Alejandro Betancourt: O controverso bilionário venezuelano no centro do acordo petrolífero EUA-Venezuela
Um acordo petrolífero de grande vulto entre os Estados Unidos e a Venezuela, anunciado como “o maior da história” pelo presidente Donald Trump, tem gerado controvérsias e um escrutínio crescente à medida que mais detalhes vêm à tona.
O ponto central das discussões recai sobre a empresa escolhida para a exploração de 17 jazidas petrolíferas, que detêm 21,5% das reservas comprovadas da Venezuela. Em vez de gigantes globais do setor, a North American Blue Energy Partners (Nabep), registrada em Barbados, surge como protagonista.
À frente da Nabep está Alejandro Betancourt López, um empresário venezuelano cujos negócios com o governo de seu país, desde a era Hugo Chávez, têm sido marcados por manchetes e investigações judiciais em múltiplos países nos últimos 15 anos, conforme apurado por diversas fontes jornalísticas.
O Acordo Petrolífero e o Papel da Nabep
A transação, que prevê a transferência do controle majoritário de 17 importantes jazidas de petróleo para os Estados Unidos, tem sido descrita por Donald Trump como um marco histórico. No entanto, a escolha da Nabep como parceira principal para a exploração dessas reservas, que abrigam cerca de 65 bilhões de barris, destoou das expectativas, que apontavam para a participação de empresas de renome internacional como ExxonMobil, ConocoPhillips ou BP.
A Nabep, uma empresa com pouca informação pública disponível e sem presença consolidada em outros mercados petroleiros, levantou imediata atenção devido à figura de seu diretor, Alejandro Betancourt López. Em comunicado oficial, Betancourt expressou otimismo, declarando que a transação “liberará o potencial” dos vastos recursos naturais venezuelanos, beneficiando tanto o país sul-americano quanto os Estados Unidos. Ele também anunciou que o governo americano deterá 35% das ações da Nabep.
Defesa Oficial e Histórico de Betancourt
Autoridades americanas, em condição de anonimato, defenderam a escolha de Betancourt, com uma fonte citada pelo portal Axios afirmando que o empresário teria sido crucial para a permanência de Nicolás Maduro no poder. O Secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, em entrevista coletiva em Caracas, reforçou a posição, destacando Betancourt como o segundo maior produtor privado de petróleo da Venezuela, atrás apenas da Chevron.
Wright enfatizou que a seleção de um parceiro de negócios se baseia na capacidade de entregar resultados, e a Nabep, segundo ele, demonstrou “uma trajetória de grande sucesso na produção de grandes volumes de petróleo na Venezuela”. A presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, também endossou a escolha, ressaltando que a empresa de Betancourt “produziu na Venezuela, mesmo com sanções muito rígidas” e que o empresário é venezuelano. Ela minimizou as acusações de corrupção, afirmando que ele foi absolvido na Venezuela e que não há processos contra ele nos Estados Unidos.
Origens e o Apelido “Bolichicos”
Leopoldo Alejandro Betancourt López nasceu em Caracas em 1980, vindo de uma família de classe média. Formado em Economia pela Universidade de Suffolk, nos Estados Unidos, ele construiu sua fortuna através do fundo O’Hara Financial, estimado em cerca de US$ 2,6 bilhões.
Jornalistas venezuelanos, no entanto, apontam que suas conexões iniciais foram estabelecidas no colégio religioso Instituto Cumbres de Caracas. Lá, ele teria se aproximado de futuros sócios, como Javier Alvarado Pardi, cujo pai ocupou posições de destaque na Eletricidade de Caracas e na PDVSA durante o governo de Hugo Chávez. Essa rede de contatos teria sido fundamental para que, em 2009, a empresa de engenharia Derwick Associates, fundada por Betancourt e um primo, recebesse 12 contratos milionários do governo venezuelano para a construção de usinas elétricas, totalizando US$ 5 bilhões, sem licitação e sem experiência prévia no setor.
O sucesso financeiro rápido de Betancourt e seus associados na Venezuela, na virada da década de 2010, rendeu-lhes o apelido de “bolichicos”, uma junção de “bolivariano” e “chicos” (jovens). O termo, cunhado pelo jornalista Juan Carlos Zapata, designava jovens empresários que prosperavam sob o governo bolivariano. O advogado de Betancourt rejeita a denominação, classificando-a como um rótulo pejorativo criado pela imprensa.
Investigações e Controvérsias no Setor Elétrico
A Derwick Associates garantiu ter cumprido todos os contratos de eletrificação. Contudo, organizações de combate à corrupção, como Transparência Venezuela e o OCCRP, apontam que muitos projetos não foram concluídos ou foram executados de forma inadequada, contribuindo para a persistência de apagões elétricos no país. Um relatório de 2018 da Transparência Venezuela revelou que 11 projetos da Derwick, orçados em US$ 2,1 bilhões, tiveram um custo final 138% superior ao previsto, com desembolsos significativos do governo venezuelano.
Apesar das críticas no setor elétrico, as autoridades venezuelanas permitiram que a Derwick expandisse suas operações para o setor petrolífero, através da associação estratégica Petrozamora, no lago de Maracaibo.
Expansão Internacional e Problemas Legais
O império de Betancourt não se limitou à Venezuela. Em meados da década de 2010, ele iniciou um processo de internacionalização, adquirindo participação na empresa espanhola de óculos de sol Hawkers, tornando-se presidente e sócio majoritário em 2016. Paralelamente, adquiriu entidades bancárias na Suíça e na África. Atualmente, seu conglomerado empresarial abrange cerca de cinquenta companhias em 16 países.
Durante sua expansão, Betancourt manteve um perfil discreto, evitando redes sociais e concedendo poucas entrevistas. No entanto, as suspeitas sobre seus negócios aumentaram. Em 2013, o ex-embaixador dos EUA na Venezuela, Otto Reich, entrou com uma ação judicial nos Estados Unidos contra Betancourt e dois sócios por suposto pagamento de propinas a funcionários públicos venezuelanos para obtenção de contratos. A ação foi rejeitada cinco anos depois, mas não encerrou seus problemas legais.
No final da década passada, autoridades judiciais da Espanha, Suíça, Andorra e Estados Unidos abriram investigações sobre a suposta participação de Betancourt e outros “bolichicos” em esquemas de corrupção ligados à PDVSA. Em 2015, Betancourt foi detido duas vezes pela polícia britânica em Londres. Pouco tempo depois, autoridades espanholas cumpriram um mandado de busca e apreensão em seu castelo em Toledo, como parte de uma investigação suíça sobre lavagem de dinheiro. O advogado de Betancourt contestou as ações, alegando que se tratavam de “ações fabricadas” contra um grupo de “jovens empresários de muito sucesso”.
Os Motivos de Washington para a Parceria
A escolha de Betancourt como parceiro pelos Estados Unidos, apesar de seu histórico controverso, foi justificada por Marco Rubio, Secretário de Estado americano, em entrevista ao jornalista venezuelano Sergio Novelli, por três motivos principais.
Primeiro, o histórico de Betancourt em produzir petróleo. Embora a Nabep produza cerca de 180 mil barris diários, um número menor que os mais de 200 mil da Chevron, especialistas ressaltam a necessidade de cautela na análise desses dados, com alguns apontando que Betancourt agregou poços de diferentes empreendimentos para inflar suas estatísticas de produção.
Segundo, Rubio destacou que “não existia nenhuma investigação contra ele no nosso sistema”. O advogado de Betancourt confirmou que o Departamento de Justiça dos EUA investigou a fundo e não apresentou acusações formais contra o empresário. No entanto, reportagens indicam que Betancourt é mencionado em investigações relacionadas à “Operação Money Flight”, um esquema de desvio de US$ 1,2 bilhão da PDVSA entre 2014 e 2018, onde seu primo Francisco Convit figura como acusado.
O terceiro motivo apontado por Rubio foi o apoio de Betancourt à oposição venezuelana, em especial durante a liderança de Juan Guaidó, o que teria gerado atritos com Nicolás Maduro. Ao contrário de outros que prosperaram sob o chavismo, Betancourt e seus associados teriam visto uma oportunidade de negócio, sem necessariamente aderir à ideologia do movimento.
Conexões Políticas e Intermediação
As conexões políticas de Betancourt, que incluíam convites ao irmão de Guaidó e aproximação com figuras como Mauricio Claver-Carone e Rudy Giuliani, teriam facilitado sua aproximação com autoridades americanas durante o primeiro mandato de Donald Trump. Ele teria se envolvido no movimento para depor Maduro em 30 de abril de 2019, o que, segundo relatos, levou a represálias por parte de Maduro, afastando-o do setor petrolífero e forçando-o a viver entre Madri e Londres.
Em 2022, a proteção de Betancourt na Venezuela foi abalada quando o então ministro do Petróleo, Tareck El Aissami, o acusou de participar de um esquema de desvio de US$ 4 bilhões da PDVSA. Curiosamente, El Aissami foi preso meses depois por acusações de corrupção.
Os contatos de Alejandro Betancourt com os Estados Unidos teriam sido cruciais para mitigar a pressão judicial que sofria na Suíça e na Espanha. Em 2018, autoridades americanas teriam solicitado à Suíça o arquivamento de um pedido de extradição de Betancourt, que foi atendido. Um tribunal em Londres suspendeu a proibição de saída do país imposta ao empresário, com o argumento de que a Suíça não apresentou provas suficientes para sustentar o pedido de extradição.
A participação de Betancourt como elo entre Washington e Caracas teria lhe rendido pontos valiosos junto à Casa Branca. Segundo o portal Axios, Betancourt teria conversado com a então vice-presidente Delcy Rodríguez nos minutos seguintes a uma operação militar que culminou na captura de Maduro e sua esposa, convencendo-a a dialogar com Marco Rubio. Seu advogado confirmou que Betancourt atuou como “intermediário, não teve nada a ver com a saída de Maduro, mas, como tinha a confiança de todos, passou a ser intermediário”.