A Escalada da Insegurança no Ambiente Educacional: Por Que Escolas Precisam Ser Santuários de Aprendizagem e Paz
O início de cada ano costuma renovar esperanças, projetando um cenário de paz, diálogo e convivência. Contudo, a realidade dos últimos tempos tem sido outra, com conflitos se acumulando globalmente e a violência parecendo atravessar fronteiras, ganhando contornos de normalidade.
Esse pano de fundo perigoso não pode ser aceito como regra, especialmente quando ultrapassa os limites do noticiário internacional e invade os muros das escolas, alcançando crianças, professores e comunidades inteiras. A escola, que é o berço da educação e da liberdade intelectual, precisa ser, antes de tudo, um ambiente seguro para aprender e crescer.
Educação e paz não são agendas paralelas, mas sim valores que caminham juntos. Naturalizar a violência na escola é comprometer não apenas o futuro das novas gerações, mas o próprio tecido da sociedade, conforme análises recentes e dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
A Realidade Preocupante da Violência Escolar no Brasil
Estudos indicam um preocupante aumento da violência escolar no Brasil na última década. Esse crescimento é impulsionado por uma série de fatores, como a escassez de políticas públicas eficazes, a precarização da infraestrutura das unidades de ensino, a desvalorização do magistério e o despreparo institucional para lidar com conflitos.
Em um ano de discussões eleitorais, a segurança, e de forma indissociável a segurança nas escolas, tende a ocupar um lugar central no debate público. A violência deixa de ser apenas um dado da realidade e passa a ser um critério decisivo de escolha para eleitores e formadores de opinião.
A inclusão de metas voltadas ao combate à violência nas escolas no novo Plano Nacional de Educação (PNE), que segue para o Senado, foi considerada fundamental. Esse tema, que inicialmente não estava sob o olhar dos formuladores, foi incorporado graças a argumentos técnicos e à articulação da sociedade civil, que deixou claro o óbvio: sem segurança, não há aprendizagem possível.
Múltiplas Faces da Violência: Do Bullying ao Entorno Escolar
O próprio Ministério da Educação reconhece que a comunidade escolar é afetada por múltiplas formas de violência. Isso inclui agressões extremas, violência interpessoal e o chamado “bullying”, caracterizado por intimidações verbais, físicas ou psicológicas de forma repetitiva.
Além disso, soma-se a violência do entorno escolar, que é marcada por tiroteios, assaltos e tráfico de drogas. Esses elementos invadem o cotidiano das escolas e ampliam significativamente a sensação de insegurança entre alunos e profissionais.
A consequência direta dessa complexidade é a ocorrência de vítimas letais e não letais, o aumento da evasão escolar e uma deterioração generalizada do clima educacional. A paz na escola é constantemente ameaçada por essas diversas manifestações de violência.
Dados Alarmantes: O Impacto da Insegurança na Frequência e no Comportamento
Os dados reforçam a urgência de ação. O Atlas da Violência 2024, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que 11,4% dos estudantes deixaram de ir à escola por se sentirem inseguros. Essa proporção praticamente dobrou desde 2009, um indicativo alarmante.
O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2024 aprofunda esse diagnóstico. Questionários respondidos por diretores escolares revelaram que 18% relataram a ocorrência de tráfico de drogas dentro das escolas, e 23% informaram a presença de alunos frequentando as aulas sob efeito de drogas ilícitas.
Adicionalmente, 14% dos diretores registraram alunos sob efeito de bebida alcoólica e 18% informaram casos de estudantes portando armas, como revólver, faca ou canivete. O levantamento também mostra que 82% dos diretores reportaram ameaças ou ofensas verbais no ambiente escolar, e 8% informaram que profissionais da escola foram vítimas de atentado à vida, números que evidenciam a gravidade e a complexidade da violência que atravessa o cotidiano educacional.
O Desafio do Cyberbullying e a Urgência do Letramento Digital
O avanço do “cyberbullying” agrava ainda mais esse cenário, com “fake news”, ameaças, montagens falsas e discursos de ódio circulando com rapidez no ambiente digital. Isso exige uma nova abordagem para a segurança dos jovens.
Cabe aos núcleos familiares, mas também à escola, oferecer letramento digital. É fundamental ensinar crianças e adolescentes a interpretar conteúdos, reconhecer riscos e se proteger nas redes. Embora o Brasil já apresente avanços, especialmente no setor privado, esse conhecimento precisa ser universalizado para garantir a segurança digital de todos os estudantes.
Ao seguir para o Senado, o PNE exige atenção máxima. Combater a violência na escola não é um acessório, mas uma condição para qualquer política educacional efetiva. Jovens já enfrentam um futuro incerto, marcado por novas tecnologias e economias em rápida transformação.
Se nem na escola conseguem se sentir seguros e compreender seus direitos, o avanço da sociedade será comprometido. Esse desafio demanda uma força-tarefa que envolva Executivo, Legislativo, Judiciário, Ministério Público e setor produtivo. Como sociedade civil organizada, é imperativo promover o debate, cobrar responsabilidade e exigir políticas públicas concretas e eficazes. Proteger a escola é proteger o futuro, educação e paz precisam caminhar juntas, e agora.