Na arena política global, a ideia de que ações são movidas puramente por altruísmo ou ideais desinteressados é frequentemente desmistificada pela realidade. A literatura em psicologia, economia e ciência política é clara sobre isso.

Interesses são padrões estáveis de motivação, atenção e preferência que orientam escolhas humanas, coletivas e institucionais. Eles são o combustível da ação e o eixo da racionalidade em sociedades e Estados.

A situação da Venezuela serve como um estudo de caso emblemático dessa dinâmica. Longe de ser um conflito puramente ideológico, o país se tornou um complexo tabuleiro onde interesses geopolíticos de potências globais e atores criminosos convergiram.

Esse cenário resultou em um colapso social e humanitário sem precedentes. Este artigo explora como essa teia de motivações moldou a realidade venezuelana, expondo a pretensa superioridade moral de certos setores da esquerda na defesa de ditaduras.

A análise é baseada em informações detalhadas da advogada Zizi Martins, vice-presidente da ANED e membro fundadora da Lexum.

A Teia de Interesses: Além da Ideologia

Não existe desinteresse em política, como bem pontua Zizi Martins. O que realmente existe é um interesse ideológico travestido de virtude moral. Defender ditaduras aliadas, enquanto se acusam democracias de imperialismo, não é uma postura ética, mas sim um claro cinismo, segundo a especialista.

Interesses são, na verdade, o motor da ação humana e institucional. Desde Adam Smith, a economia nos ensina que o autointeresse, sob regras claras, pode gerar cooperação e prosperidade.

O problema histórico não é o interesse em si, mas sua captura por elites predatórias, que fecham as estruturas ao controle social, impedindo a participação da sociedade.

Na ciência política, interesses estruturam grupos, coalizões e Estados. Ditaduras, por exemplo, sobrevivem porque interesses se concentram, se armam e se protegem mutuamente contra a sociedade que deveriam servir.

Na geopolítica, os interesses nacionais são ainda mais explícitos. Estados buscam segurança, acesso a recursos estratégicos, estabilidade regional e projeção de poder. Fingir surpresa diante dessa realidade é, segundo a análise, uma forma sofisticada de desonestidade intelectual.

A ditadura chavista na Venezuela, por exemplo, não se sustentou por ideias. Foi mantida por uma convergência objetiva de interesses externos, estatais e criminosos. Este cenário complexo demonstra que a geopolítica raramente é binária ou movida por uma única variável.

Os Atores Globais e Seus Ganhos na Venezuela

A Venezuela, sob o regime chavista, tornou-se um ponto estratégico para diversas potências. A China, por exemplo, despejou até 70 bilhões de dólares em acordos de “petróleo por dinheiro”.

Isso garantiu acesso preferencial a óleo pesado com desconto, proteção informal a seus ativos e influência direta na América Latina, além de uma vantagem decisiva na disputa global por minerais críticos.

A Rússia transformou Caracas em uma vitrine antiamericana. Investiu dezenas de bilhões, vendeu armamentos e ensaiou presença militar no Caribe. A Venezuela serviu como peça de barganha geopolítica para Moscou, enquanto negociava força em outros tabuleiros globais.

O Irã foi além da energia. Usou o território venezuelano como um hub de evasão de sanções, cooperação militar, logística de drones e financiamento de redes terroristas.

A atuação do Hezbollah, ligada à lavagem de dinheiro, documentos falsos e narcotráfico, não foi um acidente, mas um projeto, afirma a análise.

A esse eixo de potências somaram-se os interesses do crime organizado. O Cartel de los Soles, o Tren de Aragua, o ELN e redes transnacionais de drogas e mineração ilegal formaram uma governança criminal híbrida.

Nela, o Estado, as armas e os ilícitos se fundiram em uma simbiose funcional ao regime. O resultado dessa convergência de interesses geopolíticos não foi soberania nem “justiça social”.

Foi um colapso: hiperinflação, fome, destruição de serviços públicos e uma diáspora de cerca de 7,7 milhões de pessoas, quase um quinto da população venezuelana, espalhada pelo continente e pelo mundo.

Pesquisas recentes mostram que entre 63% e 76% dos venezuelanos rejeitavam Maduro como ilegítimo. Mais de 70% acreditavam que o país seria melhor sem ele.

O interesse central da população nunca foi ideológico. Foi sobreviver, trabalhar, comer e viver sem medo. A fraude nas eleições, observada por muitos, apenas reforça a ilegitimidade do regime.

A Reação Americana e o Cínico Discurso da Esquerda

É nesse contexto que a ação dos Estados Unidos, como a captura de Nicolás Maduro, deve ser compreendida. Não como um ato romântico ou missionário, mas como um movimento geopolítico clássico: desmontar um nó em que interesses autoritários, criminosos e hostis se reforçavam mutuamente.

Os interesses americanos são múltiplos e explícitos, conforme a análise. Incluem segurança hemisférica, combate ao narcoterrorismo, contenção de China, Rússia e Irã, e redução da migração forçada.

Também visam o acesso ordenado a petróleo e minerais críticos, como coltan, ouro, bauxita e terras raras, e o desmonte de cadeias ilícitas que corroíam o Estado venezuelano.

Reduzir essa complexidade a uma mera “ganância por petróleo” é, segundo Zizi Martins, infantilizar deliberadamente a análise. Petróleo importa, mas também importam rotas logísticas, segurança regional e reconstrução institucional.

Aos EUA também interessa uma zona de influência geograficamente próxima para a defesa do seu próprio território, além de promover seu produto mais importante: a democracia.

As reações internacionais a essa ação também escancararam interesses. O presidente da Coreia do Norte condenou a ação americana, pois regimes personalistas dependem da retórica da soberania absoluta para justificar a repressão interna. Ditadores se reconhecem e se protegem no discurso.

Emmanuel Macron, da França, reagiu com cautela calculada. A França mantém diálogo histórico com a oposição venezuelana, mas precisa equilibrar interesses europeus, contratos energéticos e estabilidade regional. Isso demonstra pragmatismo, não moralismo.

Marine Le Pen, politicamente vinculada à órbita russa, adotou um discurso crítico à ação americana. A queda de Maduro enfraquece Moscou e desmonta uma vitrine antiocidental útil ao Kremlin. Ideologia e alinhamento estratégico, muitas vezes, caminham juntos.

Já o presidente Lula ofereceu a reação mais reveladora, segundo a análise. Em nome de uma retórica vazia de “não intervenção”, silenciou sobre narcoterrorismo, miséria, diáspora e crime transnacional.

Essa postura não se deu por neutralidade, mas por alinhamento ideológico e interesse político. Aqui reside a mentira central de parte da esquerda brasileira: a ideia de “desinteresse”.

Não existe desinteresse em política. O que existe é interesse ideológico travestido de virtude moral. Defender ditaduras aliadas enquanto se acusa democracias de imperialismo não é ética, é cinismo.

O Destino da Venezuela: Interesses e a Luta por Autodeterminação

Durante décadas, essa esquerda denunciou imperialismos abstratos, mas hoje defende regimes concretos sustentados por drogas, terrorismo e fome, desde que úteis à sua narrativa. Isso não é pacifismo, mas conveniência.

Interesses sempre existem, inclusive os ideológicos. O erro moral não está em tê-los, mas em fingir que não existem, enquanto se justificam opressões reais em nome de abstrações políticas.

Num Estado moderno, o critério honesto é simples: quais interesses convergem com as necessidades humanas concretas da população atingida.

No caso venezuelano, goste-se ou não, os interesses dos Estados Unidos convergem hoje com o desejo majoritário por democracia, estabilidade e reconstrução. A autodeterminação da Venezuela não nascerá de slogans nem de discursos moralistas.

Ela nascerá da reorganização dos interesses. O colapso da convergência entre ditadura, crime e potências autoritárias é o primeiro passo para que os venezuelanos voltem, enfim, a decidir o próprio destino, recuperando a esperança de um futuro mais justo e seguro.

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