Vini Jr. é alvo de novo episódio de racismo em Portugal; Uefa abre investigação

O atacante brasileiro Vinicius Junior, estrela do Real Madrid, denunciou ter sido vítima de ofensas racistas durante partida contra o Benfica, em Lisboa, pela Liga dos Campeões. Este é o 20º incidente de racismo relatado pelo jogador em oito anos de carreira no clube espanhol. A Uefa confirmou a abertura de uma investigação oficial sobre o ocorrido, que levou à interrupção do jogo por dez minutos.

O lance ocorreu após Vinicius Jr. marcar um gol e comemorar com sua tradicional dança. Segundo o jogador, o meio-campista argentino do Benfica, Gianluca Prestianni, proferiu insultos racistas. A alegação foi corroborada pelo companheiro de equipe de Vinicius, Kylian Mbappé, que afirmou ter ouvido as ofensas diversas vezes. Prestianni negou as acusações, alegando que Vinicius Jr. interpretou mal suas palavras e que ele próprio tem recebido ameaças.

O caso reacende o debate sobre a persistência do racismo no futebol europeu e a eficácia dos protocolos antirracismo. A Uefa designou um inspetor de Ética e Disciplina para apurar os fatos, com novas informações previstas para serem divulgadas em breve. Conforme informações divulgadas pela BBC News Brasil.

O incidente em Lisboa e a ativação do protocolo antirracismo

A partida entre Benfica e Real Madrid, válida pelo playoff da Liga dos Campeões 2025/2026, foi marcada por um grave incidente. Minutos após Vinicius Jr. abrir o placar, o jogador relatou ter sido alvo de insultos racistas por parte de Gianluca Prestianni. A denúncia levou à paralisação do jogo por cerca de dez minutos, um tempo considerável que evidenciou a gravidade da situação.

Seguindo o protocolo antirracismo da Uefa, introduzido em 2009 e atualizado pela Fifa em 2024, os jogadores de ambas as equipes deixaram o campo enquanto o árbitro, François Letexier, acionava os procedimentos. O gesto de braços cruzados, utilizado pelo árbitro, sinaliza a denúncia de racismo. O protocolo prevê três etapas: um anúncio no estádio, a suspensão da partida por até dez minutos com a retirada dos jogadores, e, em caso de persistência, o abandono do jogo.

Apesar da interrupção e da ativação do protocolo, a partida foi retomada e o Real Madrid manteve a vitória por 1 a 0. No entanto, o episódio deixou marcas, com Vinicius Jr. expressando sua frustração nas redes sociais, classificando os racistas como “covardes” e criticando a condução do protocolo. Ele também questionou o cartão amarelo recebido pela comemoração do gol.

A defesa do Benfica e a negação de Prestianni

Em meio à polêmica, o Benfica emitiu um comunicado defendendo seu jogador Gianluca Prestianni. O clube português argumentou que, dada a distância entre os atletas em campo, os jogadores do Real Madrid não teriam como ouvir as supostas ofensas. O Benfica classificou a situação como uma “campanha de difamação” contra Prestianni e declarou apoio total à versão apresentada pelo argentino.

Gianluca Prestianni, por sua vez, negou veementemente as acusações. Em suas declarações, o meio-campista argentino afirmou que em nenhum momento proferiu insultos racistas contra Vinicius Jr. e que o brasileiro interpretou mal o que achou ter ouvido. Prestianni também mencionou ter recebido ameaças após o incidente, o que adiciona uma nova camada de complexidade ao caso.

A postura do Benfica e a negação de Prestianni contrastam com o testemunho de Kylian Mbappé e a decisão da Uefa de abrir uma investigação. A investigação buscará determinar a veracidade das alegações e, caso confirmadas, aplicar as sanções cabíveis.

O que pode acontecer com Gianluca Prestianni: sanções e precedentes

Caso a investigação da Uefa conclua pela ocorrência de abuso racial, Gianluca Prestianni poderá enfrentar uma suspensão mínima de 10 partidas em competições europeias. Essa punição obrigatória foi introduzida em 2013 e já foi aplicada em casos anteriores, como o do zagueiro Ondrej Kudela, banido por dez jogos após ofensas racistas em 2021.

Os regulamentos da Uefa estabelecem esse mínimo disciplinar, mas sanções adicionais podem ser impostas dependendo da gravidade da infração. A decisão final dependerá das provas coletadas durante a investigação, incluindo depoimentos, imagens e outros elementos que possam comprovar ou refutar as alegações.

Este caso se soma a outros episódios que têm levado a Uefa e outras entidades do futebol a endurecerem as punições contra o racismo. A intenção é enviar uma mensagem clara de que tais comportamentos não serão tolerados no esporte.

A longa e dolorosa jornada de Vinicius Jr. contra o racismo

O incidente em Lisboa, infelizmente, não é um episódio isolado na carreira de Vinicius Jr. Desde que se tornou uma figura proeminente no futebol europeu, o atacante brasileiro tem sido repetidamente alvo de insultos racistas em estádios por toda a Espanha e em outras partes da Europa. Sua trajetória se tornou um reflexo doloroso da persistência do racismo no esporte.

Ao longo de seus oito anos no Real Madrid, Vinicius Jr. acumulou uma série de denúncias, que incluem cantos racistas, imitações de macaco, comparações pejorativas e até ameaças físicas. Exemplos notórios incluem um incidente no Camp Nou em 2021, onde torcedores do Barcelona proferiram insultos, e em 2022, quando torcedores do Mallorca imitaram sons de macaco e o mandaram “colher bananas”.

Em setembro de 2022, torcedores do Atlético de Madrid entoaram cânticos racistas nos arredores do estádio antes de um clássico. Um dos episódios mais chocantes ocorreu em janeiro de 2023, quando um boneco com a camisa de Vinicius Jr. foi pendurado em uma ponte próxima ao centro de treinamento do Real Madrid, um gesto interpretado como uma grave ameaça. Embora quatro homens tenham sido multados e proibidos de frequentar estádios por dois anos neste caso, muitos outros incidentes resultaram em poucas ou nenhuma consequência para os agressores.

Reações e controvérsias: de colegas de time a José Mourinho

O mais recente episódio de racismo contra Vinicius Jr. gerou uma onda de reações no mundo do futebol. Companheiros de equipe, ex-jogadores e personalidades do esporte expressaram solidariedade ao atacante brasileiro, condenando veementemente os supostos ataques racistas. O lateral Trent Alexander-Arnold classificou o incidente como “uma vergonha para o futebol”, enquanto Clarence Seedorf afirmou que o abuso racial nunca deve ser justificado.

Thierry Henry, que também enfrentou o racismo em sua carreira, compreendeu a sensação de solidão que jogadores como Vinicius Jr. podem sentir nessas situações, onde a palavra de um pode se chocar com a de outro. No entanto, o técnico do Benfica, José Mourinho, gerou controvérsia com comentários que pareceram relativizar o caso. Mourinho insinuou que Vinicius Jr. poderia ter provocado a situação com sua comemoração de gol, sugerindo que ele deveria “comemorar de forma respeitosa”.

Mourinho também tentou desassociar o Benfica do racismo, citando Eusébio, um dos maiores jogadores da história do clube e negro, como prova. Essas declarações foram criticadas por muitos, que viram nelas uma tentativa de desviar o foco da responsabilidade dos agressores e do problema estrutural do racismo no esporte.

A luta de Vinicius Jr. e os marcos jurídicos no combate ao racismo

Diante da repetição dos ataques, Vinicius Jr. tem adotado uma postura cada vez mais combativa. Em maio de 2023, durante uma partida contra o Valencia, o jogador interrompeu o jogo para alertar o árbitro sobre os abusos racistas vindos das arquibancadas, culminando em sua expulsão após uma confusão generalizada. O Real Madrid, por sua vez, denunciou o episódio à promotoria espanhola como crime de ódio, transformando o caso em um marco jurídico na luta contra o racismo no futebol.

A persistência do problema levou Vinicius Jr. a declarar, em março de 2024, que se sentia “cada vez com menos vontade de jogar futebol”. O impacto psicológico da discriminação contínua é evidente, mas o jogador tem se mantido firme em sua luta. Em junho de 2024, a Espanha registrou sua primeira sentença contra insultos racistas no futebol, com três torcedores condenados a oito meses de prisão e dois anos de proibição de frequentar estádios por sua participação nos insultos.

Após essa condenação histórica, Vinicius Jr. declarou ser um “algoz de racistas”, reforçando sua determinação. Em setembro de 2024, quatro pessoas foram presas por incitar uma campanha de ódio online contra o jogador. Em novembro de 2024, o Real Madrid puniu um torcedor menor de idade com multa e proibição de acesso a estádios por um ano. Mais recentemente, em maio de 2025, a Justiça espanhola proferiu uma decisão histórica, com cinco pessoas recebendo penas suspensas de prisão por insultos racistas contra Vinicius Jr. em 2022, um marco no combate à discriminação racial no esporte.

O futuro da investigação da Uefa e o impacto no futebol

A investigação aberta pela Uefa sobre o mais recente incidente de racismo contra Vinicius Jr. em Portugal tem o potencial de gerar consequências significativas. Se as alegações forem comprovadas, o jogador Gianluca Prestianni poderá enfrentar uma suspensão que impactará sua carreira em competições europeias.

Além das punições individuais, o caso levanta questões importantes sobre a eficácia dos protocolos antirracismo existentes. Apesar dos esforços para combater a discriminação, os episódios recorrentes demonstram que ainda há um longo caminho a percorrer. A Uefa e outras entidades do futebol são pressionadas a aprimorar suas medidas, tanto em termos de prevenção quanto de punição.

A posição de Vinicius Jr. como um dos jogadores mais visíveis do mundo o coloca em uma posição única para liderar essa luta. Sua coragem em denunciar e sua resiliência diante da adversidade inspiram muitos, mas também expõem a urgência de ações mais efetivas para erradicar o racismo do esporte que milhões amam.

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