A Estratégia do Sofrimento: Vitimismo como Módulo de Poder na Política Atual

A política contemporânea, tanto no Brasil quanto no cenário internacional, tem sido marcada por uma complexa dinâmica onde o sofrimento individual e coletivo é transformado em moeda de troca política. Figuras proeminentes, de espectros ideológicos distintos, têm explorado a narrativa de vitimização para consolidar e expandir seu poder, redefinindo a própria natureza da legitimidade e da identidade pública.

Essa estratégia discursiva, que eleva a queixa à identidade e o sofrimento a credencial, tem raízes profundas na história cultural e filosófica. Pensadores como Pascal Bruckner, René Girard e Peter Sloterdijk oferecem ferramentas analíticas para desvendar como a figura da vítima ascendeu a um patamar quase sagrado, influenciando a forma como a sociedade percebe e concede poder.

A análise dessas dinâmicas é crucial para entender as atuais disputas políticas, onde a lógica do “quem sofreu mais” frequentemente suplanta o debate de ideias e propostas. O que antes era uma questão de agência e realização, agora se volta para a passividade e a ferida como fontes de legitimidade, conforme aponta a análise de especialistas e filósofos sobre o tema.

O “Je Souffre Donc Je Suis”: A Filosofia do Vitimismo no Palco Político

A máxima “sofro, logo existo”, uma secularização do pensamento cartesiano, parece ter se tornado o lema não oficial de uma era política obcecada pela narrativa do sofrimento. Filósofos como Pascal Bruckner diagnosticaram essa tendência, cunhando o termo “vitimismo” para descrever como o sofrimento se tornou uma credencial social e política, e a queixa, um elemento definidor de identidade. Essa transformação eleva a vítima a uma figura quase sacralizada, detentora de uma autoridade moral incontestável.

Essa dinâmica não é exclusiva do Brasil. A análise de Bruckner, que rastreia as origens desse fenômeno à figura do Cristo sofredor, sugere uma secularização da veneração ao mártir. A ignomínia e o sofrimento, antes associados ao divino, migraram para o centro da esfera pública, onde a ocupação do lugar de vítima confere, paradoxalmente, um status de poder e prestígio.

Em um mundo onde os referenciais de transcendência se esvaíram, a política se tornou um dos poucos espaços de reconhecimento público inquestionável. A corrida para ocupar esse espaço, especialmente por aqueles já investidos de poder, revela a força simbólica da vitimização. A própria estrutura da política contemporânea parece incentivar essa competição por quem consegue melhor articular e apresentar sua narrativa de sofrimento.

René Girard e o Bode Expiatório: A Raiz do Ciclo Sacrificial na Política

A teoria de René Girard sobre o bode expiatório oferece uma lente poderosa para compreender a mecânica do vitimismo na política. Girard argumenta que toda cultura se organiza em torno de um mecanismo de violência social canalizada para uma vítima sacrificial. A imolação dessa vítima restaura temporariamente a coesão do grupo, criando um ciclo de violência e redenção.

O cristianismo, segundo Girard, inovou ao revelar esse mecanismo, expondo a inocência da vítima e interrompendo o ciclo sacrificial ao torná-lo visível. No entanto, um efeito imprevisto dessa revelação foi a sacralização da figura da vítima. Quem assume esse papel, mesmo que de forma secularizada, passa a ocupar um lugar de reverência e proteção, imune a críticas.

Na política, esse mecanismo se manifesta na constante busca por um “culpado” ou “inimigo” que concentre a ira social. A vítima, ao se apresentar como alvo dessa violência, ganha um capital moral que a protege e a legitima. Esse processo, muitas vezes oculto sob o véu da justiça, é fundamental para a manutenção do poder e da influência.

Peter Sloterdijk e a “Acumulação da Ira”: Da Teologia à Política

O filósofo Peter Sloterdijk, em sua obra “Ira e Tempo”, propõe uma análise ainda mais profunda, rastreando a origem da “ira” como força constitutiva das civilizações. Ele argumenta que o cristianismo, ao domesticar a ira através da transferência para Deus e a promessa de um Juízo Final, criou um “banco metafísico” onde a indignação humana era depositada.

Esse “banco da ira” funcionou por séculos, sustentando a renúncia à vingança imediata pela certeza de uma liquidação futura. Contudo, com a “morte de Deus” proclamada por Nietzsche e a consequente falência desse banco metafísico, a ira acumulada precisou encontrar novos depositários. A política, e especialmente os movimentos ideológicos do século XX, tornaram-se esses novos receptores.

Regimes como o nazismo e o stalinismo, segundo Sloterdijk, podem ser interpretados como formas consequentes de reinvestimento desse capital de ira. O marxismo e outras ideologias modernas funcionam como “bancos da ira” que captam o ressentimento difuso e o convertem em projetos históricos de vingança e retribuição, muitas vezes em escala industrial.

A Era do “Não Há Mais Juízo Final”: O Vitimismo na Sociedade Secularizada

Sem o horizonte escatológico do Juízo Final, a vítima contemporânea não pode mais esperar pela justiça divina. Ela anseia por reconhecimento e reparação no aqui e agora, seja no âmbito judicial, midiático, terapêutico ou legislativo. A “beatificação laica” substitui a canonização religiosa, com retratos de “mártires” ocupando o espaço antes reservado a santos.

O processo de santificação secular é notavelmente similar: há um postulante, testemunhos de sofrimento, uma comunidade que valida a narrativa e uma elevação final. A palavra “vítima”, antes restrita a sacrifícios animais ou ao Cristo, ampliou-se para se tornar uma categoria de identidade disputada e um passaporte para o reconhecimento social.

Séries como “Succession” ilustram essa dinâmica, onde personagens ricos e poderosos competem por quem sofreu mais com o pai, transformando a ferida em direito ao trono. A legitimidade passiva, baseada no que lhes foi feito, suplanta a legitimidade ativa, baseada em realizações. Essa lógica impede a resolução, pois a vítima que ascende ao poder necessita de uma nova perseguição para sustentar sua identidade.

Psicanálise e Teologia: A Desvalorização do Orgulho e a Ascensão da Vulnerabilidade

Peter Sloterdijk aponta a psicanálise freudiana como um reflexo intelectual dessa inversão. Ao focar no polo erótico da alma (desejo, falta, carência) e ignorar o polo timótico (orgulho, ira, coragem, desejo de justiça), a psicanálise produziu um tipo humano definido pela ausência e pela ferida, em vez da capacidade de afirmação.

Indivíduos que exibiam orgulho ou ambição eram frequentemente reclassificados como neuróticos. Essa convergência com a teologia cristã, que desde Gregório I considerava o orgulho um pecado capital, resultou em uma desconfiança generalizada em relação a qualquer energia de autoafirmação.

O vitimismo contemporâneo é herdeiro direto dessa tradição. Ele opera transformando a energia de reconhecimento e afirmação em queixa. A demanda muda de “exijo reconhecimento pelo que sou e pelo que fiz” para “exijo reconhecimento pelo que sofri”. A primeira implica agência e critérios, a segunda, passividade e imunização contra questionamentos.

O “Survivalisme” Pós-Escatológico: A Luta pela Vítima Máxima

Em “The Walking Dead”, a sociedade em colapso expõe a essência do vitimismo em um mundo sem horizonte escatológico. Sem um árbitro transcendente, os humanos disputam o título de “vítima máxima” para justificar suas próprias violências. A série se torna uma fenomenologia do “survivalisme” pós-escatológico, onde a força bruta substitui a esperança de redenção.

Sloterdijk descreveria isso como a forma projetiva da ira sem a mediação civilizatória do Estado e da religião. O que resta é uma ira bruta, cega, sem projeto, que se consome em si mesma. Surge, então, a reivindicação de um “direito à ira”, não mais regulado por critérios externos, o que legitima a violência.

O paradoxo é que, quanto mais uma sociedade oferece, menos satisfeita ela se sente. A ausência de concessões é interpretada como perseguição. Nietzsche resumiu esse mecanismo: “Sofro, logo alguém é responsável.” Nunca é acidente, sempre há um culpado a ser encontrado e uma conta a ser cobrada.

A “Justiça Distributiva” do Sofrimento: Ira como Generosidade Paradoxal

A ira, em sua forma mais elementar, possui um traço paradoxalmente generoso: o irado sente-se rico o suficiente para “presentear” o mundo com sofrimento adicional. Termos como “justiça distributiva” são usados para justificar essa ideia: quem sofre acredita que o sofrimento deve ser redistribuído de forma equânime.

Essa lógica é reconhecível em diversas formas de militância contemporânea, onde grupos privilegiados são vistos como “carentes de sofrimento” e a distribuição desse sofrimento é considerada injusta. A “plenitude” de certos grupos seria alcançada apenas com a adição da dor que lhes falta.

O problema central, portanto, não é a compaixão pelo sofrimento genuíno, mas a gramática do vitimismo que o converte em moeda de troca, a queixa em identidade e a compaixão em instrumento de poder. Essa dinâmica transforma a ira difusa em capital administrado por elites, sem prestação de contas.

O Legado de Aron e a Blindagem do Poder: Vitimismo como Horizonte Político

Raymond Aron, em “O Ópio dos Intelectuais”, já identificava esse mecanismo, descrevendo como intelectuais europeus transformaram o marxismo em uma religião secular, imune ao teste da realidade. O Gulag, por exemplo, era justificado como “desvio” ou “erro de implementação”, preservando a fé dogmática.

No Brasil atual, a gramática do vitimismo dita as regras do debate público e atua como um horizonte de inteligibilidade política, não restrito a um único campo ideológico. Parlamentares com privilégios se apresentam como vítimas de perseguição por críticos anônimos, enquanto ministros com poder de censura alegam ser alvos de campanhas orquestradas.

Em ambos os casos, quem detém poder utiliza a linguagem de quem não o tem. Criticar essa estratégia é interpretado não como uma refutação de argumento, mas como um ataque às vítimas. Essa blindagem é perfeita e eficaz, pois transforma a crítica em prova da acusação. No limite, o que importa não é quem sofre, mas quem melhor administra o sofrimento como instrumento de dominação.

O Papel do Judiciário e a Devolução da Ira à Rua

No Brasil, a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) como árbitro de disputas que deveriam pertencer ao debate democrático, decidindo sobre eleições, criminalizando discursos e operando inquéritos sem prazo definido, o colocou na posição de um “Deus-juiz”. A imparcialidade, condição essencial para a eficácia simbólica, tem sido contestada, resultando na devolução da ira ao espaço social, sem mediação.

A percepção de que decisões judiciais seguem linhas políticas identificáveis, ou que ministros agem em festas de candidatos, mina a confiança. Quando o “banco metafísico” não fecha contas com a eternidade, mas com facções, a ira depositada em nome da justiça retorna à rua, sem sublimação.

Esse cenário reativa formas de autoritarismo instrumental, onde o “estado de exceção corretivo” se perpetua. Partidos e movimentos que exploram o ressentimento populista não criam esse capital moral, mas o instrumentalizam, herdando contas bancárias secularizadas pela modernidade sem alternativas institucionais equivalentes.

A Necessidade de Discernimento: Proteção à Vítima Real, Crítica à Gramática do Poder

É fundamental distinguir entre a proteção devida à vítima real e a crítica à gramática do vitimismo. O direito penal tem a obrigação de levar a sério o sofrimento genuíno. No entanto, a conversão do sofrimento em moeda, da queixa em identidade e da compaixão em instrumento de poder é inaceitável.

A hipóпоте se levanta: por que a condição de vítima se tornou tão insuportável a ponto de buscarmos incessantemente novos perpetradores? Nossos antepassados, com a ideia de um Juízo Final, talvez estivessem mais equipados para lidar com a impotência diante da injustiça. Sem esse horizonte, a pressão por retribuição imediata sobrecarrega instituições democráticas, organizando a política em torno do ressentimento, e não da deliberação.

A busca por um “direito à ira” desregulado, sem mediação civilizatória, leva a uma violência “justificada”. A crítica a essa gramática de poder, operada por quem detém poder para garantir sua permanência, não é um ataque a vítimas, mas uma análise filosófica necessária para a saúde do debate público e da democracia.

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