Calor extremo afeta camelos, os ‘navios do deserto’, com bolhas e queda de pelo

Os camelos, historicamente adaptados a ambientes áridos e conhecidos por sua resiliência a altas temperaturas, estão demonstrando sinais alarmantes de sofrimento devido ao calor extremo que assola o continente africano. Regiões como a Depressão de Afar, na Etiópia, um dos locais mais quentes do planeta, registram problemas graves na saúde desses animais, que são essenciais para o sustento de comunidades nômades.

Criadores relatam que os animais desenvolvem bolhas dolorosas nas patas, sofrem com lacrimejamento excessivo nos olhos e perdem pelo quando se deitam na areia escaldante. A situação se agrava com a perda de filhotes e a percepção de que até mesmo o vento, antes um alívio, agora traz um calor sufocante. Essas observações preocupantes não se limitam a um único criador, mas são corroboradas por cientistas e profissionais de bem-estar animal, que apontam para o estresse, a exaustão e a desidratação como consequências diretas do aquecimento global.

Os impactos do calor extremo sobre os camelos vão além do desconforto imediato, afetando indiretamente a disponibilidade de água, a qualidade da vegetação e a existência de áreas sombreadas, elementos cruciais para a sobrevivência desses animais no deserto. Essas informações foram divulgadas com base em relatos de criadores e estudos científicos recentes.

A saúde dos dromedários em risco: estudos revelam o impacto das mudanças climáticas

O Norte da África e o Chifre da África abrigam a vasta maioria da população mundial de dromedários, camelos de uma única corcova, que por muito tempo foram a escolha principal de criadores devido à sua notável resistência a secas e calor intenso. No entanto, pesquisas recentes indicam que nem mesmo essa adaptação ancestral está sendo suficiente para enfrentar as atuais condições climáticas.

Um estudo realizado no sul da Etiópia, com base na percepção de criadores locais, evidenciou que as altas temperaturas e a variabilidade climática têm prejudicado significativamente a saúde dos rebanhos. Os entrevistados relataram que as mudanças climáticas afetaram negativamente a saúde geral, a produtividade e a capacidade reprodutiva dos camelos, conforme publicado em 2025. Essa constatação sinaliza uma mudança preocupante no cenário tradicional da criação desses animais.

Na vizinha Somália, a situação se mostra ainda mais crítica. Um estudo divulgado em junho revelou que a mortalidade de camelos associada à seca atingiu níveis de crise generalizada, impactando quase 46% dos lares que dependem desses animais. A pesquisa, que ouviu cerca de seis mil famílias de pastores, apontou que as regiões norte do país, como Sool, onde a taxa de mortalidade chegou a alarmantes 73%, são as mais afetadas. Especialistas atribuem essa devastação ao calor extremo, embora fatores como a precariedade dos serviços veterinários e o manejo inadequado dos animais agravem o problema.

O ciclo vicioso do calor: como as altas temperaturas intensificam a seca e a mortalidade

A relação entre o calor extremo e a intensificação da seca na região é um ciclo perigoso. Pesquisadores de ciências atmosféricas apontam que as altas temperaturas foram o principal motor por trás das secas de 2021 e 2022 no Chifre da África. Esse fenômeno ocorre porque o calor intenso acelera a evaporação da água presente no solo e em corpos d’água. Paralelamente, as plantas, sob estresse térmico, liberam mais vapor d’água na atmosfera, um processo conhecido como transpiração, contribuindo para a aridez.

Veterinários na região relatam um aumento alarmante no número de camelos doentes e mortos devido ao calor extremo e à consequente seca. O Dr. Hassan Nuya Guyo, veterinário do condado de Marsabit, Quênia, próximo à fronteira com a Etiópia, observou um aumento significativo nos casos de hipertermia em camelos. Essa condição os torna mais vulneráveis a infecções diversas. Nos últimos dois anos, seu condado registrou um aumento superior a 15% nas mortes de camelos diretamente atribuídas ao calor extremo.

Outro estudo focado no Chifre da África reforça essa conexão, indicando que o aumento na incidência de doenças e a redução na produção de leite entre os camelos são efeitos diretos das mudanças climáticas, incluindo o estresse térmico. Essa cascata de problemas compromete não apenas a saúde dos animais, mas também a subsistência das comunidades que dependem deles.

Onda de calor no Norte da África: Argélia e outros países registram alta mortalidade em camelos

A situação não é exclusiva do Chifre da África. No Norte da África, países como a Argélia também enfrentam um cenário preocupante. Um estudo recente publicado neste ano revelou um aumento expressivo na mortalidade de camelos durante as ondas de calor que atingem a região anualmente durante o verão. A análise de séries temporais demonstrou padrões sazonais significativos de mortalidade, sublinhando a necessidade urgente de intervenções direcionadas nos períodos de maior risco.

Essas intervenções incluem o fornecimento estratégico de água, alimentação suplementar e um monitoramento mais rigoroso de doenças. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) corrobora esses achados, afirmando que episódios de calor extremo se tornaram uma ocorrência frequente em vários países do Norte da África. Desde 1981, as ondas de calor na região têm apresentado uma tendência de aumento consistente.

Em 2024, diversos países da região e do Oriente Médio registraram temperaturas que ultrapassaram os 50°C. O relatório Estado do Clima na África 2025, da OMM, destaca que o Norte da África foi a sub-região que mais aqueceu entre as seis analisadas, com uma média de 0,43°C por década entre 1991 e 2025. Esse aquecimento acelerado representa um desafio sem precedentes para a fauna e as populações locais.

Limites de resistência dos camelos: quando o calor se torna insuportável

Os camelos possuem adaptações notáveis que lhes permitem suportar temperaturas de até cerca de 40°C. Sua capacidade de variar a temperatura corporal em alguns graus ao longo do dia ajuda a minimizar a necessidade de suar, um mecanismo crucial para a conservação de água. Combinado com a produção de urina concentrada e fezes secas, esses animais reduzem drasticamente a perda hídrica. A espessa pelagem também atua como uma barreira protetora contra a radiação solar intensa.

No entanto, mesmo esses animais extraordinários têm seus limites. Mohammed Bengoumi, cientista da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) especializado na saúde de camelos no Norte da África, explica que o estresse térmico ocorre quando as temperaturas excedem sua faixa de conforto. Em muitas partes do Saara, as temperaturas de verão frequentemente ultrapassam os 50°C, elevando o risco de estresse térmico severo, especialmente quando combinado com a escassez de vegetação, água e áreas de sombra.

O professor Abdelmadjid Chehma, da Universidade de Ghardaia, na Argélia, que conduziu pesquisas experimentais com camelos no deserto do Saara, reforça essa visão. Seus estudos indicam que a exposição prolongada a temperaturas entre 41°C e 45°C, tanto durante o dia quanto à noite, afeta diretamente as células dos animais. O sistema imunológico é comprometido, pois essas temperaturas danificam os glóbulos brancos e outras células devido ao estresse, prejudicando sua capacidade de reparo e levando à autodestruição celular.

Impactos celulares e metabólicos: o que acontece com o camelo sob estresse térmico

Quando o estresse térmico se instala nos camelos, ocorre uma desaceleração do metabolismo. O objetivo é reduzir a produção interna de calor corporal. Como consequência direta, os animais passam a consumir significativamente menos alimento, o que os torna letárgicos e propensos à fadiga generalizada. Essa redução na ingestão de energia e nutrientes afeta múltiplos sistemas do organismo.

Além da letargia e da diminuição do apetite, o estresse térmico em camelos pode levar a uma queda drástica na produção de leite, um recurso vital para a nutrição dos filhotes e para o sustento das comunidades pastoris. Distúrbios reprodutivos também são observados, impactando a capacidade de renovação e manutenção dos rebanhos a longo prazo. Esses efeitos combinados criam um ciclo vicioso de declínio na saúde e produtividade animal.

Mohammed el Khasmi, professor da Universidade de Casablanca, Marrocos, e especialista em hidrobiologia animal, lista uma série de efeitos observados em camelos sob estresse térmico. Entre eles estão a perda de peso acentuada, inflamações em diversas partes do corpo, doenças musculares e ósseas, desequilíbrios químicos causados pelo mau funcionamento dos rins e o aumento da suscetibilidade a doenças infecciosas, muitas vezes desencadeadas por parasitas que se proliferam em condições de debilidade do hospedeiro.

Fatores agravantes e migração forçada: a busca por alívio em meio à crise climática

Especialistas enfatizam que, embora o calor extremo seja o principal gatilho para esses problemas, seus efeitos são severamente agravados pela combinação de outros fatores. A perda generalizada de vegetação, a escassez de fontes de água potável, a diminuição das áreas de sombra natural e a falta de acesso a serviços veterinários adequados criam um cenário de vulnerabilidade extrema para os camelos.

Diante dessa realidade, muitos criadores na Etiópia têm tomado a drástica decisão de realocar seus rebanhos. Tradicionalmente criados no norte do país, onde as condições eram mais favoráveis, os camelos estão sendo levados para o sul, onde ainda existe uma disponibilidade relativamente maior de água e vegetação. Essa migração, contudo, não é sazonal, como os deslocamentos tradicionais de pastores. Conforme explica Daniel Gelan, professor da Vision University e pesquisador em desenvolvimento pastoral, os criadores estão deixando o norte do país em definitivo, pois o calor extremo e a seca tornaram a criação de camelos na região inviável a longo prazo.

Essa migração forçada representa um desafio logístico e social significativo, além de indicar a gravidade da crise climática que força comunidades inteiras a abandonar suas terras ancestrais em busca de condições de sobrevivência.

O futuro incerto dos camelos: vítimas das mudanças climáticas e da seca persistente

O Chifre da África ainda se recupera da mais longa e severa seca já registrada, que se estendeu de 2020 a 2023. Contudo, a região já enfrenta um novo período de estiagem severa, conforme alerta a organização humanitária Oxfam. Em algumas partes da Somália, o preço da água disparou, com um aumento superior a 2.000% devido à escassez extrema, tornando o acesso a esse recurso básico um luxo inacessível para muitas famílias.

Ali Umer, o criador de camelos da região de Afar, expressa seu temor constante de que um surto de doenças possa dizimar seu rebanho adulto a qualquer momento. Sua preocupação é justificada. O professor Abdelmadjid Chehma, da Universidade de Ghardaia, adverte que, embora os camelos tenham sido historicamente a última linha de defesa dos pastores contra as adversidades do deserto, a intensidade sem precedentes das atuais ondas de calor ameaça diretamente suas funções vitais.

Essa situação transforma um animal historicamente sinônimo de resistência e sobrevivência em mais uma vítima emblemática das mudanças climáticas. A crise em curso exige atenção global e ações urgentes para mitigar os efeitos do aquecimento global e apoiar as comunidades mais vulneráveis a ele, garantindo um futuro mais resiliente para os animais e as pessoas que dependem deles.

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