A discussão sobre a politização do esporte ganha novos contornos com a declaração enfática de um dos principais dirigentes do futebol alemão. Oke Göttlich, figura proeminente na DFB e presidente do clube St. Pauli, trouxe à tona a possibilidade de um boicote à próxima Copa do Mundo.

A proposta de não participação na competição, que será majoritariamente sediada nos Estados Unidos, surge como uma resposta direta às recentes manobras e declarações do ex-presidente americano Donald Trump, reacendendo um antigo dilema sobre o papel do esporte frente a questões geopolíticas.

Este posicionamento marca um momento crucial para o futebol global, instigando federações e torcedores a refletirem sobre os valores que o esporte deve defender, conforme informações divulgadas pelo jornal alemão “Hamburger Morgenpost”.

O Debate Ganha Força na Alemanha

Oke Göttlich não hesitou em expressar sua visão, afirmando que “chegou o momento” para se considerar seriamente um possível boicote à Copa do Mundo de 2026. Para o dirigente, a seriedade das ações de Donald Trump exige uma reação à altura, colocando a discussão sobre a mesa.

Ele enfatizou a urgência do tema, questionando: “Eu realmente me pergunto quando chegará o momento de pensar e falar concretamente sobre isso. Para mim, esse momento definitivamente chegou”. A provocação de Göttlich busca mobilizar o debate dentro e fora da DFB.

A Copa do Mundo de 2026 será disputada entre junho e julho, com a maior parte dos 104 jogos programados para cidades nos Estados Unidos, além de partidas no Canadá e México. A centralidade dos EUA na organização eleva a relevância do protesto proposto.

Histórico de Boicotes e Valores em Xeque

Para contextualizar sua defesa, Göttlich rememorou o boicote liderado pelos Estados Unidos aos Jogos Olímpicos de 1980, em Moscou. Naquela ocasião, a ação foi uma resposta à invasão do Afeganistão pela antiga União Soviética, estabelecendo um precedente histórico.

O dirigente questionou a justificativa da época em comparação com o cenário atual: “Quais foram as justificativas para os boicotes aos Jogos Olímpicos na década de 1980? Na minha opinião, a ameaça potencial hoje é maior do que naquela época. Precisamos ter essa discussão”.

Göttlich também trouxe à memória a polêmica da Copa do Mundo de 2022, no Catar, quando a FIFA proibiu a braçadeira “OneLove”. Naquela época, os jogadores alemães protestaram ao tapar a boca na foto oficial, simbolizando a censura.

Ele criticou a postura de se manter apolítico: “O Catar era político demais para todos e agora somos completamente apolíticos? Isso realmente me incomoda. Como organizações e como sociedade, estamos nos esquecendo de estabelecer limites e de defender valores”.

O vice-presidente da Federação Alemã continuou sua reflexão sobre os limites da inação, perguntando: “Tabus são parte essencial disso. Quando eles são ultrapassados? Quando há ameaças? Quando há ataques? Quando pessoas morrem?”.

Ele ainda alfinetou outras figuras importantes, declarando ao “Hamburger Morgenpost”: “Gostaria de saber de Donald Trump qual é o seu limite. E também de Bernd Neuendorf, presidente da Federação Alemã de Futebol, e de Gianni Infantino, presidente da Fifa”.

As Polêmicas de Donald Trump e Reações Internacionais

A posição de Göttlich se intensificou após uma série de declarações de Donald Trump. O ex-presidente americano fez alegações sobre a compra da Groenlândia, território administrado pela Dinamarca, e cogitou impor tarifas a oito países europeus, incluindo a Alemanha, que se opuseram ao plano.

Essas ações diplomáticas e econômicas geraram desconforto e foram o estopim para a proposta de boicote. A tensão entre os Estados Unidos e nações europeias, especialmente a Alemanha, é um fator central na argumentação do dirigente.

Enquanto a Alemanha debate, outras federações adotam uma postura mais cautelosa. O governo francês, por exemplo, declarou que, por ora, não apoia um boicote. A Federação Dinamarquesa de Futebol, por sua vez, afirmou estar “ciente da delicada situação atual”, mostrando a complexidade do tema.

FIFA Mantém a Neutralidade Política

A FIFA, por sua vez, tem evitado se manifestar sobre as questões geopolíticas. A entidade máxima do futebol busca focar exclusivamente no esporte, apesar das crescentes pressões para que adote posturas mais firmes em relação a temas políticos e sociais.

Durante uma cerimônia de sorteio dos grupos para o Mundial de 2026, em dezembro de 2025, o presidente da instituição, Gianni Infantino, chegou a entregar o “Prêmio da Paz” a Donald Trump, o que gerou controvérsia. Infantino também tem destacado a procura recorde por ingressos da Copa, reforçando o apelo comercial do evento.

A postura da FIFA de se manter alheia às discussões políticas, focando nos aspectos esportivos e comerciais, contrasta com a visão de dirigentes como Oke Göttlich, que defendem uma maior responsabilidade social e política das entidades do futebol.

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