetidamente confirmado que essa abordagem, que busca nivelar a sociedade pela força, é socialmente corrosiva, levando à estagnação e à perda de liberdade em vez de à prometida utopia.
A Economia da Inveja Moderna: Moralização do Ressentimento e Consequências
A atual “economia da inveja” reflete e amplifica as falhas da análise marxista, ao rejeitar a formação moral virtuosa em favor de uma moralização do ressentimento. Nesse contexto, impostos sobre a riqueza e esquemas regulatórios punitivos, muitas vezes, apresentam o sucesso financeiro e o empreendedorismo não como evidência de serviço criativo ou diligência, mas como um indício de transgressão, de alguma forma de exploração ou injustiça inerente. O mérito individual e a criação de valor são questionados, enquanto a riqueza se torna sinônimo de culpa.
Consequentemente, o discurso político se desvia do objetivo de expandir oportunidades para todos e se concentra na gestão de queixas e na retribuição contra os considerados “privilegiados”. Em vez de buscar maneiras de elevar o padrão de vida geral ou de incentivar a inovação, a política se volta para a redistribuição punitiva, motivada pela percepção de injustiça e pela inveja. As sociedades que sucumbem a essa lógica tentam suprimir as diferenças visíveis de riqueza e status, em vez de cultivar padrões compartilhados de excelência e aspiração.
Nesse ambiente, a equiparação forçada torna-se um substituto para a aspiração individual e coletiva. A coerção, imposta pelo Estado ou pela pressão social, substitui a admiração como o principal mecanismo social. Quando a honra, a vocação e a excelência são desvinculadas de um propósito moral superior ou do reconhecimento do mérito, a competição por status se intensifica de forma descontrolada. Os resultados econômicos, como o nível de riqueza ou renda, transformam-se em indicadores de valor moral, e qualquer disparidade se torna intolerável, independentemente de sua origem legítima ou do esforço envolvido em sua obtenção.
A antropologia bíblica, ao fundamentar a dignidade humana na imagem divina – “Deus criou o homem à sua imagem” (Gênesis 1:27) –, antecipou esse perigo. Ao atribuir valor intrínseco a cada indivíduo, independentemente de seu sucesso comparativo ou posição social, as Escrituras removem o combustível metafísico necessário para que a inveja floresça sem controle. Se a dignidade não depende do que se tem em relação ao outro, a inveja perde seu poder de corroer a alma e a sociedade.
O Contraste da Virtude: Gratidão, Vocaçao e o Caminho para a Prosperidade
Tomás de Aquino reforçou a ideia de que a verdadeira paz reside no amor corretamente ordenado. Ele argumentou que a caridade, a forma mais elevada de amor, se alegra com o bem do outro como se fosse o seu próprio (Suma Teológica II–II, q. 23, a. 1). Essa perspectiva é diametralmente oposta à lógica da economia da inveja. A alma virtuosa, imbuída de caridade, experimenta a prosperidade alheia não como uma ameaça ou diminuição, mas como uma expansão do bem no mundo, uma fonte de alegria compartilhada.
A economia da inveja, ao inverter essa lógica e tratar o ganho como um jogo de soma zero – onde o sucesso de um implica a perda de outro –, garante um conflito permanente e inextinguível. Uma vez que a política internaliza essa antropologia distorcida, ela legitima a coerção como uma necessidade moral, pois a força se torna o único meio de tentar resolver queixas perpétuas. A experiência histórica confirma essa trajetória: sociedades que elevam a inveja a princípio gradualmente abandonam a criatividade e a inovação em favor da exploração e da conformidade.
Nesses sistemas, o empreendedorismo torna-se suspeito, a inovação é vista como perigosa e a conformidade burocrática se estabelece como o caminho mais seguro. Consequentemente, o talento e a iniciativa migram ou se retraem, enquanto a gestão burocrática se expande para preencher o vácuo, levando à estagnação. Deus, por meio de Samuel, advertiu Israel sobre esse padrão muito antes da economia política moderna: “Ele tomará o dízimo do seu trigo e das suas vinhas e o dará aos seus oficiais” (1 Samuel 8:15), indicando que a redistribuição centralizada surge como um sinal de desconfiança social, e não de força comunitária.
As consequências psicológicas da economia da inveja são igualmente graves. O ressentimento externaliza o fracasso, livrando os indivíduos da autoanálise e da responsabilidade pessoal. Tomás de Aquino descreveu esse processo como acídia espiritual em forma social, onde a tristeza em relação à excelência alheia embota a aspiração e corrói a esperança (Suma Teológica II–II, q. 35). Culturas moldadas pela inveja experimentam um declínio na iniciativa, acompanhado por um aumento na sensação de merecimento, resultando em sistemas de bem-estar social que se expandem para gerenciar a estagnação, reforçando o ciclo vicioso.
Em contraste, as sociedades que cultivam a virtude incentivam o empreendedorismo criativo, juntamente com a responsabilidade moral. A literatura sapiencial bíblica elogia a diligência e condena a preguiça, sem romantizar a pobreza: “A mão do diligente enriquece” (Provérbios 10:4). Assim, a prosperidade é vista como um resultado moral, fruto do esforço e da sabedoria, e não como um mero acidente ou injustiça. Maimônides articulou essa hierarquia em sua famosa escada da caridade, onde a forma mais elevada de ajuda envolvia a promoção da autossuficiência, em vez da dependência permanente (Mishneh Torá, “Dádivas aos Pobres”, 10:7).
A retórica de classe moderna frequentemente descarta essa formação moral como ingênua, embora suas alternativas, baseadas na inveja e na coerção, tenham produzido um declínio consistente. Sistemas movidos pela inveja tendem a exigir uma expansão constante da vigilância e da aplicação da lei, pois a obediência depende da coerção, e não do consentimento voluntário. A liberdade se erode gradualmente à medida que a confiança moral se dissolve. Tomás de Aquino antecipou esse resultado ao insistir que a lei funciona melhor quando pressupõe a virtude, em vez de tentar fabricá-la (Suma Teológica I–II, q. 96, a. 2).
A visão bíblica oferece um caminho diferente, enraizado na gratidão e na vocação individual. A parábola dos trabalhadores na vinha confronta a inveja diretamente, quando aqueles que trabalharam por mais tempo se ressentem dos salários iguais pagos aos que chegaram depois. O proprietário responde com clareza moral: “Tenho o direito de fazer o que quero com o que me pertence? Ou vocês me invejam?” (Mateus 20:15). As Escrituras, portanto, reformulam a justiça por meio da generosidade da aliança, e não do ressentimento comparativo. O problema reside na percepção e na disposição da alma, e não no salário em si.
Em suma, Tomás de Aquino e Maimônides explicam a luta de classes contemporânea com maior precisão do que Marx, pois diagnosticam a psicologia moral subjacente ao conflito econômico. Sociedades movidas pela inveja institucionalizam a tristeza pelo bem alheio, caminhando, assim, para a coerção, a estagnação e o declínio. Em contrapartida, sociedades que cultivam a virtude, a gratidão e a criatividade geram prosperidade em meio à paz. A escolha permanece perene e inevitável, visto que Caim ainda está à porta, aguardando o domínio ou a rendição diante da inveja.