Trump: A reviravolta das tarifas e o impacto na economia brasileira em 2024

A economia brasileira viveu dias de montanha-russa com as decisões de Donald Trump sobre tarifas de importação. Uma vitória inicial com a derrubada de uma tarifação pela Suprema Corte americana deu lugar a uma nova onda de incertezas com a imposição de uma nova sobretaxa. Exportadores e analistas buscam entender os próximos passos e os efeitos a longo prazo na relação comercial entre Brasil e Estados Unidos.

A dinâmica das políticas comerciais americanas sob a administração Trump demonstrou sua capacidade de gerar volatilidade. Após a Suprema Corte invalidar uma medida, a Casa Branca agiu rapidamente para implementar uma nova tarifa, evidenciando uma estratégia protecionista que continua a desafiar os parceiros comerciais do país.

O cenário atual exige atenção redobrada por parte do governo brasileiro e dos setores exportadores. A busca por soluções diplomáticas e a diversificação de mercados tornam-se estratégias cruciais para navegar em um ambiente de comércio internacional cada vez mais imprevisível, conforme informações divulgadas pelo InvestSmart XP e pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

A Dança das Tarifas: Da Derrubada Judicial à Nova Sobreataque de Trump

O cenário de incertezas para os exportadores brasileiros foi intensificado na sexta-feira (20), quando a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu pela derrubada do “tarifaço” imposto por Donald Trump. No entanto, a celebração foi efêmera. No final do mesmo dia, a Casa Branca recorreu a outros mecanismos para dificultar a entrada de produtos estrangeiros no país, demonstrando a persistência da agenda protecionista.

Horas após a derrota judicial, Trump anunciou uma nova sobretaxa de 10% sobre quase todas as importações, amparado pela Seção 122 da Lei Comercial de 1974. Este dispositivo legal confere ao Poder Executivo a prerrogativa de instituir tarifas emergenciais por até 150 dias, sem a necessidade de aprovação legislativa imediata, sob a justificativa de proteger as contas externas do país. No sábado (21), o percentual foi elevado para 15%, com as novas tarifas previstas para entrar em vigor na terça-feira, 24 de fevereiro, e com um limite de cinco meses, após o qual a aprovação do Congresso seria necessária para sua manutenção.

Para Monica Araújo, economista-chefe da InvestSmart XP, a rapidez da reação de Trump agrava o quadro de incerteza. “O dia foi marcado por grande reviravolta — a decisão da Suprema Corte e a reação de Trump. De qualquer forma, há um aumento significativo da insegurança jurídica nos EUA, nos acordos comerciais firmados e na reindustrialização prometida por Trump”, avalia. A economista ressalta que a insegurança jurídica é um dos maiores entraves para o planejamento e o investimento.

Barreiras Persistentes: O Legado de Tarifas que Afetam o Comércio Bilateral

Apesar da decisão favorável da Suprema Corte em relação a uma tarifação específica, outras barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos continuam a impactar o fluxo de exportações brasileiras. Os EUA, segundo maior destino dos produtos do Brasil, mantêm tarifas sobre aço e alumínio, que foram ampliadas em fevereiro do ano passado. Uma sobretaxa posterior elevou a alíquota mínima para 50%, justificada por Washington com alegações de que o Brasil teria adotado ações que ameaçam a segurança nacional, incluindo interferências na economia, violações à liberdade de expressão e perseguição política ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

As negociações diretas entre o presidente Lula e Donald Trump resultaram em uma revisão parcial dessas tarifas. Um encontro previsto para março tem o potencial de avançar na retirada de restrições adicionais, com foco especial em produtos industrializados. A persistência dessas tarifas, mesmo após a derrubada de outras, demonstra a complexidade das relações comerciais e a dificuldade em desmantelar medidas protecionistas.

O reflexo desse ambiente de tensões é visível nos números. As exportações brasileiras para os EUA registraram uma queda de 6,7% no ano passado, totalizando US$ 37,7 bilhões, de acordo com a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Apesar disso, o Brasil conseguiu uma façanha ao redirecionar excedentes para outros mercados, encerrando 2025 com um volume recorde de US$ 348,3 bilhões exportados, o maior valor desde o início da série histórica em 1997. Essa resiliência demonstra a capacidade do país em se adaptar a cenários adversos.

Impacto Setorial: Indústria e Agronegócio Sob a Mira das Tarifas Americanas

A derrubada das tarifas originais pela Suprema Corte trouxe um alívio imediato para diversos setores da economia brasileira, reduzindo o custo de entrada de insumos, produtos industrializados e itens do agronegócio no mercado americano. Antes dessa decisão, alguns setores enfrentavam taxas adicionais que podiam chegar a 40%, comprometendo a competitividade de seus produtos.

Ismar Becker, consultor de grandes exportadores brasileiros, avalia que a notícia favorece, em um primeiro momento, produtos de maior valor agregado. “Enquanto havia grande preocupação com as exportações de café e carne, produtos de maior valor agregado — como móveis, cerâmica e componentes industriais — foram imediatamente beneficiados com a derrubada da lei de emergência, considerada injustificável por não haver ameaça externa iminente”, explica Becker. Ele destaca que a redução de custos é um fator determinante para a competitividade.

Contudo, outras medidas protecionistas ainda tramitam e continuam a impor desafios. A Seção 301, que atinge o setor cerâmico sob a alegação de práticas desleais, e as acusações de segurança nacional contra o setor moveleiro, permanecem como obstáculos. As tarifas sobre aço e alumínio, impostas com base em legislação distinta, também seguem vigentes, compondo um cenário complexo para os exportadores brasileiros que buscam acesso ao mercado americano.

Reação dos Mercados e Destaques Brasileiros: Embraer e Taurus na Vanguarda

O mercado financeiro reagiu com otimismo à notícia da redução das tensões protecionistas. Na sexta-feira, o Ibovespa atingiu uma nova máxima histórica, superando os 190.000 pontos, enquanto o dólar apresentou recuo, cotado a R$ 5,18. A percepção de que a decisão judicial limita o poder unilateral de Trump de intervir no comércio global impulsionou as ações e moedas de países emergentes.

A Embraer emergiu como uma das grandes beneficiadas. As ações da companhia aeronáutica apresentaram forte aceleração após a decisão, uma vez que as tarifas americanas impactavam diretamente entre 10% e 13% do seu Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). A Taurus Armas também colheu frutos da notícia, pois estava sujeita a uma tributação de 50% sobre suas exportações, um percentual que agora pode ser reavaliado.

Para Edgar Araújo, diretor-executivo da Azumi Investimentos, o principal ganho para as exportadoras brasileiras é a conquista de maior previsibilidade institucional. “Isso reduz o risco de rupturas inesperadas em contratos e cadeias de fornecimento, permitindo planejamento mais consistente”, afirma. Essa previsibilidade é fundamental para a sustentabilidade e o crescimento dos negócios no longo prazo.

A Disputa pelo Ressarcimento: Um Contencioso Bilionário em Potencial

A decisão da Suprema Corte abre uma nova frente de batalha para as empresas, que agora vislumbram a possibilidade de buscar a devolução de valores pagos indevidamente ao governo americano em decorrência das tarifas. Estima-se que o Tesouro dos Estados Unidos possa ser obrigado a ressarcir até US$ 175 bilhões a importadores globais que foram afetados pelas medidas.

A advogada tributarista Mary Elbe Queiroz destaca que a decisão reforça os princípios de legalidade e separação de poderes no sistema jurídico americano. “Esse precedente é relevante para o comércio internacional, pois sinaliza que medidas fiscais adotadas fora dos limites institucionais podem gerar prejuízos bilionários e insegurança jurídica para empresas e cadeias globais”, ressalta. A legalidade das ações governamentais é um pilar essencial para a confiança no comércio internacional.

No entanto, para as empresas brasileiras, o caminho para o ressarcimento não é automático. Luís Garcia, do Tax Group, alerta que apenas importadoras com operação direta nos EUA ou subsidiárias no país possuem legitimidade para ingressar com ações judiciais em solo americano. “O ordenamento americano não costuma reconhecer prejuízos meramente indiretos, como perda de mercado ou redução de vendas”, explica, indicando que a complexidade jurídica pode ser um fator limitante.

Diplomacia e Diversificação: Os Caminhos Estratégicos do Brasil Frente ao Protecionismo

A derrubada do “tarifaço” original trouxe um alívio palpável, mas não encerra a agenda protecionista americana. Para Sol Azcune, analista política da XP Investimentos, o julgamento redefine os limites institucionais dos Estados Unidos em relação ao comércio exterior. “O efeito transcende o governo atual e aumenta a previsibilidade jurídica no longo prazo”, avalia, sugerindo que a decisão pode ter implicações duradouras.

A administração Trump, contudo, demonstra resiliência em sua estratégia, buscando meios legais alternativos para manter sua política comercial. “É improvável que a estratégia tarifária de longo prazo de Trump seja prejudicada, desde que a Casa Branca consiga reproduzir a política tarifária por outros meios”, comenta Matthew Ryan, head de estratégia de mercado da Ebury. A adaptação estratégica da Casa Branca é um ponto de atenção.

A Frente Parlamentar da Indústria de Máquinas e Equipamentos analisa o cenário com cautela. A entidade sugere que, embora uma tarifa universal represente um retrocesso em relação ao livre comércio, uma alíquota uniforme de 10% seria menos danosa do que as cobranças punitivas anteriores. Segundo a frente parlamentar, este não seria o cenário ideal, mas colocaria o Brasil em uma posição mais equânime em comparação com outros países, uma condição mais favorável do que o regime tarifário punitivo imposto no último ano. A busca por um cenário mais equânime é um objetivo central.

O Papel da Diplomacia e a Necessidade de Diversificação de Mercados

Diante do cenário volátil e das persistentes barreiras comerciais, o governo brasileiro tem na diplomacia a sua principal ferramenta. O encontro previsto para março entre os presidentes Lula e Trump será um momento decisivo para negociar a retirada de tarifas remanescentes, com foco especial em produtos industrializados, que sofrem com a incidência de sobretaxas específicas.

Além da diplomacia, a diversificação de mercados continua sendo uma estratégia fundamental para mitigar os riscos associados à dependência de um único parceiro comercial. Ao buscar novos destinos para suas exportações e fortalecer laços com outras economias, o Brasil aumenta sua resiliência e reduz sua vulnerabilidade a choques externos, como as políticas protecionistas americanas.

A capacidade do Brasil em se adaptar e encontrar novos mercados, como demonstrado pelo recorde de exportações em 2025, é um indicativo da força e da versatilidade de sua economia. A persistência em negociações diplomáticas e a contínua expansão para outros mercados globais são os pilares para garantir a sustentabilidade e o crescimento do comércio exterior brasileiro em um ambiente internacional desafiador.

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