Xi Jinping e Lula Alinham Discursos em Meio a Cenários de Instabilidade Geopolítica
O presidente da China, Xi Jinping, reafirmou o apoio incondicional de seu país ao Brasil e ao Sul Global em tempos considerados “turbulentos”, durante uma conversa telefônica com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O encontro diplomático virtual, divulgado pela agência de notícias estatal chinesa Xinhua na madrugada desta sexta-feira (23), sublinha a importância da cooperação bilateral e o papel das Nações Unidas.
A chamada ocorre em um momento estratégico, logo após o presidente Lula publicar um artigo no New York Times, onde teceu críticas contundentes ao ataque dos Estados Unidos à Venezuela. A iniciativa chinesa de reforçar os laços com o Brasil e a América Latina ganha destaque neste cenário de crescentes desafios geopolíticos e busca por maior autonomia regional.
Segundo informações divulgadas pela Xinhua e Reuters, o diálogo entre os dois líderes ressalta a preocupação mútua com a estabilidade internacional e a necessidade de salvaguardar os interesses dos países em desenvolvimento, atribuindo um papel central à ONU neste contexto.
Apoio em Tempos de Turbulência Global
Durante a conversa, Xi Jinping enfatizou a Lula que a China e o Brasil devem atuar em conjunto para salvaguardar os interesses comuns do Sul Global. Ele ressaltou a importância de manter o papel das Nações Unidas na “atual situação internacional turbulenta”, ecoando um sentimento de necessidade de cooperação e multilateralismo em um cenário global cada vez mais complexo e imprevisível. Essa postura reforça a visão de ambos os países sobre a governança global.
A parceria estratégica entre China e Brasil, firmada em 2024, exemplifica essa solidariedade. Ela visa alinhar a iniciativa chinesa do Cinturão e Rota (BRI) com os planos brasileiros em áreas cruciais como agricultura, infraestrutura e transição energética. Xi Jinping declarou que a China está disposta a continuar sendo uma “boa amiga e parceira dos países da América Latina e do Caribe”, sinalizando um compromisso de longo prazo com a região.
Críticas de Lula e a Situação na Venezuela
O contexto da conversa foi marcado pelas recentes críticas de Lula às ações dos Estados Unidos contra a Venezuela. Em seu artigo de 18 de janeiro no New York Times, o presidente brasileiro escreveu que o futuro da Venezuela, e de qualquer outra nação, deve permanecer nas mãos de seu próprio povo. Ele destacou a gravidade da situação, afirmando que, em mais de 200 anos de história independente, esta é a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos, apesar de intervenções anteriores.
Lula também alertou sobre as consequências de um mundo de hostilidade permanente, afirmando que não é viável. Ele salientou que, por mais fortes que as potências possam ser, elas não podem depender simplesmente do medo e da coerção. As declarações de Lula surgem após o governo norte-americano prender o presidente venezuelano Nicolás Maduro para ser julgado nos EUA por acusações relacionadas a tráfico de drogas, levando Caracas a uma situação de incerteza política.
A Posição da ONU e a Soberania Regional
A ação dos Estados Unidos na Venezuela gerou preocupações significativas entre os países latino-americanos, que temem o risco de intervenções armadas semelhantes em seus próprios territórios. A Organização das Nações Unidas (ONU) também se manifestou, criticando a atitude norte-americana. O secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, em entrevista ao programa Today, da BBC Rádio 4, afirmou que os EUA estavam agindo com impunidade.
Guterres alertou que os princípios fundadores das Nações Unidas, incluindo a igualdade entre os Estados-membros, estavam sob ameaça. Essa posição da ONU reforça a preocupação global com a soberania e a não-intervenção, temas caros ao Sul Global e defendidos por Lula e Xi Jinping.
Fortalecimento da Parceria China-Brasil
A intervenção na Venezuela e o indiciamento de Maduro também representam um desafio à influência da China na América Latina e no Caribe. A região tem sido um foco de investimento e cooperação chinesa, com Xi Jinping prometendo novas linhas de crédito e mais investimentos em infraestrutura. A reafirmação do apoio chinês a Lula, nesse cenário, é um sinal claro da intenção de Pequim de manter e expandir sua presença e influência, contrapondo-se às ações dos EUA.
A cooperação entre China e Brasil, exemplificada pela Iniciativa do Cinturão e Rota, busca fortalecer a voz e a capacidade de ação dos países do Sul Global. Essa parceria estratégica não apenas visa benefícios econômicos mútuos, mas também se posiciona como um contraponto à hegemonia ocidental, promovendo um mundo mais multipolar e equilibrado, especialmente em tempos de turbulência global.