Duas semanas após a prisão e extradição de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, para os Estados Unidos, onde enfrentam acusações de narcotráfico, a Venezuela vive um momento de grande incerteza. A saída do ditador, contudo, não significou o fim imediato do regime.
O poder se concentra agora na figura de Diosdado Cabello, considerado o líder mais importante ainda em liberdade e uma peça-chave para a continuidade do governo chavista. Sua influência e controle sobre as forças armadas são vistos como um grande obstáculo para qualquer tentativa de transição democrática no país.
Os Estados Unidos, por sua vez, já declararam que governarão a Venezuela até segunda ordem, encarregando uma equipe de alto nível para coordenar a transição. No entanto, o caminho para a estabilidade é complexo e permeado por desafios, conforme um artigo recente do jornal americano Wall Street Journal.
O Poder Remanescente de Diosdado Cabello e o Impasse Venezuelano
Considerado o mais linha-dura dos líderes remanescentes, Diosdado Cabello é a face da ala militar do chavismo desde o seu início. Ele foi responsável por executar as ordens repressivas do ditador deposto Nicolás Maduro contra a oposição, solidificando sua posição de poder.
Apesar da prisão de Maduro, o Wall Street Journal aponta que o regime segue operante sob a influência de Cabello. O jornal destaca que ele ainda controla a maior parte das forças armadas e milícias, e há elementos para afirmar que ele estaria “planejando se apoderar de tudo”, o que representa um risco iminente para a estabilidade do país.
Com uma “ideologia anti-americana”, a neutralização de Cabello é vista como essencial para que qualquer plano de transição liderado pelos EUA tenha sucesso. O artigo do WSJ é claro ao afirmar que, “a menos que ele seja neutralizado”, o plano do secretário de Estado Marco Rubio para a Venezuela “provavelmente não acontecerá”.
A Complexa Transição e o Papel de Delcy Rodríguez
Os Estados Unidos encarregaram o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, e a secretária de Segurança Interna e Migração, Kristi Noem, de coordenar a transição na Venezuela. O objetivo é garantir a cooperação da ditadora interina do país, Delcy Rodríguez.
No entanto, o Wall Street Journal observa que a colaboração de Delcy Rodríguez com os EUA se dá “com palavras, não ações”. Ela se encontra em uma posição delicada, tentando agradar tanto os Estados Unidos quanto o poderoso Diosdado Cabello, que exerce grande influência sobre o regime.
A boa notícia, segundo o WSJ, é que as forças armadas venezuelanas estão fragmentadas, com alguns setores favoráveis a uma transição para a democracia. O jornal sugere que, “alistando e organizando esses patriotas, poderíamos restaurar a ordem e evitar um colapso institucional como o do Iraque” após a deposição de Saddam Hussein.
Liberação de Prisioneiros e a Ferramenta de Repressão
Um dos pontos de atrito na transição é a liberação de prisioneiros políticos. O jornal americano afirma que a Venezuela realiza essa liberação de forma lenta, o que “não passa um bom sinal”. Uma das razões para essa gradualidade pode ser que muitos dos presos estariam em péssimas condições, o que “envergonharia Delcy Rodríguez, que tentaria cultivar uma imagem de ‘civilidade’”.
Para Delcy e Diosdado Cabello, um problema ainda maior é que, se a prisão for descartada como ferramenta, eles perderiam o “instrumento necessário de repressão” para seguir no poder. Desde a prisão de Maduro, há relatos de agentes do regime, supostamente ligados a Cabello, intimidando a população com ameaças de prisão e violência física, tanto uniformizados quanto à paisana.