Álbum de figurinhas conecta argentino à história de tio-avô desaparecido na ditadura militar
Um projeto criativo com o objetivo de manter viva a memória das Mães e Avós da Praça de Maio, na Argentina, acabou proporcionando um reencontro inesperado com a própria história familiar para Ariel Cuadra. O artista gráfico desenvolveu um álbum de figurinhas para fomentar discussões sobre os direitos humanos e as lutas das mulheres que buscavam seus filhos e netos desaparecidos durante a ditadura militar argentina (1976-1983).
O que Cuadra não imaginava era que a comoção gerada pelo lançamento do álbum levaria seu pai a compartilhar uma história até então desconhecida por ele: a de seu tio-avô, Roberto Castillo, que foi detido e desapareceu em 1977.
A revelação familiar ocorreu quando o pai de Cuadra se sentou com a família após o lançamento do álbum, impulsionado pela comoção que a iniciativa gerou. A partir desse momento, a história de Roberto Castillo, um trabalhador e membro da Juventude Peronista, que foi levado de sua casa em Almirante Brown, na região metropolitana de Buenos Aires, começou a ser reconstruída, conforme informações divulgadas sobre o projeto.
A criação do álbum: um ato de memória e resistência
A ideia de criar um álbum de figurinhas surgiu em Ariel Cuadra em meados de abril, inspirado pela popularidade desses itens, especialmente em épocas de eventos esportivos como a Copa do Mundo. Ele percebeu o potencial de usar essa estética familiar e acessível para chamar a atenção para a causa das Mães e Avós da Praça de Maio, fundadas em 1977.
O objetivo principal de Cuadra era criar um objeto que pudesse gerar encontros e diálogos, especialmente entre as gerações mais jovens, sobre a importância de manter viva a memória daqueles que lutaram contra a repressão. O artista gráfico buscou uma forma lúdica e educativa de abordar um tema tão sério e doloroso.
A recepção do projeto foi entusiástica, principalmente por parte de educadores. Cuadra tem recebido mensagens de agradecimento de professores de todo o país, que planejam utilizar o álbum em atividades voltadas para os direitos humanos, a memória, a verdade e a justiça, temas centrais na luta das Mães e Avós da Praça de Maio.
Roberto Castillo: a história de um desaparecido recontada
Roberto Castillo, o tio-avô de Ariel Cuadra, tinha 40 anos quando foi levado de sua casa em Almirante Brown, na noite de 12 de janeiro de 1977. Ele era irmão da avó paterna de Cuadra e membro ativo da Juventude Peronista.
Segundo o relato de seu filho, Martín, que tinha 8 anos na época, um grupo de soldados armados invadiu a residência. Inicialmente, os militares procuravam um vizinho ativista. No entanto, ao ouvirem o sobrenome Castillo, retornaram e arrombaram a porta da casa.
O relato de Martín descreve o terror daquele momento: a destruição da casa, a violência contra a cachorra da família, Niki, e a calma aparente de seu pai, que foi algemado e levado sob a promessa de ser liberado em 24 horas. No entanto, Roberto Castillo nunca mais foi visto por sua família.
A descoberta dos restos mortais e o reconhecimento
A família de Roberto Castillo viveu anos de incerteza e dor. Somente em 2009, mais de três décadas após seu desaparecimento, seus restos mortais foram encontrados. Eles estavam enterrados sem identificação no Cemitário de Avellaneda, a cerca de 15 km de sua residência.
A exumação e identificação dos restos mortais trouxeram um fechamento, ainda que doloroso, para a família. Em 2012, como forma de reconhecimento e para perpetuar sua memória, uma rua em Almirante Brown passou a levar o nome de Roberto Castillo, honrando sua vida e sua luta.
A partir da criação do álbum, Cuadra afirma que a família pôde começar a construir e a entender sua própria história, conectando-se com as vítimas da repressão e com a luta por justiça. Ele espera que essa iniciativa possa inspirar outras famílias a buscarem e compartilharem suas próprias narrativas.
O poder da comunicação visual: o lenço branco como símbolo
A utilização de elementos visuais marcantes para comunicar mensagens sociais e políticas não é novidade. A estética do álbum de figurinhas, por exemplo, já foi empregada por ONGs e grupos sociais em outras ocasiões para chamar a atenção para diversas causas.
Em 2022, a ONG SP Invisível utilizou lambe-lambes de pessoas em situação de rua em São Paulo, e mais recentemente, no México, familiares de desaparecidos produziram cartazes de busca no formato de figurinhas, inspirados pela Copa do Mundo.
As Mães e Avós da Praça de Maio são, em si, um exemplo notável de sucesso na comunicação visual. O icônico lenço branco que as identifica transcendeu o contexto das marchas e se tornou um símbolo nacional, presente em diversos objetos e manifestações culturais, como ímãs, camisetas e grafites urbanos.
Originalmente, o lenço branco remetia às fraldas de pano dos filhos e netos desaparecidos e servia como um sinal de identificação entre as ativistas em um período de clandestinidade. Antes de adotarem o lenço, elas utilizavam um prego preso à lapela do casaco.
A luta incessante na Praça de Maio
O movimento das Mães da Praça de Maio começou com encontros discretos nos bancos da Praça de Maio. No entanto, a polícia frequentemente as expulsava sob o argumento de que o estado de sítio proibia reuniões públicas.
Para contornar a proibição, as mulheres passaram a marchar pela praça em pequenos grupos, de braços dados, mantendo a tradição de protesto e busca por informações. Essa prática, que se tornou um marco da resistência argentina, nunca parou, com exceção do período da pandemia.
Desde 30 de abril de 1977, elas se reúnem todas as quintas-feiras, às 15h30, na Praça de Maio, acompanhadas por ativistas. Em março deste ano, completaram a impressionante marca de 2.500 marchas consecutivas, demonstrando uma resiliência e determinação admiráveis.
“A Argentina abraça esse símbolo do lenço e se apropria dele”, afirma Cuadra. “Pode-se dizer que é um idioma universal, porque é possível reconhecer sem precisar entender qualquer palavra e até mesmo sem conseguir ler.” Essa universalidade do símbolo reforça o poder da comunicação visual em transcender barreiras.
Organizações de apoio e o futuro do projeto
Além das Mães e Avós da Praça de Maio, outras organizações surgiram para dar continuidade à luta por justiça e memória. Desde 1995, existe um grupo que reúne os filhos dos desaparecidos, conhecido como Hijos (sigla em espanhol para Filhos e Filhas pela Identidade e pela Justiça e contra o Esquecimento e o Silêncio).
Mais recentemente, em 2019, foi fundado um grupo para reunir os netos dos desaparecidos. O projeto do álbum de figurinhas de Ariel Cuadra recebeu o apoio dos Hijos, que disponibilizaram o material em formato PDF para impressão gratuita.
Giselle Tepper, integrante dos Hijos, expressou entusiasmo com a iniciativa: “Achamos ótimo ter uma desculpa tão popular e massiva como a Copa do Mundo para continuar contando a história da luta das mães e avós”. Ela mencionou planos para expandir o projeto digitalmente e incluir mais mulheres.
O álbum: um registro detalhado da luta
O álbum de figurinhas criado por Cuadra contém 20 figurinhas, que devem ser impressas em papel adesivo e recortadas. Destas, 16 são dedicadas às Mães e Avós, enquanto quatro são reservadas para fotos históricas das marchas.
Cada figurinha das ativistas possui uma descrição na parte inferior, indicando os nomes de seus filhos ou netos desaparecidos. Além disso, a descrição informa o status de cada uma: se foram sequestradas, se ainda estão “em luta” ou se já faleceram, indo para a “eternidade”. Atualmente, 11 integrantes do movimento já faleceram.
A presidente das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, de 95 anos, ressaltou a importância da nova geração na continuidade da luta. Em uma declaração recente ao jornal Página 12, ela afirmou: “Eu já estou muito idosa. Já estou praticamente me despedindo da vida. É preciso continuar buscando os que faltam.” A sabedoria dos netos, agora mais atuantes, é vista como fundamental para o futuro do movimento.
O legado das Mães e Avós e a busca por justiça
O álbum de figurinhas de Ariel Cuadra não é apenas uma homenagem, mas uma ferramenta poderosa para a educação e a conscientização. Ao transformar a história de repressão em um objeto acessível e envolvente, ele contribui para que as novas gerações se conectem com o passado e compreendam a importância da luta por direitos humanos.
A iniciativa de Cuadra demonstra como a arte e a criatividade podem ser aliadas na preservação da memória e na promoção da justiça social. A descoberta de que um parente próximo foi vítima da ditadura reforça o impacto pessoal e coletivo desses eventos históricos.
A continuidade da luta pelas Mães, Avós, Filhos e Netos da Praça de Maio é um testemunho da força da memória e da persistência na busca por verdade e reparação. O álbum de figurinhas se soma a esse legado, garantindo que as histórias daqueles que foram silenciados continuem a ser contadas e lembradas.
A importância da memória para o presente e o futuro
A ditadura militar argentina deixou cicatrizes profundas na sociedade, e a busca por justiça e memória é um processo contínuo. O trabalho de organizações como as Mães e Avós da Praça de Maio, e iniciativas como o álbum de figurinhas de Ariel Cuadra, são fundamentais para que os erros do passado não se repitam.
Ao trazer à tona histórias individuais como a de Roberto Castillo, o álbum humaniza as estatísticas da repressão e conecta o público com a dor e a resiliência das famílias afetadas. A iniciativa de Cuadra, que buscava fomentar conversas, acabou por iniciar uma conversa importante dentro de sua própria família.
O sucesso do projeto em engajar educadores e a continuidade planejada pelos Hijos indicam que a memória da ditadura argentina continuará a ser um tema relevante e a ser explorado de formas inovadoras, garantindo que a luta por direitos humanos permaneça viva e presente na sociedade.