O Brasil de 2024: indignação com a corrupção persiste, mas mobilização em massa se esvai
Treze anos após as massivas manifestações de junho de 2013, o Brasil se vê novamente imerso em escândalos de corrupção de grande vulto, como a fraude bilionária no INSS e o caso Banco Master. No entanto, a capacidade de gerar uma mobilização nacional a partir da indignação popular parece ter diminuído consideravelmente. A confiança nas instituições de controle da corrupção também se deteriorou, recolocando o tema no centro do debate público, mas sem o mesmo fervor das ruas ou a mesma prioridade declarada pelo eleitorado.
Pesquisas recentes, como a do Datafolha em março, indicam que apenas 9% dos brasileiros apontam a corrupção como o principal problema do país, ficando atrás de questões como segurança, saúde e até mesmo economia. Este cenário não significa que a sociedade tenha se tornado complacente com desvios de dinheiro público, mas sim que a indignação, embora presente, já não se traduz em mobilizações de massa na mesma escala da década passada.
Cientistas políticos apontam que a perda de força da pauta anticorrupção não se deve a uma diminuição da aversão ao tema, mas a uma complexa combinação de fatores, incluindo a decepção com a política, a frustração com reversões judiciais, a intensa polarização e uma crescente sensação de impotência. Conforme informações divulgadas pela Gazeta do Povo.
Da indignação às ruas: o legado e a transformação das manifestações de 2013
As manifestações de junho de 2013, embora hoje frequentemente associadas à luta contra a corrupção, não tiveram este tema como seu estopim inicial. O gatilho foram os aumentos nas tarifas do transporte público, especialmente em São Paulo. Contudo, em poucos dias, as passeatas transcenderam a reivindicação original, espalhando-se pelo país e agregando uma vasta gama de pautas: a precariedade dos serviços públicos, os altos gastos com a Copa do Mundo, a rejeição ao governo do PT e críticas contundentes ao Congresso Nacional, à classe política e à impunidade reinante.
O slogan “não é só pelos 20 centavos” sintetizou essa metamorfose, transformando uma demanda específica em um amplo levante contra o funcionamento do Estado. Uma das respostas mais emblemáticas do Congresso à pressão popular foi a derrubada da PEC 37 de 2011, que visava restringir o poder de investigação do Ministério Público. A derrota da proposta, com 430 votos a favor e apenas 9 contra na Câmara, foi amplamente interpretada como uma demonstração inequívoca da força das ruas em impor recuos ao sistema político.
Para alguns analistas, como o cientista político Christian Lohbauer, as manifestações de 2013 e o surgimento de novas forças políticas, como o Partido Novo (fundado em 2011), compartilham um mesmo “espírito do tempo”. Lohbauer argumenta que o descontentamento social não surgiu de forma abrupta, mas foi gestado por uma série de fatores anteriores, como o escândalo do Mensalão, a crise econômica internacional de 2008, a desaceleração do crescimento econômico e o consequente desgaste do governo Dilma Rousseff. Essa confluência de insatisfações criou um caldo cultural propício para a explosão social que se viu em 2013.
A Lava Jato como catalisador e o ciclo de mobilização política
A Operação Lava Jato, deflagrada em 2014, desempenhou um papel crucial na institucionalização e canalização da energia difusa da população. A operação elevou o combate à corrupção ao centro do palco político brasileiro, resultando na prisão de empresários e políticos de alto escalão e impulsionando novos movimentos de rua. A Lava Jato alimentou a percepção de que a impunidade poderia ser combatida através da pressão popular organizada, influenciando eventos subsequentes significativos.
O impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016 e a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 são amplamente vistos como desdobramentos diretos desse ciclo de mobilização cívica e política. Para cientistas políticos como Paulo Kramer, é impossível analisar o cenário atual sem considerar essa sequência histórica. Ele enfatiza que o acúmulo de mobilização social iniciado em 2013 e culminando na eleição de Bolsonaro em 2018 moldou profundamente o panorama político brasileiro.
Essa energia, canalizada por anos em manifestações de rua, no impeachment e na Lava Jato, acabou por sofrer um forte choque. A anulação de condenações importantes, o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência e a percepção de que o sistema político conseguiu neutralizar parte da pressão popular levaram a um sentimento de esgotamento e frustração.
O “revertério” pós-mobilizações: decepção e a sensação de impotência
O período que se seguiu ao auge das mobilizações e da Lava Jato foi marcado por um significativo “revertério” institucional e político, segundo analistas. A saída de Lula da prisão, após a anulação de suas condenações pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2021, e o desmonte de partes da Lava Jato, especialmente quando a operação se aproximava de figuras ligadas ao STF e a outros partidos, geraram um profundo desânimo na população. Esse cenário alimentou a sensação de que, apesar dos esforços, o sistema político e judicial acabaram por proteger os poderosos.
Christian Lohbauer descreve o sentimento predominante hoje como de impotência. “Quando você tenta fazer uma manifestação de rua hoje, não chega a um décimo do que se levava lá atrás”, afirma. Ele explica que a sociedade dedicou energias significativas para derrubar um governo considerado incompetente e corrupto, e após os desdobramentos da Lava Jato, que prometia “lavar a roupa suja do país”, a sensação é de ter retornado a uma situação semelhante à anterior. O retorno de Lula ao poder, após ter sido preso e condenado, teve um efeito simbólico decisivo, levando muitos a questionarem: “O que mais eu posso fazer?”.
A anulação das condenações de Lula pelo STF, baseada na incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba, foi um ponto de inflexão simbólico. A partir daí, a narrativa de que a Lava Jato sofreu com abusos judiciais ganhou força, contribuindo para a frustração e o ceticismo em relação à efetividade das ações de combate à corrupção.
A “dilmização” do governo Lula e o risco de ressurgimento da indignação
O cientista político Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília (UnB), observa um processo de “dilmização” no atual governo Lula, o que, paradoxalmente, poderia reacender uma indignação similar à de 2013. Ele lembra que as jornadas de junho foram, em grande parte, uma expressão de exaustão com o governo Dilma Rousseff. “As pessoas simplesmente não aguentavam mais”, afirma.
Caldas aponta para uma repetição acelerada de elementos que desgastaram Dilma no governo atual. Ele cita declarações infelizes, presidentes que não medem suas palavras e agridem as pessoas com tiradas insensíveis. Essa dinâmica, segundo ele, pode gerar um cansaço social semelhante, mesmo que o governo Lula seja reeleito. A reeleição de Dilma, por exemplo, não lhe conferiu legitimidade em face da insatisfação popular. Da mesma forma, uma eventual reeleição de Lula, mesmo por falta de oposição forte, não significaria necessariamente aprovação.
Ele ressalta que o cansaço social pode persistir mesmo em caso de vitória eleitoral. As manifestações de 2013 começaram no final do primeiro mandato de Dilma e continuaram durante sua reeleição. O paralelo com o cenário atual sugere que a exaustão popular não desaparece com o resultado das urnas, indicando que a insatisfação pode se acumular independentemente do sucesso eleitoral do governo.
O papel da polarização e a fragmentação do eleitorado
A polarização política extrema que marcou os últimos anos no Brasil também contribuiu para a diluição da força da pauta anticorrupção. Com o eleitorado dividido entre bolsonaristas e lulistas, temas como a corrupção passaram a ser interpretados sob prismas ideológicos, perdendo sua capacidade de unificar diferentes setores da sociedade em torno de uma causa comum. A Lava Jato, por exemplo, que inicialmente gozava de amplo apoio popular, acabou se tornando um campo de batalha ideológico.
O cientista político Christian Lohbauer observa que a polarização dificulta a formação de consensos e a mobilização em torno de pautas que transcendam os blocos ideológicos. Quando a discussão sobre corrupção se torna um mero reflexo da disputa entre “nós” e “eles”, a capacidade de gerar indignação genuína e ação coletiva se esvai. A energia que antes era canalizada para o combate ao desvio de recursos públicos agora é, em grande parte, consumida pelas disputas políticas cotidianas.
Essa fragmentação também se reflete na dificuldade de organizar manifestações de rua. Grupos com agendas distintas, mas com um ponto em comum na indignação com a corrupção, muitas vezes se veem incapazes de convergir em um único movimento coeso, enfraquecendo o impacto de suas reivindicações. A energia de 2013, que conseguiu agregar demandas diversas sob um guarda-chuva de insatisfação geral, hoje parece dispersa em múltiplas frentes de batalha.
A busca por novas formas de engajamento cívico e o futuro da pauta anticorrupção
Apesar do aparente declínio da mobilização de rua, a indignação com a corrupção no Brasil está longe de ter desaparecido. Paulo Kramer sugere que a sociedade brasileira ainda conserva “reservas de indignação moral” capazes de ressurgir em novas circunstâncias. Ele percebe que parcelas da “população politicamente ativa” ainda acreditam na possibilidade de reverter o quadro atual, buscando novas formas de engajamento cívico.
O desafio reside em encontrar canais e estratégias que consigam canalizar essa indignação latente de forma eficaz. A internet e as redes sociais, que foram ferramentas importantes em 2013, hoje também são palcos de desinformação e polarização, o que dificulta a organização. Novos modelos de ativismo, que combinem a pressão online com ações offline estratégicas, podem ser o caminho para revitalizar a agenda anticorrupção.
A análise do “espírito do tempo” brasileiro sugere que a sociedade está em constante busca por instituições mais transparentes e responsáveis. As lições de 2013 e os desdobramentos posteriores indicam que a luta contra a corrupção é um processo contínuo, que exige persistência, adaptação e a busca por novas formas de participação cidadã. O futuro dirá se a indignação de hoje se transformará em uma nova onda de mobilização capaz de promover mudanças estruturais duradouras no país.
A persistência da corrupção e os desafios para a confiança nas instituições
Novos escândalos como o da fraude bilionária no INSS e o caso Banco Master, que vieram à tona em um período onde a corrupção já não figura no topo das preocupações do eleitorado, demonstram que o problema estrutural persiste. A deterioração da confiança nas instituições de controle, como a Polícia Federal, o Ministério Público e o próprio Judiciário, agrava o cenário. Quando a população deixa de acreditar na capacidade dessas instituições de investigar e punir desvios, a sensação de impunidade se fortalece.
A percepção de que o sistema político é, em grande parte, autorreferencial e resistente a mudanças externas contribui para o desânimo. A complexidade do sistema jurídico brasileiro, aliada a decisões judiciais controversas, como a anulação de condenações da Lava Jato, reforça a ideia de que os poderosos encontram brechas para escapar da responsabilização. Isso mina a fé na justiça e, consequentemente, a disposição para o engajamento cívico.
A falta de transparência em alguns processos e a lentidão na apuração de casos de grande repercussão também alimentam o ceticismo. Em um país onde a indignação é um sentimento palpável, a ausência de resultados concretos e visíveis no combate à corrupção leva à apatia. A sociedade, ao se deparar com um ciclo de denúncias, investigações e, por vezes, reviravoltas judiciais, pode se sentir exaurida e desmotivada a participar ativamente.
O legado de 2013 e a busca por um novo fôlego na agenda cívica
As manifestações de junho de 2013 deixaram um legado indelével na memória coletiva do Brasil, simbolizando um momento em que a voz das ruas ecoou com força sem precedentes. Embora a energia daquele período tenha sido canalizada para diversos fins, culminando em eventos de grande impacto político, a sua força motriz original – a indignação contra a corrupção e a precariedade dos serviços públicos – parece ter perdido seu ímpeto mobilizador.
A busca por um novo fôlego para a agenda cívica, especialmente no que tange ao combate à corrupção, passa por reavaliar as estratégias e os canais de participação. A lição de 2013 é que a sociedade tem o poder de influenciar o curso político, mas para que essa influência seja sustentável, é preciso construir mecanismos de engajamento que resistam à polarização, à frustração judicial e à sensação de impotência.
A série “Brasil Decente”, à qual esta reportagem se insere, busca exatamente explorar caminhos para restabelecer as fronteiras entre os Três Poderes e restaurar a liberdade de expressão. O debate sobre como revigorar o ativismo cívico e garantir que a indignação com a corrupção se traduza em ações concretas e transformadoras permanece aberto e crucial para o futuro democrático do país.