O Legado Radioativo de Marie Curie no Brasil: De Rejeito a Fonte de Inovação em Medicina Nuclear
Há um século, a renomada cientista Marie Curie, acompanhada de sua filha Irène Joliot-Curie, visitou o Brasil, deixando um rastro de conhecimento e um presente singular: agulhas contendo sais de rádio-226. Originalmente destinadas ao tratamento de câncer, essas agulhas, após décadas esquecidas como rejeitos radioativos, foram recentemente enviadas aos Estados Unidos para um processo de reprocessamento inovador. O objetivo é transformá-las em um novo material, o Actínio, prometendo avanços significativos na radiofarmácia e no tratamento de doenças graves, conforme informações divulgadas pelo CDTN (Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear) da CNEN.
A doação ocorreu em 1926, durante a passagem das cientistas por Belo Horizonte, onde entregaram o material ao recém-formado Instituto do Radium, precursor do atual Hospital Borges da Costa, ligado ao Hospital das Clínicas da UFMG. As agulhas, embora um marco inicial para a radioterapia no país, careciam de registros detalhados, mas foram cruciais para o desenvolvimento da braquiterapia, técnica que aproxima fontes radioativas de tumores.
Atualmente, em um acordo de cooperação com a farmacêutica americana Niowave, o Brasil busca reverter o status de passivo ambiental dessas agulhas em um ativo científico. O material original será utilizado para produzir Actínio, um isótopo com aplicações promissoras em oncologia, com a contrapartida de treinamento para cientistas brasileiros e o retorno de doses do novo elemento para pesquisa no país.
A Histórica Visita de Marie Curie ao Brasil e a Doação das Agulhas de Rádio
A chegada de Marie Curie e sua filha Irène Joliot-Curie ao Brasil em julho de 1926 marcou um momento de grande efervescência científica e midiática. As duas laureadas com o Prêmio Nobel percorreram o país por 44 dias, participando de conferências, reunindo-se com autoridades e visitando diversas cidades, desde o Rio de Janeiro até Belo Horizonte e São Paulo. A visita culminou com a doação de um conjunto de agulhas contendo sais de rádio-226 ao Instituto do Radium em Belo Horizonte, entre os dias 16 e 18 de agosto de 1926.
Marie Curie, uma figura icônica na história da ciência, já era detentora de dois Prêmios Nobel: um de Física em 1903, compartilhado com seu marido Pierre Curie e Henri Becquerel, pelas pesquisas sobre radioatividade, e outro de Química em 1911, pela descoberta dos elementos Rádio e Polônio. Sua filha Irène, que mais tarde também seria agraciada com o Nobel de Química em 1935 (ao lado do marido, Frédéric Joliot-Curie), acompanhava a mãe em uma jornada de intercâmbio científico e diplomático.
As agulhas doadas, descritas como semelhantes a agulhas de costura e trazidas na mala pela própria Marie Curie, foram um presente valioso para a comunidade científica brasileira. Elas representaram um ponto de partida fundamental para o desenvolvimento da radioterapia no país, introduzindo a técnica da braquiterapia, também conhecida como curieterapia, no Brasil. O Instituto do Radium foi pioneiro na aplicação desse procedimento, que visava o tratamento de tumores através da proximidade de fontes radioativas ao foco do câncer.
Braquiterapia: A Técnica Pioneira Introduzida pelas Agulhas de Marie Curie
A braquiterapia, técnica que se beneficiava diretamente das agulhas de rádio doadas por Marie Curie, consiste na aplicação de radiação ionizante em curtas distâncias, diretamente no tumor ou em sua proximidade. No início do século 20, essa modalidade terapêutica era amplamente utilizada, e o Instituto do Radium em Belo Horizonte foi o primeiro no Brasil a empregar o procedimento, utilizando as agulhas de rádio como fontes radioativas.
Eduardo Baldon, médico radioterapeuta do Hospital de Clínicas da Unicamp, explica que, embora a braquiterapia ainda seja uma técnica relevante, os materiais e métodos evoluíram significativamente. “A braquiterapia, que é aquilo que Marie fez lá atrás, ainda é utilizada, porém não com os mesmos materiais”, afirma Baldon. Ele ressalta que os equipamentos modernos empregam fontes radioativas com tempo de vida mais curto, que são expostas apenas durante o tratamento, minimizando a exposição desnecessária à equipe médica e aos pacientes. No passado, as agulhas de curieterapia representavam um risco de exposição contínua, não apenas para o paciente, mas para toda a equipe envolvida no procedimento.
O rádio-226, elemento presente nas agulhas, é um emissor alfa e gama com um tempo de meia-vida de aproximadamente 1.600 anos. Seu decaimento radioativo, no entanto, pode gerar o gás radônio, altamente contaminante. Por essa razão, fontes de rádio mais antigas eram seladas para evitar vazamentos, mas a pressão interna gerada pelo radônio podia causar fissuras, representando um risco elevado de contaminação.
O Processo de Síntese do Rádio e a Descoberta dos Elementos Radioativos por Marie Curie
A produção do rádio, elemento central nas agulhas doadas por Marie Curie, é um processo complexo que remonta às pesquisas pioneiras da própria cientista. Rogério Mourão, chefe do Serviço de Gerenciamento de Rejeitos do CDTN da CNEN, explica que Madame Curie sintetizava o rádio a partir do minério de urânio, um processo que demandava dedicação e conhecimento técnico avançado para a época.
Marie Curie não apenas cunhou o termo