Facções Criminosas Assumem Controle em Torcidas Organizadas, Ditando Regras e Gerando Violência no Futebol Brasileiro

O futebol brasileiro, paixão nacional, tem revelado um lado sombrio e preocupante: a crescente influência e controle de facções criminosas sobre torcidas organizadas. Recentemente, o caso do Ceará expôs a força do “poder paralelo” quando presidentes de torcidas foram destituídos de seus cargos por ordens diretas de grupos criminosos, transmitidas pela internet. Esses eventos chocantes levantam questionamentos sobre a segurança nos estádios e a integridade do esporte.

A dinâmica entre crime organizado e torcidas não é nova, mas a forma como as facções passaram a intervir diretamente na gestão das organizadas, impondo suas regras e punições, demonstra uma escalada preocupante. Este cenário, que já foi registrado em outros estados, agora ganha destaque no Ceará, evidenciando a complexa e perigosa intersecção entre esses dois universos.

A investigação sobre esses episódios está em andamento, mas as evidências online apontam para a intervenção de facções como o Comando Vermelho (CV) no Ceará. A proibição de brigas entre torcedores, sob a alegação de evitar operações policiais, e o fechamento de estabelecimentos ligados às torcidas, são exemplos claros de como o crime organizado está ditando as regras, conforme aponta a reportagem em análise.

O Caso Chocante no Ceará: Renúncias Forçadas e o Comando do Crime

No domingo, 8 de fevereiro, o clássico entre Fortaleza e Ceará, conhecido como Clássico-Rei, foi palco de uma onda de violência em bairros da capital cearense antes mesmo do início da partida. Os confrontos resultaram na detenção de 350 pessoas pela Polícia Militar, mas, felizmente, não houve mortes ou feridos graves. Contudo, o desdobramento mais alarmante veio após os tumultos.

Dois presidentes de torcidas organizadas proeminentes anunciaram suas renúncias em vídeos divulgados posteriormente: Weslley Paulo, conhecido como Dudu, deixou a liderança da Cearamor, e Anderson Xiboi declarou não fazer mais parte da Torcida Uniformizada do Fortaleza. A motivação, segundo mensagens que circularam em grupos de aplicativos, seria uma ordem direta do Comando Vermelho (CV) no Ceará, que teria proibido brigas entre torcedores.

As mensagens indicavam que os conflitos entre torcidas atraíam atenção policial para as comunidades dominadas pelas facções. Além disso, teria havido a determinação para que as lojas e sedes das torcidas fossem fechadas. Embora a Polícia Civil e o Ministério Público do Ceará investiguem o caso, não há confirmação oficial sobre a relação direta dessas saídas com o poder paralelo. No entanto, o conteúdo online sugere fortemente essa ligação, mostrando uma intervenção direta do crime organizado na estrutura das torcidas.

A Complexa Relação Entre Torcidas Organizadas e o Crime Organizado no Brasil

O sociólogo e especialista em torcidas organizadas e “barras bravas” na América Latina, Nico Cabrera, descreve a relação entre torcidas organizadas e o crime organizado no Brasil como intrinsecamente complexa. Ele ressalta que, embora sejam universos distintos, existem momentos cruciais em que seus caminhos se cruzam de maneira significativa.

Cabrera enfatiza duas premissas fundamentais para compreender esse cenário. A primeira é reconhecer que torcidas organizadas e crime organizado pertencem a esferas diferentes e não devem ser equiparados. “Estamos falando de atores, histórias, contextos e dinâmicas muito distintas. Igualar torcidas organizadas e crime organizado não é apenas perigoso, também é falso”, afirma o pesquisador do Observatório Social do Futebol da UERJ.

A segunda premissa, segundo o sociólogo, é admitir que existem situações específicas em que esses universos se entrelaçam. Essa interação é impulsionada pela contínua expansão territorial do crime organizado no Brasil nas últimas décadas. Estudos da Universidade Federal Fluminense (UFF) revelam que, no Rio de Janeiro, aproximadamente um terço da população metropolitana vive sob domínio ou influência de grupos armados, um fenômeno que se estende para as regiões Norte e Nordeste, consolidando um amplo domínio territorial em grandes cidades.

Expansão Territorial do Crime e a Interação Inevitável com Torcidas

A vasta expansão territorial das facções criminosas pelo Brasil tem levado a interações cada vez mais frequentes e complexas com as torcidas organizadas. Essa presença dominante em comunidades e territórios periféricos torna inevitável o contato entre os grupos.

Nico Cabrera ilustra essa dinâmica com um exemplo prático: se uma torcida organizada deseja realizar uma ação social em uma comunidade, como celebrar o Dia das Crianças, as lideranças da torcida precisam negociar e dialogar com as diversas instâncias locais. Isso inclui igrejas, terreiros, associações de moradores e, crucialmente, com a facção criminosa que detém o controle territorial daquela área. Essa necessidade de “acerto” demonstra o poder exercido pelos grupos criminosos.

Além disso, o pesquisador aponta que a circulação de indivíduos entre esses dois universos não implica necessariamente um controle institucional das torcidas pelo crime organizado. Um indivíduo pode ter envolvimento com atividades criminosas e, ao mesmo tempo, ser um membro ativo de uma torcida organizada. Essa sobreposição de identidades e participações contribui para a complexidade das relações observadas.

“Salves” do Crime: A Violência das Torcidas Regulada pelo Poder Paralelo

A relação entre torcidas e crime organizado se torna ainda mais intrincada quando a violência entra em cena. Nesse contexto, o crime organizado assume um papel de “regulador” dentro dos territórios que domina, intervindo para controlar ou cessar confrontos entre torcidas rivais. É nesse cenário que surgem os chamados “salves”, ordens ou exigências que buscam interromper brigas e manter uma certa ordem, ainda que imposta pela força.

De acordo com Cabrera, episódios de “salves” já foram registrados em diversos estados brasileiros, incluindo Rio de Janeiro, São Paulo, Pará e, mais recentemente, Ceará. No caso cearense, as exigências parecem ter escalado, abrangendo não apenas a proibição de brigas, mas também a imposição de renúncias de lideranças e medidas que afetam diretamente a economia das torcidas, como o fechamento de lojas e sedes.

Um paradoxo notável nesse cenário, apontado pelo sociólogo, é que, em muitas situações, o crime organizado atua, entre aspas, “ajudando a pacificar” a violência das torcidas através desses “salves”. Essa intervenção, no entanto, revela um problema estrutural mais profundo: a capacidade do poder paraestatal, exercido pelas facções, de ser, em determinados contextos, mais efetivo do que o próprio poder estatal na garantia da segurança e da ordem social.

O PCC e a Morte de Líder da Mancha Verde: Conexões Sombrias Expostas

Outro caso emblemático que expôs as profundas conexões entre torcidas organizadas e o crime organizado ocorreu em 2017, com a morte de Moacir Bianchi, líder histórico e fundador da Mancha Verde, a principal torcida organizada do Palmeiras. Bianchi foi assassinado com 14 tiros em uma emboscada na Zona Sul de São Paulo.

Um dos indivíduos condenados pelo crime, Marcello Ventola, um conhecido ladrão de joalherias com extensa ficha criminal e comprovadamente ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital), foi peça-chave na investigação. O estopim para o assassinato, segundo relatos, teria sido um desentendimento interno na sede da Mancha Verde. Bianchi teria se insurgido contra o então presidente da organizada, Anderson dos Santos Silva, o Nando, por supostamente abrir espaço no comando da facção para figuras ligadas a grupos mafiosos, como Ventola, que estaria sendo indicado para um cargo diretivo.

Este episódio ilustra como as disputas internas em torcidas organizadas podem se entrelaçar com conflitos do crime organizado, especialmente quando facções poderosas como o PCC buscam influenciar ou controlar essas estruturas. A violência, nesse contexto, torna-se uma ferramenta para resolver desentendimentos e manter o poder.

História das Torcidas Organizadas e o Perfil dos “Violentos”

As torcidas organizadas no Brasil têm uma história que remonta ao final da década de 1940 e início dos anos 1950. Inicialmente, esses grupos surgiram com um caráter mais festivo e espontâneo, focados em apoiar seus clubes com músicas, bandeiras e manifestações nas arquibancadas, sem uma estrutura formal ou institucionalizada.

Com o passar do tempo, essas associações evoluíram, desenvolvendo organização interna, hierarquias e uma identidade própria, tornando-se um elemento significativo da cultura futebolística brasileira. No entanto, os episódios de violência ligados ao futebol ganharam maior visibilidade a partir da década de 1980, com o registro das primeiras mortes decorrentes de confrontos entre torcedores rivais. O aumento das tensões acompanhou o processo de institucionalização das organizadas.

O perfil predominante dos envolvidos em episódios violentos no futebol brasileiro é majoritariamente composto por jovens do sexo masculino, geralmente na faixa etária de 18 a 30 anos. Muitos desses indivíduos provêm de contextos sociais vulneráveis, encontrando nas torcidas um espaço de pertencimento, identidade coletiva e, por vezes, uma saída para a marginalidade. Levantamentos acadêmicos e jornalísticos indicam que, entre 1988 e 2023, pelo menos 384 pessoas morreram em episódios de violência relacionados ao futebol brasileiro, incluindo confrontos, emboscadas e ataques, a maioria ocorrendo fora dos estádios.

O Futuro da Relação: Controle Estatal e a Luta pela Integridade do Futebol

A crescente intervenção do crime organizado nas torcidas organizadas representa um desafio monumental para as autoridades brasileiras. A capacidade de facções ditarem regras, influenciarem lideranças e até mesmo “pacificar” conflitos, como apontado por Nico Cabrera, demonstra a complexidade da situação.

A questão que se impõe é: como as instituições estatais podem reverter esse quadro e garantir a segurança e a integridade do futebol? A resposta passa por uma atuação conjunta e coordenada entre polícias, Ministério Público, clubes e federações. Medidas como o rastreamento de membros de torcidas, a punição rigorosa de atos violentos e a desarticulação financeira das organizações criminosas que se beneficiam dessa relação são fundamentais.

Além disso, é crucial investir em programas sociais e educativos que ofereçam alternativas para jovens em vulnerabilidade social, diminuindo a atratividade das torcidas como único espaço de pertencimento. A luta contra o crime organizado dentro do futebol é, em última instância, uma luta pela alma do esporte e pela segurança da sociedade como um todo.

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