Brasil desenvolve ferramenta para medir sofrimento psicológico com degradação ambiental

O Brasil agora conta com uma ferramenta validada em português para medir a solastalgia, um tipo de sofrimento psicológico ligado às transformações negativas do ambiente onde as pessoas vivem. A escala, batizada de BSS-Br (Brief Solastalgia Scale – versão brasileira), é resultado de um estudo conduzido por pesquisadores da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e publicado na revista científica “Environmental Psychology Research”. A pesquisa, que teve financiamento e coautoria da Natura, representa um avanço significativo na compreensão dos impactos da crise climática na saúde mental.

A solastalgia descreve a angústia emocional provocada pela degradação do ambiente familiar, diferenciando-se da saudade de um lugar distante. Ela se refere ao mal-estar sentido quando o próprio local onde a pessoa reside sofre alterações negativas, como secas prolongadas, incêndios florestais, perda de biodiversidade e outras alterações ambientais que retiram o significado do espaço vivido. A validação da escala envolveu a análise de dados de 1.752 adultos de todas as regiões do país, coletados online.

Os resultados preliminares indicam níveis moderadamente altos de sofrimento ambiental, com uma média de 3,90 em uma escala de 1 a 5. O estudo também apontou uma associação entre maiores níveis de solastalgia e sintomas de ansiedade e depressão, além de menor bem-estar. É importante ressaltar, contudo, que a solastalgia não é sinônimo desses transtornos, mas sim uma resposta emocional específica às transformações ambientais. Essas descobertas, divulgadas pela pesquisa, abrem caminho para futuras investigações e intervenções.

Entendendo a Solastalgia: Angústia na Própria Terra

O conceito de solastalgia foi cunhado pelo filósofo ambiental australiano Glenn Albrecht para descrever a dor, a saudade ou a angústia que uma pessoa sente quando seu ambiente familiar, o lugar que lhe é lar, sofre uma deterioração. Diferentemente da nostalgia, que se refere à saudade de um lugar que foi deixado para trás, a solastalgia ocorre quando o indivíduo permanece em seu território, mas percebe que ele está mudando de forma indesejada e prejudicial. Essa transformação pode ser gradual, como o avanço do desmatamento ou a erosão de paisagens, ou repentina e intensa, como a ocorrência de desastres naturais.

De acordo com o estudo, a solastalgia pode ser desencadeada por uma série de fatores ambientais. A exposição prolongada à fumaça de incêndios florestais, a vivência de secas severas e prolongadas, a degradação visível da paisagem, o desaparecimento de elementos naturais que antes compunham o cotidiano e a perda de biodiversidade são exemplos de contextos que podem gerar esse tipo de sofrimento. O fenômeno ganha relevância em um cenário global de mudanças ambientais aceleradas, onde as transformações ecossistêmicas se tornam cada vez mais evidentes e impactantes.

No contexto brasileiro, a pesquisa aponta que fatores como os recorrentes incêndios florestais na Amazônia e em outros biomas, o avanço do desmatamento, os ciclos de seca que afetam diversas regiões do país e os episódios de inundações, que se tornam mais frequentes e intensos, contribuem para um cenário de profundas transformações socioambientais. Essas mudanças afetam diretamente a relação das pessoas com os lugares onde vivem, gerando um impacto psicológico que a solastalgia busca mensurar.

A Validação da Escala BSS-Br: Metodologia e Abrangência

A validação da Brief Solastalgia Scale – versão brasileira (BSS-Br) foi um processo meticuloso, dividido em duas etapas principais. Inicialmente, a escala original, desenvolvida em outro idioma, passou por um rigoroso processo de tradução para o português brasileiro. Em seguida, foi submetida a uma retrotradução para garantir a fidelidade semântica e cultural. Especialistas na área avaliaram a versão traduzida, e testes de compreensão foram realizados para assegurar que os itens fossem claramente entendidos pelos potenciais respondentes.

Na segunda fase, a versão adaptada da escala foi aplicada a uma amostra nacional. O objetivo era verificar se os cinco itens que compõem a ferramenta avaliavam de maneira consistente o mesmo fenômeno, ou seja, a solastalgia. A pesquisa analisou dados de 1.752 adultos, abrangendo todas as 27 unidades da federação e as cinco regiões geográficas do Brasil. A coleta de dados foi realizada pela internet, utilizando uma metodologia de caráter não probabilístico, o que significa que a amostra pode não representar perfeitamente a diversidade da população brasileira em termos de acesso digital e escolaridade.

Os resultados da análise estatística revelaram que a BSS-Br possui uma estrutura de um único fator, indicando que todos os itens medem a mesma construção teórica. O índice de consistência interna da escala foi considerado adequado, demonstrando que os itens são confiáveis na medição da solastalgia. Além disso, a escala apresentou invariância de medida entre diferentes grupos demográficos, incluindo faixas etárias, regiões, níveis de escolaridade, situação parental, composição do domicílio e a percepção de mudanças ambientais recentes. Essa invariância é crucial, pois garante que os itens da escala tenham um significado comparável entre esses grupos, permitindo análises comparativas confiáveis dos níveis de solastalgia sem que as diferenças sejam atribuídas a falhas na própria medição.

Solastalgia e Saúde Mental: Conexões com Ansiedade e Depressão

Embora o foco principal do estudo tenha sido a validação da escala de solastalgia, os pesquisadores aproveitaram para investigar as possíveis correlações entre o sofrimento ambiental e indicadores de saúde mental. Foram utilizados instrumentos padronizados para avaliar sintomas de ansiedade, depressão e bem-estar psicológico. A análise comparativa dos resultados da BSS-Br com esses outros instrumentos revelou associações importantes.

Na amostra estudada, uma parcela significativa dos participantes apresentou níveis que podem indicar sofrimento psicológico em outras áreas. Aproximadamente 44,75% atingiram ou ultrapassaram o ponto de corte no GAD-7 (Generalized Anxiety Disorder-7), utilizado para identificar sintomas de ansiedade moderada a intensa. Similarmente, 47,83% alcançaram o mesmo limite no PHQ-9 (Patient Health Questionnaire-9), um indicador de sintomas depressivos. Adicionalmente, 63,18% dos participantes apresentaram pontuações que sugerem uma redução do bem-estar psicológico, conforme avaliado pelo WHO-5 (World Health Organization-Five Well-Being Index).

Os pesquisadores encontraram uma correlação positiva entre os níveis de solastalgia e os sintomas de ansiedade e depressão. Isso significa que quanto maiores os níveis de sofrimento ambiental, maiores tendem a ser os sintomas de ansiedade e depressão relatados. Por outro lado, observou-se uma correlação negativa entre solastalgia e bem-estar, indicando que pessoas com maior solastalgia tendem a reportar menor bem-estar psicológico. É fundamental, no entanto, que os autores do estudo ressaltam que essas associações, embora presentes, foram de magnitude pequena a moderada. Portanto, a solastalgia não deve ser vista como sinônimo de ansiedade ou depressão, mas sim como uma resposta emocional específica às transformações ambientais que pode coexistir e interagir com outros problemas de saúde mental.

Impactos Regionais e Demográficos da Solastalgia no Brasil

A pesquisa buscou identificar se havia diferenças significativas nos níveis de solastalgia entre as diversas regiões do Brasil e entre diferentes grupos demográficos. A análise revelou pequenas variações nos níveis médios de solastalgia entre as cinco macrorregiões brasileiras. Os resultados foram ligeiramente mais elevados nas regiões Sul e Sudeste, e um pouco menores na região Nordeste. Contudo, os autores enfatizam que essas diferenças regionais foram sutis, sugerindo que a solastalgia é um fenômeno presente em todo o território nacional.

O estudo também identificou padrões interessantes em relação às características dos participantes. Observou-se que níveis mais elevados de solastalgia foram encontrados entre os participantes mais jovens, aqueles com maior escolaridade e, notavelmente, entre aqueles que relataram ter percebido mudanças ambientais recentes no local onde vivem. Esses achados sugerem que a percepção direta das transformações ambientais é um fator chave na manifestação da solastalgia.

Curiosamente, o estudo não encontrou uma associação estatisticamente significativa entre sexo e renda e os níveis de solastalgia, pelo menos dentro do modelo de regressão utilizado na análise. Isso indica que o sofrimento ambiental, medido pela escala, não parece ser predominantemente influenciado por essas variáveis demográficas específicas no contexto brasileiro. A forte associação encontrada entre a percepção de mudanças ambientais recentes e os níveis de solastalgia reforça a ideia de que a experiência vivida da degradação ambiental é um motor principal para esse tipo de sofrimento psicológico.

Projeto Apoena: Uma Visão Ampla da Saúde Ecoafetiva

A validação da BSS-Br faz parte de uma iniciativa maior e mais ambiciosa conhecida como Projeto Apoena. Este projeto se dedica a investigar as complexas dimensões psicológicas, comportamentais e ambientais do que tem sido chamado de saúde ecoafetiva. A saúde ecoafetiva refere-se ao bem-estar emocional e psicológico em relação ao meio ambiente, reconhecendo a profunda conexão entre os seres humanos e a natureza.

O Projeto Apoena abrange diversas frentes de pesquisa. Além da validação psicométrica de ferramentas como a BSS-Br, o projeto explora o uso de biomarcadores digitais para monitorar mudanças fisiológicas e emocionais e realiza análises aprofundadas sobre o contexto ambiental e seus efeitos na saúde. Uma das linhas de pesquisa, liderada pelo professor Lucas Murrins Marques, foca na análise de padrões vocais para identificar sinais de sofrimento ambiental. “A voz registra mudanças fisiológicas e emocionais que muitas vezes passam despercebidas. O que observamos é que experiências relacionadas ao sofrimento ambiental também deixam marcas nesses padrões vocais. Isso amplia as possibilidades de pesquisa para o desenvolvimento de ferramentas de monitoramento mais acessíveis, escaláveis e preventivas”, explica Marques.

Manuel Rios, diretor executivo de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Natura, destaca a abordagem multidisciplinar do Projeto Apoena e como ele reflete a visão da empresa sobre ciência. “O Projeto Apoena traduz a forma como a Natura entende a ciência, conectada aos desafios reais da sociedade. Ao unir diferentes áreas do conhecimento, conseguimos transformar um fenômeno ainda pouco mensurado em evidências capazes de orientar pesquisas e novas formas de promover bem-estar. Mais do que gerar conhecimento, buscamos ampliar a capacidade de cuidar das pessoas em um contexto de profundas transformações ambientais”, afirma Rios. Essa colaboração entre academia e setor privado demonstra o compromisso em abordar questões complexas de saúde mental em face da crise ecológica.

Limitações do Estudo e Próximos Passos

Apesar da relevância da validação da BSS-Br, os autores do estudo reconhecem e apontam algumas limitações importantes. Uma delas é o caráter transversal da pesquisa, o que significa que os dados foram coletados em um único momento. Essa característica impede o estabelecimento de relações de causa e efeito definitivas entre a solastalgia e outros fatores, como ansiedade e depressão. Para determinar causalidade, seriam necessários estudos longitudinais.

Outra limitação reside na forma de coleta de dados. As informações foram obtidas por autorrelato dos participantes, o que pode estar sujeito a vieses de memória ou de interpretação. Além disso, a coleta de dados realizada online e com uma amostra não probabilística pode ter resultado em uma maior representação de pessoas com maior escolaridade e acesso à internet, limitando a generalização dos resultados para toda a população brasileira. A pesquisa também não incluiu um teste-reteste, que seria fundamental para avaliar a estabilidade das pontuações da escala ao longo do tempo.

Diante dessas considerações, os pesquisadores recomendam que futuros trabalhos incluam amostras mais representativas da população, que utilizem estudos longitudinais para acompanhar os participantes ao longo do tempo e que combinem a escala de solastalgia com outros indicadores. A inclusão de marcadores fisiológicos, dados geoespaciais e outras medidas objetivas poderia complementar as informações obtidas por autorrelato. Ainda assim, a validação da BSS-Br é considerada um avanço significativo, representando a primeira ferramenta psicometricamente validada em português para avaliar a solastalgia, especialmente em um país megadiverso e em desenvolvimento como o Brasil.

A Importância da Escala BSS-Br para a Saúde Pública

A disponibilidade da BSS-Br em português é um marco para a pesquisa e a prática em saúde mental no Brasil. Antes desta validação, o estudo da solastalgia no país enfrentava barreiras linguísticas e a falta de instrumentos padronizados e confiáveis. Agora, pesquisadores, psicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde têm uma ferramenta acessível para quantificar e compreender o sofrimento psicológico associado à degradação ambiental.

Essa escala permite não apenas diagnosticar e monitorar o impacto das mudanças ambientais na saúde mental de indivíduos e comunidades, mas também orientar políticas públicas e intervenções. Ao medir a solastalgia, é possível identificar populações mais vulneráveis e desenvolver programas de apoio psicológico e ambiental mais eficazes. A compreensão da solastalgia pode fundamentar ações de conservação e restauração ambiental que considerem não apenas os aspectos ecológicos, mas também os impactos socioemocionais.

A pesquisa que validou a BSS-Br, integrada ao Projeto Apoena e com apoio da Natura, demonstra um compromisso crescente em conectar a ciência ambiental com a saúde humana. O reconhecimento da solastalgia como uma resposta legítima e mensurável ao sofrimento causado pela crise climática é um passo fundamental para abordar as complexas intersecções entre o bem-estar humano e a saúde do planeta. A validação da escala abre portas para um debate mais amplo sobre justiça climática e saúde mental, incentivando ações que promovam a resiliência e o cuidado em tempos de profunda transformação ambiental.

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