BBC revela avanço israelense em área libanesa devastada, com demolições persistentes e novas bases militares
Uma equipe da BBC teve acesso a uma região desolada no sul do Líbano, próxima à fronteira com Israel, onde a paisagem outrora pitoresca foi transformada em um cenário de destruição. Plantações abandonadas e um número incontável de edifícios reduzidos a escombros por ataques aéreos israelenses marcam a área, que agora se encontra deserta e sob controle militar israelense, apesar de um cessar-fogo anunciado em junho.
A incursão da BBC ocorreu em meio a uma missão humanitária da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil), uma das poucas entidades autorizadas a transitar pela zona ocupada. O relato detalha a devastação em vilarejos inteiros, semelhante ao que foi observado em Gaza, com ataques e demolições prosseguindo mesmo após o acordo de trégua. A presença israelense é marcada por bandeiras nacionais e a proibição de acesso sem autorização.
Esta região, principal reduto da comunidade xiita e base de apoio do Hezbollah, tem sido palco de invasões israelenses em guerras anteriores. A mais recente, iniciada em março, seguiu-se a um ataque do Hezbollah contra Israel após a morte do líder supremo do Irã. As informações foram divulgadas pela BBC.
Território Libanês Ocupado: Um Cenário de Devastação e Controle Israelense
A estrada costeira no sul do Líbano, que antes oferecia vistas deslumbrantes do Mediterrâneo, hoje é um testemunho da guerra. A região, predominantemente habitada pela comunidade muçulmana xiita, um importante eleitorado do Hezbollah, está marcada pela desolação. Postos de controle do Exército libanês, como o visto perto de Naqoura, representam o último vestígio da soberania estatal antes da entrada em território sob controle israelense. Soldados libaneses permanecem atrás de barreiras, mas a movimentação na estrada é inexistente, com dezenas de bandeiras israelenses sinalizando o início da área ocupada, onde o acesso é estritamente controlado por Israel.
Nas últimas duas décadas, o Exército israelense já invadiu esta área em três ocasiões distintas, em meio a conflitos contra o Hezbollah. A mais recente invasão teve início em março, como resposta a disparos de foguetes do Hezbollah contra Israel, desencadeados após o assassinato do líder supremo iraniano, no contexto da guerra contra o Irã. A BBC acompanhou uma missão da Unifil que permitiu o acesso a essa zona, onde Israel implementou táticas de arrasamento de vilarejos, com ataques aéreos e demolições que persistiram mesmo após o anúncio do cessar-fogo em junho.
Missão Humanitária Revela o Impacto do Conflito e o Controle Israelense
Uma equipe da BBC integrou um comboio humanitário da Unifil, liderado por militares finlandeses, que escoltava civis em deslocamento entre vilarejos cristãos próximos à fronteira. Essas comunidades, de alguma forma, escaparam da destruição direta dos ataques e da invasão israelense, mas se viram isoladas do restante do Líbano devido à ocupação das áreas circundantes. A permissão para a presença da BBC foi concedida por meio de um acordo de coordenação entre Israel e as Nações Unidas, visando prevenir incidentes.
A faixa de território atualmente controlada por Israel abrange aproximadamente 5% do território libanês, com avanços que chegam a 10 quilômetros em alguns pontos a partir da fronteira. Ao longo do muro que divide os dois países, observou-se a construção de estradas de serviço por Israel após a invasão, intensa atividade de soldados israelenses e a ocupação de edifícios residenciais, alguns protegidos com redes contra drones explosivos do Hezbollah. Drones de vigilância israelenses e explosões distantes, possivelmente de demolições, completam o cenário sombrio.
Israel Planeja Ocupação Prolongada e Criação de “Zona de Segurança”
O Ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, declarou durante uma visita ao sul do Líbano ocupado no mês passado, ter instruído as forças armadas a tomarem “todas as medidas necessárias para se preparar para permanecer na região por um longo período”. Essa declaração sinaliza a intenção israelense de estabelecer uma “zona de segurança” com o objetivo de proteger as comunidades do norte de Israel contra ataques de foguetes e drones do Hezbollah, bem como prevenir uma possível invasão terrestre.
De acordo com a Unifil, o Exército israelense instalou quatro novas bases nas áreas invadidas, elevando o número total para nove. Essa expansão se soma às cinco bases que já haviam sido mantidas por Israel após a invasão anterior em 2024, em desacordo com o acordo que encerrou aquele conflito. A porta-voz da Unifil, Kandice Ardiel, observou que Israel tem “consolidado e reforçado suas posições, construído estruturas de proteção e realizado outras obras de engenharia”. Ela também relatou a presença de civis israelenses envolvidos em demolições e obras de engenharia em apoio às operações militares.
Crimes de Guerra e o Impacto Humanitário da Destruição de Infraestrutura
Organizações de direitos humanos alertam que as ações de Israel no sul do Líbano, incluindo a destruição deliberada de infraestrutura civil, podem configurar crimes de guerra. Centenas de milhares de libaneses foram forçados a deixar suas casas, vivendo sob a incerteza de quando, ou se, poderão retornar. O Exército israelense, em resposta a questionamentos da BBC, afirmou que os edifícios destruídos eram utilizados pelo Hezbollah para fins militares e que suas operações respeitam o direito internacional. No entanto, não forneceram respostas a perguntas específicas sobre as ações nas áreas ocupadas.
A situação humanitária agrava-se com a destruição de moradias e infraestrutura, deixando a população local em situação de vulnerabilidade extrema. A falta de clareza sobre as intenções de Israel e a persistência das demolições alimentam o temor de um deslocamento permanente de populações e a impossibilidade de reconstrução em curto ou médio prazo.
Cessar-Fogo Desrespeitado: Violações e Justificativas de Israel
Em junho, um acordo preliminar entre os Estados Unidos e o Irã visava encerrar o conflito entre os dois países e, consequentemente, a violência no Líbano. Contudo, segundo um integrante da inteligência libanesa ouvido pela BBC, o Exército libanês registrou mais de 5.000 violações do acordo por parte de Israel desde então, incluindo ataques aéreos, com drones, bombardeios e incursões diárias de soldados israelenses além da Linha Amarela. Semelhante ao que ocorre em Gaza, Israel justifica alguns de seus ataques no Líbano como operações contra ameaças imediatas, mas a natureza e a urgência dessas ameaças frequentemente permanecem obscuras.
O Hezbollah, classificado como organização terrorista por diversos países, tem evitado atacar Israel desde o cessar-fogo, mas realizou ataques contra tropas israelenses em território libanês. O integrante da inteligência libanesa descreveu a situação como uma “expansão da presença israelense”, com incêndios de áreas e demolições de casas, indicando que Israel busca impedir o retorno da população aos vilarejos ocupados, não apenas combater o Hezbollah.
O Impasse nas Negociações e a Perspectiva de um Conflito Prolongado
Israel condiciona sua retirada do Líbano ao desarmamento do Hezbollah, um objetivo que o governo libanês considera inatingível sem o consentimento do próprio grupo. Apesar das perdas em conflitos recentes, o Hezbollah mantém uma força militar considerável, segundo analistas. Negociações diretas entre Israel e Líbano, mediadas pelos EUA, propuseram a criação de “zonas-piloto” onde Israel se retiraria e o Exército libanês assumiria o controle, com verificação do desarmamento do Hezbollah. No entanto, o Hezbollah rejeita a iniciativa, considerando-a uma “rendição com humilhação” e afirmando que qualquer discussão sobre suas armas só ocorrerá após a retirada completa de Israel.
O Exército libanês, por sua vez, alega não poder usar a força contra o Hezbollah sem gerar um confronto interno. A falta de progresso no plano e a ausência de expectativas de mudanças significativas antes das eleições israelenses em outubro levam a um cenário de estagnação. Um diplomata europeu, acompanhando a situação, comparou o cenário ao de Gaza, com Israel se entrincheirando e com a intenção aparente de permanecer na região por tempo indeterminado, indicando um potencial para um conflito prolongado e uma crise humanitária contínua.
A Realidade em Campo: Drones, Demolições e o Medo do Futuro
A presença de drones israelenses de vigilância sobrevoando a região e as explosões distantes, que possivelmente se originam de demolições em vilarejos ocupados, compõem o sombrio pano de fundo para a vida no sul do Líbano. A construção de estradas de serviço e a ocupação de edifícios residenciais por soldados israelenses, alguns camuflados com redes para proteção contra drones explosivos do Hezbollah, evidenciam a militarização intensa da área. A Unifil reporta a consolidação e o reforço das posições israelenses, com a construção de estruturas de proteção e obras de engenharia, além da observação de civis israelenses envolvidos em demolições.
A justificativa de Israel para a destruição de prédios, alegando uso pelo Hezbollah para fins militares, é contestada por organizações de direitos humanos, que apontam para a possibilidade de crimes de guerra. A incerteza sobre o futuro e a impossibilidade de retorno para centenas de milhares de libaneses desalojados criam um cenário de profunda angústia e instabilidade na região, com poucas perspectivas de resolução a curto prazo.