Evangélicos se Tornam Pilar da Direita Conservadora em Santa Catarina com Crescimento e Organização
O cenário político de Santa Catarina vive uma transformação significativa, impulsionada pelo crescimento e pela crescente organização do eleitorado evangélico. Este segmento, cada vez mais próximo de candidaturas de direita por afinidade em pautas de costumes, demonstra um alinhamento que tende a se consolidar nas próximas eleições, espelhando uma tendência nacional em estados de perfil conservador.
A convergência é vista como uma resposta a discursos políticos que, segundo lideranças religiosas, confrontam a família e os valores cristãos. Essa postura mais assertiva tem levado a uma maior visibilidade política, com representantes evangélicos ocupando espaços e defendendo bandeiras alinhadas à direita conservadora, conforme aponta o presidente do Conselho de Pastores de Santa Catarina (Copasc), Leonardo Aluísio.
O impacto desse movimento já é perceptível na representação política do estado. Nove dos dezesseis deputados catarinenses integram a bancada evangélica no Congresso Nacional, e diversos prefeitos eleitos também professam a fé evangélica e compartilham dos mesmos valores conservadores, evidenciando a força deste eleitorado. Essas informações foram divulgadas com base em análises e dados compilados a partir de declarações de lideranças religiosas e pesquisas de opinião.
Crescimento Populacional Evangélico em Santa Catarina
Os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam um crescimento impressionante do segmento evangélico em Santa Catarina, com um aumento de 32% desde 2010. Atualmente, o estado abriga cerca de 1,6 milhão de evangélicos. Em contrapartida, a população católica, embora ainda majoritária com 4,3 milhões de fiéis (64,3% do total), viu sua representatividade diminuir em comparação com os 73,5% registrados em 2010. Isso significa que as igrejas evangélicas ganharam aproximadamente 500 mil novos membros em pouco mais de uma década.
O pastor Leonardo Aluísio atribui parte desse crescimento à atuação das comunidades religiosas, que oferecem ações de apoio, acolhimento, recuperação pessoal e reinserção social. Essas iniciativas, segundo ele, ampliam a presença das igrejas no cotidiano das comunidades e fortalecem os laços entre os fiéis e suas instituições religiosas.
Uma pesquisa eleitoral realizada pela AtlasIntel em março reforça essa dinâmica, indicando que, embora os católicos ainda sejam a maioria em Santa Catarina (56%), o eleitorado evangélico demonstra uma inclinação significativamente maior a apoiar candidatos de direita. Enquanto 46,3% dos católicos preferem candidatos alinhados a esse espectro, o índice entre os evangélicos atinge 66,6%. A pesquisa ouviu 1.280 catarinenses e possui margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%, registrada no TSE sob o nº SC-05257/2026.
O Papel Decisivo nas Eleições Recentes
O peso do eleitorado evangélico em Santa Catarina ficou evidenciado nas eleições de 2022 e 2024. Em 2022, Jair Bolsonaro (PL) obteve 69,27% dos votos no estado, e Jorginho Mello (PL), seu aliado, foi eleito governador com 70,69% dos votos no segundo turno, a maior porcentagem entre os governadores eleitos naquele ano. Essa forte votação em candidatos alinhados à direita conservadora é frequentemente associada ao apoio da comunidade evangélica.
Em 2024, o cenário municipal também refletiu essa tendência. O Partido Liberal (PL) conquistou 90 prefeituras catarinenses, enquanto legendas de centro, como o MDB (70 prefeituras), PP (53) e PSD (41), também obtiveram expressivos resultados, indicando um cenário político plural, mas com a direita conservadora demonstrando forte presença.
Para o cientista político Adriano Cerqueira, os resultados eleitorais em Santa Catarina estão diretamente ligados ao peso do eleitorado evangélico. Ele avalia que a prioridade de valores como família e liberdade individual por parte desse eleitorado orienta a agenda conservadora, influenciando significativamente as escolhas nas urnas.
A Frente Parlamentar Evangélica: Um Marco na Alesc
Em 2023, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) deu um passo importante com a instalação inédita da Frente Parlamentar Evangélica, contando com seis deputados estaduais. Este número representa um avanço considerável, uma vez que, durante vários mandatos anteriores, apenas três parlamentares se declaravam evangélicos. O pastor Leonardo Aluísio destaca que, além dos membros declarados, há outros parlamentares que pertencem ao segmento, mesmo que não tenham sido eleitos com essa bandeira explícita.
A criação da frente parlamentar sinaliza uma maior organização e articulação política do segmento evangélico no âmbito estadual. A expectativa é que essa bancada fortaleça a defesa de pautas relacionadas aos valores cristãos e familiares no legislativo catarinense, buscando maior influência na formulação de políticas públicas e na aprovação de leis.
A presença crescente de representantes evangélicos na Alesc e no Congresso Nacional demonstra a consolidação do eleitorado como um bloco político com capacidade de eleger e influenciar parlamentares. Essa articulação política é um fator chave para o fortalecimento da direita conservadora no estado.
Diferenças Históricas: Católicos e Evangélicos na Política Brasileira
A dinâmica política entre católicos e evangélicos no Brasil apresenta distinções históricas importantes, que ajudam a compreender o atual alinhamento predominante de cada grupo. O cientista político Mário Lepre explica que, historicamente, o segmento católico no Brasil viu o avanço de correntes como a Teologia da Libertação, historicamente associada a pautas sociais e ao espectro da esquerda.
Em contraste, o meio evangélico, segundo Lepre, tem demonstrado uma coesão de valores que impulsiona um discurso mais alinhado ao campo conservador. Essa convergência de princípios, embora não represente unanimidade, é uma tendência predominante que aproxima o grupo evangélico de posições políticas de direita. Santa Catarina, com sua forte presença evangélica e alinhamento conservador, é um exemplo notório dessa coesão.
Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel), em parceria com o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), corrobora essa percepção em âmbito nacional. O levantamento aponta que 52% dos evangélicos no Brasil se declaram de direita, enquanto apenas 18% se identificam com a esquerda. Na população geral, os números são 34% à direita e 28% à esquerda, evidenciando a maior inclinação conservadora do eleitorado evangélico.
Pautas de Costumes e o Eleitorado Evangélico
O alinhamento do eleitorado evangélico com a direita conservadora em Santa Catarina é fortemente influenciado por pautas de costumes. Temas como a defesa da família tradicional, a liberdade religiosa, a oposição à ideologia de gênero nas escolas e questões relacionadas à moralidade são centrais para esse grupo e encontram maior ressonância em candidaturas de direita.
A percepção de que a direita conservadora é a principal defensora desses valores leva muitos evangélicos a direcionarem seu voto para candidatos que professam essas mesmas crenças ou que se comprometem a defender essas pautas. Essa afinidade em temas morais e comportamentais cria um forte vínculo entre o eleitorado evangélico e o espectro político conservador.
O pastor Leonardo Aluísio reforça que o posicionamento das lideranças evangélicas é claro em relação a tudo aquilo que discordam, especialmente quando percebem ataques aos valores cristãos. Essa clareza de posicionamento, segundo ele, torna a postura política do segmento mais visível e enquadrada no espectro da direita.
O Futuro Político: Consolidação e Influência em 2026
O crescimento contínuo e a organização do eleitorado evangélico em Santa Catarina apontam para uma influência ainda maior nas próximas eleições, incluindo o pleito de 2026. A consolidação desse bloco político como um eleitorado fiel a candidaturas conservadoras pode ser um fator decisivo para o resultado de eleições em todos os níveis.
A capacidade de mobilização e a forte identidade religiosa do segmento evangélico conferem a ele um poder significativo no cenário político. A tendência é que os partidos e candidatos busquem cada vez mais dialogar e se alinhar com as demandas e valores defendidos por essa comunidade para garantir apoio eleitoral.
O cientista político Adriano Cerqueira prevê que o eleitorado evangélico continuará a ser um componente crucial na definição de resultados eleitorais em Santa Catarina. A valorização de temas como família e liberdade individual por esse grupo tende a manter a agenda conservadora em evidência, moldando o debate político e as estratégias partidárias no estado.
Análise Comparativa: Catolicismo e Protestantismo na Política
A análise da relação entre religião e política no Brasil revela trajetórias distintas para o catolicismo e o protestantismo. Enquanto a Teologia da Libertação influenciou uma vertente mais progressista dentro do catolicismo, o protestantismo, especialmente o evangélico, tem se consolidado majoritariamente no campo conservador.
Essa diferença histórica e teológica contribui para o atual panorama político, onde o eleitorado evangélico se mostra mais homogêneo em suas convicções de direita. A ênfase em valores familiares e morais no discurso evangélico ressoa fortemente com a agenda conservadora, criando uma base sólida de apoio.
O cientista político Mário Lepre destaca que, embora não haja unanimidade, a tendência predominante entre os evangélicos é o alinhamento com a direita. Santa Catarina, com sua expressiva população evangélica e seu histórico de apoio a candidatos conservadores, serve como um exemplo emblemático dessa dinâmica, demonstrando como a fé e a política se entrelaçam para moldar o destino eleitoral do estado.
O Impacto das Ações Comunitárias na Fidelidade Religiosa e Política
O fortalecimento da presença evangélica em Santa Catarina não se dá apenas pela pregação religiosa, mas também pela intensa atuação comunitária. As igrejas têm expandido suas atividades para além do templo, oferecendo suporte em áreas como assistência social, educação e recuperação de dependentes químicos. Essas ações criam laços de fidelidade e gratidão entre os fiéis e suas comunidades religiosas.
Essa forte conexão comunitária se reflete na esfera política. Quando as lideranças religiosas se posicionam em defesa de pautas específicas, o eleitorado tende a seguir essa orientação, visto que a igreja se tornou um ponto de referência não apenas espiritual, mas também social e, em muitos casos, de apoio prático.
O pastor Leonardo Aluísio enfatiza que essas iniciativas ampliam a presença das igrejas no cotidiano das comunidades, solidificando a confiança e a influência que elas exercem. Essa influência, por sua vez, é canalizada para o apoio a candidaturas e partidos que compartilham dos mesmos valores, perpetuando o fortalecimento da direita conservadora em Santa Catarina.
A Busca por Representatividade e a Bancada Evangélica
O aumento no número de representantes evangélicos em cargos eletivos, tanto no Congresso Nacional quanto na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, reflete uma busca por maior representatividade e pela defesa de seus interesses. A consolidação da bancada evangélica é vista como fundamental para dar voz a esse segmento e garantir que suas pautas sejam consideradas no processo legislativo.
A instalação da Frente Parlamentar Evangélica na Alesc é um marco nesse sentido, permitindo uma articulação mais efetiva entre os parlamentares que professam a mesma fé e compartilham de valores semelhantes. Essa organização interna facilita a proposição de leis, a fiscalização do poder público e a negociação política.
O crescimento da representatividade evangélica é um indicativo claro da força política que este grupo adquiriu. A tendência é que essa bancada continue a crescer e a influenciar cada vez mais as decisões políticas em Santa Catarina, consolidando o papel do eleitorado evangélico como um ator central no fortalecimento da direita conservadora no estado.
Perspectivas Futuras: O Eleitorado Evangélico como Eleitorado Estratégico
Diante do cenário de crescimento e organização, o eleitorado evangélico se consolida como um grupo estratégico para qualquer projeto político em Santa Catarina. A afinidade com a direita conservadora, aliada à forte identidade religiosa e à capacidade de mobilização, confere a este segmento um poder de barganha e influência considerável.
As próximas eleições, a partir de 2026, certamente terão o eleitorado evangélico como um dos focos principais de disputa e articulação política. A forma como os diferentes partidos e candidatos irão se posicionar em relação às pautas defendidas por esse grupo determinará, em grande medida, o sucesso de suas campanhas.
A tendência de fortalecimento da direita conservadora, impulsionada pelo avanço evangélico, parece ser um movimento duradouro em Santa Catarina, com potencial para moldar o futuro político do estado e reforçar a influência desse segmento religioso na esfera pública brasileira.