A economia dos Estados Unidos enfrenta um período de crescente volatilidade, com fatores internos e externos contribuindo para um cenário de incertezas à economia dos EUA. As investidas políticas do ex-presidente Donald Trump contra o Federal Reserve (Fed) e a implementação de tarifas comerciais agressivas são apontadas como os principais elementos desestabilizadores.

Essa turbulência não apenas impacta a política monetária e comercial do país, mas também ressoa globalmente, afetando a precificação de títulos e as cadeias de suprimentos internacionais.

A análise, conforme divulgada pelo professor de Economia do Insper, Roberto Dumas, no WW Especial, destaca a gravidade da situação e os potenciais riscos para o futuro econômico americano.

Ataques ao Federal Reserve e a precarização da independência

Os constantes ataques de Donald Trump ao Federal Reserve são vistos com grande preocupação, pois podem precarizar a independência da instituição, conforme avalia Roberto Dumas. Essa postura, segundo o professor, “assusta” o mercado e dificulta a capacidade de precificar títulos públicos e corporativos, impactando até mesmo a política externa.

A relação entre Trump e o presidente do Fed, Jerome Powell, deteriorou-se significativamente desde o primeiro mandato do republicano. Powell, que antes era uma figura de confiança, tornou-se alvo de críticas e ofensas, sendo chamado de “senhor atrasado”, “babaca” e “velho” pelo ex-presidente.

A escalada dos ataques culminou em uma investigação criminal contra Powell e o Fed, relacionada a uma reforma bilionária em edifícios da autarquia. Em resposta, Powell defendeu-se publicamente, classificando a investigação como uma tentativa de intimidação, um movimento raro e significativo.

Essa confusão, além de dificultar a precificação de ativos, “traz uma precarização na independência do Federal Reserve”, reforça Dumas, adicionando uma camada de incertezas à economia dos EUA.

A guerra de tarifas e seus impactos globais

Além dos embates com o Fed, as políticas tarifárias de Trump também contribuem para a instabilidade econômica. O vai-e-vem tarifário “causa uma bruta incerteza econômica mundial” e restringe o crescimento global, ao “destruir cadeias logísticas”, explica o especialista do Insper.

Um relatório de novembro de 2025 do “The Budget Lab”, da Universidade de Yale, aponta que a tarifa média americana atingiu 16,8%, o nível mais alto dos últimos 90 anos. Trump justifica essas medidas como um esforço para reanimar a indústria dos EUA, afetada pela importação de produtos baratos e pela automação.

O ex-presidente chegou a declarar em Detroit, em 13 de janeiro de 2026, que “‘Tarifas’ é a minha palavra favorita”. Detroit, outrora um centro industrial automotivo, sofreu com a desaceleração econômica e o desemprego, sendo um símbolo da promessa de revitalização de Trump.

No entanto, a política comercial resultou em uma queda no trabalho de manufatura no último ano e um aumento nos preços de produtos básicos, como café e carne. Essa situação impactou negativamente a percepção pública, com metade dos americanos avaliando que a economia do país está piorando, segundo pesquisa YouGov em parceria com a The Economist.

O “One Big Beautiful Bill” e o déficit gêmeo

Outro ponto de instabilidade é a peça orçamentária apelidada por Trump de “One Big Beautiful Bill”, aprovada em julho de 2025. Este megaprojeto ampliou isenções fiscais de seu primeiro mandato, elevou gastos federais com o exército e a força de imigração, e realizou cortes em programas sociais.

O Escritório de Orçamento do Congresso estima que esta lei gerará um déficit de US$ 3,4 trilhões em 10 anos. Roberto Dumas alerta que isso levará a uma piora no déficit fiscal dos Estados Unidos, em paralelo a um prejuízo na conta corrente, fenômeno conhecido como “déficit gêmeos”.

Dumas explica que “se você gasta demais e não produz, se você poupa pouco e investe e consome demais, você vai ter déficit em conta corrente”. Este cenário agrava as incertezas à economia dos EUA, criando um desequilíbrio macroeconômico preocupante.

O futuro incerto da política econômica americana

Diante desses desafios, a questão central, segundo Dumas, é “saber até que ponto Trump vai assumir que isso é uma identidade macroeconômica ou, então, dobrar a aposta e colocar mais tarifa”. A incerteza sobre a direção futura da política econômica americana permanece um ponto crítico.

O cenário atual, marcado por confrontos institucionais e políticas comerciais voláteis, exige atenção redobrada. As incertezas à economia dos EUA não são apenas um problema doméstico, mas um fator com potencial para redefinir o panorama econômico global nos próximos anos.

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