O cenário de exploração de trabalhadores em restaurantes de alto padrão e estabelecimentos de rodízio em São Paulo tem se tornado cada vez mais visível. O que antes era associado predominantemente a áreas rurais ou oficinas de costura, agora atinge o setor gastronômico urbano com força.

Relatos de jornadas exaustivas, moradias precárias e falta de registro formal ilustram uma realidade dura, onde a vulnerabilidade social de muitos empregados é explorada. O sistema de alojamentos, em particular, se mostra uma ferramenta para prender os trabalhadores aos seus postos, dificultando sua saída.

Desde 2023, os números de resgates dispararam, evidenciando uma conscientização crescente dos trabalhadores e uma intensificação das fiscalizações. As informações são da BBC News Brasil, que acompanhou diversas operações em São Paulo.

O Salto Alarmante nos Resgates de Trabalhadores

As denúncias de trabalho análogo à escravidão em restaurantes, que eram raras até meados de 2022, registraram um crescimento substancial. Documentos do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) revelam que, de 2022 até setembro de 2025, 152 trabalhadores foram resgatados nesta situação em restaurantes no Brasil.

O número anual de resgates subiu de 8 em 2022 para 71 em 2023, 34 em 2024 e 39 em 2025. Se os 12 homens da churrascaria Boizão Grill forem contabilizados, o total de 2023 sobe para 51, representando um salto de 538% em quatro anos.

São Paulo é o epicentro deste fenômeno, com todas as 34 pessoas resgatadas em 2024 no setor de restaurantes concentradas no estado. Auditor-fiscal do MTE, Maurício Krepsky, explica que a grande quantidade de restaurantes e o maior acesso a canais de denúncia contribuem para esses números na capital.

Paulo Roberto Warlet, também auditor do MTE em São Paulo, aponta que a maioria das denúncias envolve churrascarias e restaurantes de comida japonesa que operam no sistema de rodízio. Ele ressalta que a prática de sujeitar pessoas a condições degradantes ganha novas e perversas facetas no ambiente urbano.

A Realidade dos Alojamentos: ‘Parece Presídio’

Wellington, um maranhense de 26 anos, veio para São Paulo atraído pela promessa de moradia e refeições subsidiadas para trabalhar como passador na churrascaria Boizão Grill. Ele esperava ter o salário de R$ 2 mil “limpo” para si, mas a realidade foi outra.

Após adoecer e ser afastado, Wellington não recebeu o pagamento devido, ficando sem dinheiro até para um café. Ele continuou morando em um alojamento precário, um sobrado envelhecido de 80 m² com dois quartos, dividindo o espaço com outros 11 garçons e passadores.

A denúncia inicial contra a Boizão Grill, que oferece rodízio por R$ 170 por pessoa, revelava condições insalubres, com picadas de percevejos, jornadas excessivas e falta de registro em carteira. A força-tarefa comprovou a veracidade do relato, caracterizando a situação como trabalho análogo à escravidão por “condições degradantes”.

O alojamento da churrascaria impressionou até mesmo o auditor Paulo Roberto Warlet. No andar de baixo, quatro beliches se amontoavam, alguns sem colchões, e outras três camas avançavam pela cozinha, tornando-a inutilizável. Lençóis pendurados tentavam criar alguma privacidade, e o odor era forte pela falta de circulação de ar.

O banheiro, descrito em relatório, era úmido, com lixo sobre a pia e papel higiênico no chão. O vaso sanitário não tinha assento e exalava mau cheiro. O chuveiro elétrico, sem aterramento, representava um risco de choque elétrico para os moradores. “Parece um presídio!”, exclamou Warlet, comparando o local a uma cela de penitenciária.

Em outro alojamento, da Maninho’s Steak House, vizinha à Boizão Grill, dez homens dividiam um espaço de 70 m². Caixotes de plástico serviam de suporte para colchões, e havia percevejos nos lençóis e no chão. Um garçom relatou: “A gente amanhece todo picado”, mostrando as marcas nas costas e braços.

A presença de facas de corte de carne escondidas sob os estrados ou nos travesseiros dos alojamentos também gerava medo entre os trabalhadores. Eles precisavam comprar as facas por conta própria e as guardavam para evitar furtos, mas o risco de conflitos e acidentes era constante.

Dinâmica da Exploração e a Vulnerabilidade dos Trabalhadores

A dinâmica do trabalho análogo à escravidão em restaurantes muitas vezes se baseia em um truque com a jornada de trabalho. Embora a lei estabeleça 44 horas semanais, os restaurantes de rodízio, com picos de movimento no almoço e jantar, criam escalas com longos intervalos, forçando os trabalhadores a permanecerem próximos.

Andrea Tertuliano, ex-promotora do MPT-SP, explica que oferecer alojamento é uma forma de manter os trabalhadores “presos” ao local de trabalho, demandando-os em horários paralelos e estendendo a jornada real. “O alojamento, de alguma forma, prende a pessoa ao local de trabalho”, afirma.

Muitos trabalhadores são recrutados em outros estados, com passagens pagas, chegando a São Paulo com salários baixos e sem conhecer a cidade. Essa vulnerabilidade é explorada, pois o alojamento impede que busquem outras oportunidades, “fidelizando” a mão de obra, segundo Warlet.

A alimentação também se torna uma ferramenta de controle. Um garçom, Alfredo, relatou que, para tomar café da manhã, já precisava estar uniformizado, e sempre surgia uma tarefa, estendendo seu tempo no local de trabalho antes mesmo do horário previsto no contrato. “Ele não consegue comer sem intermediação do empregador”, ressalta Tertuliano.

Em dias de grande movimento, o descanso é ignorado, e os trabalhadores são pressionados a ficar. “Dá a hora de sair, o salão está cheio. A gente já sabe: se não ficar lá, eles te olham feio, te ameaçam. Daí a gente trabalha direto mesmo”, contou Gabriel Garcez.

A força-tarefa também notou uma mudança no perfil dos trabalhadores: a substituição dos “gaúchos” por nordestinos. A auditora Tertuliano sugere que essa é uma consequência da desigualdade regional, pois nas regiões Norte e Nordeste há menos opções profissionais, tornando as pessoas mais vulneráveis à exploração.

Desafios na Fiscalização e a “Lista Suja”

Apesar do aumento das denúncias e resgates, o reconhecimento de situações de trabalho análogo à escravidão ainda é um desafio. Isso se reflete na pouca representatividade de restaurantes na Lista Suja do Trabalho Escravo, que hoje conta com apenas 11 estabelecimentos do setor entre 684 empresas.

Leonardo Sakamoto, jornalista e especialista no tema, afirma que a lista sub-representa o fenômeno, pois “o que permanece invisível não está nessa estatística”. Ele explica que o aumento de fiscalizações “ilumina mais a sala”, fazendo com que mais trabalhadores reconheçam e denunciem a situação.

O processo de fiscalização é lento, em parte pela falta de auditores. São Paulo, por exemplo, conta com apenas três auditores para lidar com todas as denúncias de trabalho análogo à escravidão no estado. Alguns estados, como Pernambuco e Rondônia, não possuem nenhum profissional dedicado à área.

Maurício Krepsky destaca que o último concurso para auditores foi há 11 anos, e a área tem pouco interesse devido aos riscos. “No caso de trabalho análogo à escravidão, você está no campo, correndo risco de ser alvejado, até de morrer”, alerta.

A Boizão Grill recusou o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) proposto pela força-tarefa, que incluía o pagamento de verbas rescisórias e a adequação do alojamento. A ação civil pública contra o restaurante ainda não foi ajuizada devido a mudanças na equipe do Ministério Público do Trabalho, deixando o processo engavetado.

Em uma nova inspeção meses depois, a força-tarefa constatou que o alojamento da Boizão Grill permanecia inalterado. Wellington Silva, que havia sido resgatado em maio, não estava mais lá, e colegas relataram que ele foi expulso do local sem receber as verbas rescisórias, mesmo estando com pneumonia, um desfecho cruel que sublinha a urgência de combater o trabalho análogo à escravidão.

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