O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, causou comoção ao afirmar que a Venezuela teria “roubado” o petróleo americano, destacando este como um dos maiores roubos da história. Suas declarações vêm à tona em um momento de crescentes tensões e movimentos geopolíticos envolvendo o país sul-americano.

Esta afirmação de Trump, que menciona a intenção de companhias petrolíferas americanas de “reconstruir o sistema” venezuelano, não apenas gera controvérsia, mas também levanta questões sobre o futuro da indústria do petróleo na Venezuela e os interesses dos EUA na região.

Para compreender a complexidade por trás da fala de Trump e a relação entre os dois países, é fundamental mergulhar na longa e muitas vezes tumultuada história do petróleo venezuelano, conforme informações detalhadas da fonte.

A Descoberta do Petróleo e o Início de uma Era

A Venezuela, já no século XV, era conhecida por seus depósitos de petróleo bruto, com povos indígenas utilizando o material para fazer fogo e asfalto. Contudo, a verdadeira transformação do país em uma superpotência petrolífera começou com uma descoberta monumental em 1922.

Em 31 de julho daquele ano, a Venezuelan Oil Concessions (VOC), afiliada local da Royal Dutch Shell, decidiu perfurar mais fundo o poço Los Barrosos-2, na Bacia de Maracaibo, que havia sido abandonado anos antes, segundo Orlando Méndez, historiador dos campos petrolíferos venezuelanos.

Meses depois, na segunda semana de dezembro, os perfuradores atingiram 442 metros e encontraram areias betuminosas. Em 14 de dezembro, a terra tremeu e o petróleo jorrou a 60 metros de altura em uma erupção colossal, atingindo moradores apavorados de La Rosa.

Este evento, apesar de ser um grande desastre ecológico, marcou a descoberta do poço mais produtivo do planeta e impulsionou a Venezuela para um século de riqueza impressionante, crises significativas e turbulência política.

O Discurso de Trump e o Futuro Incerto

Donald Trump afirmou que um dos principais objetivos da recente operação militar na Venezuela é colocar o setor petrolífero do país sob controle americano e permitir que empresas dos EUA se reestruturem. “As companhias petrolíferas vão entrar e reconstruir o sistema”, declarou Trump.

Ele acrescentou que “foi o maior roubo da história dos Estados Unidos. Ninguém jamais roubou nossa propriedade como eles fizeram. Levaram nosso petróleo. Levaram a infraestrutura, que agora está apodrecida e deteriorada, e as companhias petrolíferas vão entrar e reconstruí-la”.

No entanto, essa tarefa será cara, complexa e potencialmente perigosa. Helima Croft, chefe de estratégia global de commodities da RBC Capital Markets, destacou que será um “longo caminho”, considerando o declínio de décadas sob os regimes de Chávez e Maduro.

Alcançar o objetivo de Trump exigiria que as empresas americanas desempenhassem um “papel quase governamental”, custando cerca de US$ 10 bilhões por ano, segundo executivos do setor, de acordo com Croft. A própria PDVSA, a estatal venezuelana, estima em US$ 58 bilhões o custo para atualizar a infraestrutura e restaurar os níveis máximos de produção.

A situação é ainda mais complicada, pois a PDVSA é controlada pelos militares há décadas e a economia venezuelana depende exclusivamente dela. Trump reconheceu que as forças armadas americanas podem precisar manter uma presença militar de longo prazo para garantir a segurança da infraestrutura.

Empresas petrolíferas americanas, embora contatadas pelo governo Trump, mostraram-se relutantes em retomar as operações, devido às grandes dúvidas sobre a estabilidade futura do país, segundo duas fontes familiarizadas com as negociações. Há também conversas com Delcy Rodríguez, ex-ministra de Energia de Maduro, para ajudar os EUA a administrar o país.

Homayoun Falakshai, analista-chefe de pesquisa de petróleo bruto da Kpler, ressalta que “é impossível simplesmente trazer empresas americanas para a Venezuela sem um acordo com o governo”. Se houver um acordo, as empresas americanas teriam uma presença mais forte e enviariam a maior parte de sua produção de petróleo bruto pesado e ácido de volta para a Costa do Golfo dos EUA.

A Importância Estratégica da Venezuela para os EUA

Em 1929, a Venezuela já havia se transformado de uma exportadora agrícola em uma economia baseada no petróleo, tornando-se o segundo maior produtor mundial, atrás dos Estados Unidos, de acordo com o Conselho de Relações Exteriores. Mais de 100 empresas petrolíferas estrangeiras operavam no país.

Embora o líder da época, Juan Vicente Gómez, tenha acolhido bem as empresas, o governo e o povo venezuelano nem sempre colhiam os frutos. Em busca de reformas, a Venezuela aprovou a Lei dos Hidrocarbonetos de 1943, obrigando as companhias estrangeiras a entregar metade dos lucros, conforme o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

As companhias petrolíferas estavam dispostas a pagar esse preço, pois a Venezuela detinha uma vantagem crucial: possuía reservas gigantescas de 303 bilhões de barris de petróleo bruto, cerca de um quinto das reservas globais, segundo a Administração de Informação Energética dos EUA (EIA).

Mais importante, seu petróleo bruto pesado e ácido era extraordinariamente barato, próximo aos Estados Unidos e essencial para ser refinado em derivados como asfalto, óleo combustível e diesel, que a indústria americana demandava. O petróleo leve e doce do Texas, por outro lado, era bom apenas para a produção de gasolina.

Democracia, Nacionalização e a Ascensão de Chávez

Em 1958, a Venezuela tornou-se uma democracia e um aliado importante dos Estados Unidos, servindo como contrapeso à Cuba comunista. O presidente John F. Kennedy chegou a chamar o presidente venezuelano Rómulo Betancourt de “o melhor amigo da América” na América do Sul em 1963.

No entanto, a Venezuela também se tornou membro fundador da OPEP em 1960, o que lhe conferiu maior influência global e poder sobre as empresas estrangeiras. Naquele ano, criou a estatal Corporação Venezuelana de Petróleo e elevou o custo de fazer negócios para 65% dos lucros das empresas.

Mesmo assim, a Venezuela permaneceu a maior e mais importante fonte de petróleo dos Estados Unidos. Na década de 1970, refinarias americanas foram construídas especificamente para processar o petróleo venezuelano, segundo Phil Flynn, analista sênior de mercado do Price Futures Group.

Em 1976, o presidente Carlos Andrés Pérez criou a PDVSA para administrar a indústria petrolífera do país, estabelecendo parcerias com empresas estrangeiras com uma participação de 60% nas joint ventures. Dada a importância estratégica, os EUA não reagiram significativamente à nacionalização, especialmente porque a PDVSA pagou US$ 1 bilhão às empresas americanas pela participação.

A crise petrolífera da década de 1980, com a queda dos preços, mergulhou a Venezuela em dificuldades. O país também se endividou seriamente ao adquirir a refinaria americana Citgo. As medidas de austeridade implementadas por Pérez foram impopulares e, em última análise, pavimentaram o caminho para a ascensão de Hugo Chávez.

O Declínio sob Chávez e Maduro

Hugo Chávez assumiu o poder em 1999, transformando a Venezuela em um Estado socialista. Em 2007, ele confiscou e nacionalizou ativos de empresas petrolíferas estrangeiras, como ExxonMobil e ConocoPhillips, expulsando-as do país.

O governo Chávez assumiu o controle direto da PDVSA, utilizando os lucros como um “caixa eletrônico” para os militares, o que levou à saída de trabalhadores qualificados e ao colapso da infraestrutura petrolífera da Venezuela. O país, que Trump diz que Venezuela roubou petróleo dos EUA, viu sua própria capacidade produtiva declinar.

Nicolás Maduro assumiu em 2013, e a queda dos preços do petróleo no ano seguinte mergulhou a Venezuela em uma calamidade econômica, com hiperinflação e emigração em massa. As sanções internacionais, impostas pelos EUA desde 2005, também contribuíram para o declínio, segundo a EIA.

Em 2019, o primeiro mandato de Trump bloqueou efetivamente todas as exportações de petróleo bruto da PDVSA para os Estados Unidos. Embora Joe Biden tenha concedido à Chevron uma licença em 2022 para operar na Venezuela, Trump a revogou e posteriormente reemitiu, sob a condição de que nenhum lucro fosse para o governo Maduro.

Hoje, a Venezuela produz pouco mais de 1 milhão de barris de petróleo por dia, o que representa apenas cerca de 0,8% da produção global. É menos da metade da produção anterior a Maduro e menos de um terço dos 3,5 milhões de barris produzidos antes da ascensão de Chávez ao poder.

A deterioração da infraestrutura e a falta de recursos para a PDVSA impediram que as empresas petrolíferas do país produzissem toda a sua capacidade de petróleo bruto, demonstrando o longo caminho para a recuperação da indústria, conforme apontado por analistas e a história do petróleo venezuelano.

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