Youtuber Crítico do Príncipe Saudita é Hackeado e Agredido em Londres; Justiça Condena Reino a Pagar R$ 21,5 Milhões

O youtuber Ghanem al-Masarir, conhecido por suas sátiras contundentes à família real da Arábia Saudita, obteve uma vitória judicial significativa na Alta Corte de Justiça de Londres. Após uma série de eventos dramáticos que incluíram a invasão de seus celulares com o sofisticado spyware Pegasus e uma agressão física no centro da capital britânica, o tribunal decidiu que o reino saudita é responsável pelos atos.

A decisão, proferida na segunda-feira, 26 de janeiro, ordena que a Arábia Saudita pague a Al-Masarir mais de 3 milhões de libras, o equivalente a aproximadamente R$ 21,5 milhões, em indenização por danos. Este veredito encerra uma batalha legal de seis anos, marcando um precedente importante para dissidentes e críticos de regimes autoritários que vivem no exterior.

Os incidentes que levaram à ação judicial ocorreram em 2018, quando os celulares do youtuber foram comprometidos e ele foi brutalmente espancado em Londres. As informações foram divulgadas pela BBC, detalhando a complexa trama de espionagem e intimidação que visava silenciar a voz de Al-Masarir.

A Ascensão e o Silenciamento de um Crítico Online

Ghanem al-Masarir, um cidadão britânico de 45 anos nascido na Arábia Saudita, construiu uma impressionante base de fãs com centenas de milhões de visualizações em seus vídeos satíricos no YouTube. De seu apartamento em Wembley, na Inglaterra, ele se tornou uma das vozes mais proeminentes na crítica aos governantes sauditas, em especial ao príncipe herdeiro Mohamed bin Salman, o governante de fato do país.

Suas tiradas humorísticas, muitas vezes consideradas ofensivas pelo regime, frequentemente viralizavam, alcançando um público vasto no mundo de língua árabe. Um de seus clipes mais assistidos, com 16 milhões de visualizações, criticava as autoridades sauditas por sua reação a um vídeo viral de garotas dançando no reino. A popularidade de Al-Masarir, no entanto, não apenas lhe rendeu admiradores, mas também inimigos poderosos, que logo demonstrariam estar dispostos a ir longe para silenciá-lo.

Apesar da vitória legal, o youtuber não posta novos vídeos há três anos, refletindo o profundo impacto dos eventos em sua vida. Ele relata que, embora a justiça tenha sido feita em parte, o objetivo principal do governo saudita, que era calar sua voz, foi alcançado.

A Invasão Digital: O Ataque Invisível do Pegasus

Os primeiros sinais de que algo estava errado surgiram quando os celulares de Al-Masarir começaram a apresentar comportamentos estranhos. Eles se tornaram excessivamente lentos, e as baterias descarregavam rapidamente, indicando uma atividade incomum. Em seguida, ele notou a presença constante dos mesmos rostos em diferentes partes de Londres, pessoas que pareciam ser apoiadores do regime saudita e que começaram a abordá-lo na rua, assediando-o e filmando-o.

A persistência dessas aparições levantou a suspeita de que ele estava sendo monitorado. Temendo que seu telefone estivesse sendo usado para espioná-lo, Al-Masarir buscou a ajuda de especialistas. Ciberespecialistas do Citizen Lab da Universidade de Toronto, no Canadá, confirmaram posteriormente que ele havia sido vítima de uma invasão com o software de espionagem Pegasus, uma ferramenta desenvolvida pela empresa israelense NSO Group.

O Pegasus é conhecido por sua capacidade de acessar remotamente câmeras, microfones, localização e todos os dados de um dispositivo, transformando o celular em um aparelho de vigilância completo. “Era algo que eu não conseguia compreender. Eles podem ver sua localização. Eles podem ligar a câmera. Podem ligar o microfone, ouvir você”, desabafou Al-Masarir à BBC. “Eles têm seus dados, todas as fotos, tudo. Você sente que foi violado.” A invasão ocorreu em 2018, depois que ele clicou em links de mensagens de texto aparentemente enviadas por veículos de notícias, que prometiam ofertas especiais de assinatura.

Da Espionagem à Agressão Física: O Ataque em Londres

A perseguição digital logo escalou para uma agressão física. Em agosto de 2018, Al-Masarir foi espancado no centro de Londres. O tribunal ouviu que duas pessoas desconhecidas se aproximaram dele, gritando e questionando sua autoridade para falar da família real saudita, antes de desferir um soco em seu rosto e continuar com a agressão. Transeuntes intervieram, fazendo com que os agressores recuassem, mas não sem antes chamarem o youtuber de “escravo do Catar” e ameaçarem “lhe dar uma lição”.

O juiz Pushpinder Saini, da Alta Corte, considerou que o ataque foi premeditado, observando que um dos agressores usava um fone de ouvido, o que sugere coordenação. Esta agressão marcou um ponto de virada, intensificando o medo e a paranoia de Al-Masarir. A combinação da vigilância constante e da violência física criou um ambiente de intimidação que visava claramente a silenciar sua voz crítica.

A evidência apresentada em tribunal foi crucial para estabelecer a ligação entre a agressão e a invasão digital. A cronologia dos eventos e a natureza das ameaças indicavam uma campanha coordenada para intimidar Al-Masarir, que culminou na decisão judicial que responsabilizou o Reino da Arábia Saudita.

A Conexão Saudita e a Decisão da Alta Corte

A investigação e o processo judicial revelaram “indícios convincentes” de que tanto o ataque físico quanto a invasão cibernética “foram dirigidos ou autorizados pelo Reino da Arábia Saudita ou agentes agindo em seu nome”, conforme afirmou o juiz Pushpinder Saini. A motivação do reino foi claramente identificada: “O Reino da Arábia Saudita tinha um claro interesse e motivação para calar as críticas públicas ao governo saudita”, concluiu o juiz.

Inicialmente, quando Al-Masarir tentou mover uma ação contra a Arábia Saudita, o reino argumentou que estava protegido de processos judiciais sob a Lei de Imunidade do Estado de 1978. No entanto, em 2022, o tribunal decidiu que a Arábia Saudita não tinha imunidade neste caso específico, permitindo que o processo prosseguisse. A partir de então, o país não foi mais representado em nenhuma etapa do processo, deixando de apresentar defesa ou responder a ordens adicionais do tribunal. “O Reino da Arábia Saudita deixou de apresentar uma defesa ou responder a esta ação e violou múltiplas ordens adicionais. Parece improvável que participe do processo”, observou o juiz.

Esta decisão judicial é um marco importante, pois estabelece a responsabilidade de um Estado por atos de espionagem e violência contra um crítico vivendo em outro país. A condenação a pagar uma indenização milionária envia uma mensagem clara sobre as consequências de tais ações no cenário internacional e reforça a importância da proteção da liberdade de expressão, mesmo para aqueles que vivem no exílio.

Táticas de Intimidação Pós-Agressão e o Impacto Contínuo

Mesmo após a agressão física, a perseguição a Al-Masarir não cessou. Em 2019, ele foi alvo de um incidente perturbador em um café no bairro de Kensington, em Londres. Uma criança se aproximou dele e começou a cantar uma música elogiando o rei Salman, o monarca saudita. O incidente foi filmado e rapidamente postado nas redes sociais, onde viralizou com uma hashtag própria e foi até mesmo transmitido na televisão estatal da Arábia Saudita, demonstrando a coordenação e o alcance da campanha de intimidação.

No mesmo dia, um homem o abordou ao sair de um restaurante na capital britânica e proferiu uma ameaça direta: “Seus dias estão contados”, antes de se afastar. Esses episódios subsequentes reforçaram a sensação de constante vigilância e perigo que Al-Masarir experimentava. Eles mostram a persistência das táticas de assédio, que visavam a manter o youtuber sob pressão e a reforçar a mensagem de que ele estava sendo monitorado e que suas ações tinham consequências.

A natureza pública e coordenada desses atos de intimidação, que incluíam o uso de redes sociais e até a televisão estatal, evidenciam a profundidade e a abrangência da campanha contra ele. Esses eventos contribuíram para o trauma e a depressão que ele viria a enfrentar, afetando profundamente sua vida pessoal e profissional.

As Consequências Pessoais e o Futuro da Luta

Desde que foi hackeado e agredido, Ghanem al-Masarir tem lutado contra a perda de confiança e a depressão. Antes conhecido por seu bom humor e abertura, ele se tornou reservado e, ao falar com a BBC, optou por não mostrar totalmente o rosto. A experiência o transformou profundamente, e ele admite não ser mais o mesmo Ghanem de antes. “Nenhuma quantia em dinheiro pode compensar o dano que isso me causou”, afirma ele. “Realmente me transformou. Não sou o mesmo Ghanem de antes.”

O youtuber, que já teve uma audiência massiva, não posta um vídeo há três anos, o que demonstra o sucesso da campanha de silenciamento do governo saudita. A vitória legal, embora importante, não desfez o impacto psicológico e profissional em sua vida. Ele agora vive em Wembley e, devido ao trauma, não se aventura mais longe de casa, evitando o centro de Londres, que ainda representa um gatilho para suas memórias dolorosas.

Apesar de o tribunal ter estipulado a indenização, ainda não está claro se a Arábia Saudita pagará o valor. A BBC tentou contatar a embaixada saudita em Londres, mas não obteve resposta. Al-Masarir, no entanto, demonstra determinação em fazer cumprir a sentença, afirmando estar disposto a recorrer a tribunais internacionais, se necessário. Sua luta agora se estende à garantia de que a decisão judicial seja efetivamente cumprida, buscando uma reparação completa pelos danos sofridos.

O Software Pegasus: Uma Ferramenta Controvertida em Mãos Governamentais

O caso de Ghanem al-Masarir lança luz sobre o uso controverso do software Pegasus, desenvolvido pela empresa israelense NSO Group. A NSO Group alega que seu software é vendido exclusivamente a governos para auxiliar no rastreamento de terroristas e criminosos, sendo uma ferramenta vital para a segurança nacional. No entanto, investigações do Citizen Lab e de outras organizações têm revelado um padrão preocupante de uso abusivo do Pegasus.

O programa foi encontrado em telefones pertencentes a uma vasta gama de indivíduos, incluindo políticos, jornalistas, ativistas de direitos humanos e, como no caso de Al-Masarir, dissidentes. Essa constatação levanta sérias questões sobre a ética e a legalidade da venda e do uso de tais tecnologias. A capacidade do Pegasus de se infiltrar em dispositivos sem o conhecimento do usuário e de extrair vastas quantidades de dados representa uma ameaça significativa à privacidade e à liberdade de expressão em todo o mundo.

A decisão da Alta Corte de Londres, ao responsabilizar um Estado pelo uso indevido de uma ferramenta de espionagem, envia um forte sinal sobre a necessidade de maior transparência e regulamentação no mercado de spyware. O caso de Al-Masarir é um lembrete contundente dos perigos que críticos e dissidentes enfrentam em um mundo onde a tecnologia de vigilância pode ser facilmente transformada em uma arma contra vozes independentes.

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