Candidata favorita à ONU tem histórico de declarações controversas sobre Fidel Castro e Israel
A corrida para suceder António Guterres como Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) ganha contornos de debate acirrado, especialmente com a ascensão de Carolyn Rodrigues-Birkett, da Guiana, como líder nas consultas informais do Conselho de Segurança. No entanto, declarações passadas da diplomata sobre figuras como Fidel Castro e o Estado de Israel têm gerado atenção e questionamentos.
Rodrigues-Birkett liderou a mais recente votação informal, obtendo oito dos quinze votos possíveis no Conselho de Segurança. Seu histórico inclui elogios ao ex-líder cubano Fidel Castro, a quem chamou de “visionário”, e acusações de “genocídio” contra Israel, conforme noticiado pelo Wall Street Journal.
Essas manifestações adicionam uma camada de complexidade à já intrincada seleção do próximo líder da ONU, que exige não apenas apoio dos membros do Conselho, mas também a aprovação dos cinco membros permanentes, que detêm poder de veto. Acompanhe os detalhes da disputa e o contexto das declarações da candidata.
Quem é Carolyn Rodrigues-Birkett e seu percurso na ONU
Carolyn Rodrigues-Birkett, atual representante permanente da Guiana nas Nações Unidas, emergiu como uma forte candidata à sucessão de António Guterres. Com uma carreira diplomática consolidada, ela já ocupou o cargo de ministra das Relações Exteriores de seu país, acumulando experiência significativa em fóruns multilaterais.
Sua liderança na última consulta informal do Conselho de Segurança, realizada em 21 de agosto, com oito manifestações de apoio entre os 15 membros, a posicionou à frente de outras candidatas proeminentes. Este resultado, contudo, não é definitivo e a disputa ainda envolve outras figuras importantes, como a costarriquenha Rebeca Grynspan e o argentino Rafael Grossi, ambos com sete votos na mesma rodada.
A dinâmica da escolha para Secretário-Geral da ONU é complexa, exigindo um mínimo de nove votos favoráveis no Conselho de Segurança e a ausência de vetos por parte dos membros permanentes (Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido). Após essa etapa, o nome é recomendado à Assembleia Geral, que historicamente ratifica a indicação.
Elogios a Fidel Castro: um “visionário” para a humanidade
Um dos pontos de maior destaque no histórico de Rodrigues-Birkett são seus elogios ao ex-ditador cubano Fidel Castro. Em 2013, durante uma cerimônia celebrando os 40 anos de relações diplomáticas entre Guiana e Cuba, a diplomata enalteceu Castro como um “visionário, determinado e revolucionário”.
Na ocasião, Rodrigues-Birkett atribuiu a Fidel Castro a autoria de “realizações, resistência e desenvolvimento humano de Cuba”. Ela chegou a pedir que o líder cubano, ainda vivo na época, fosse homenageado “pela humanidade em geral”, ressaltando sua “atuação em favor da humanidade”.
Essas declarações, resgatadas pelo jornal Wall Street Journal, contrastam com a percepção de muitos sobre o legado de Fidel Castro, associado a um regime autoritário e violações de direitos humanos. A forma como esses elogios serão recebidos pelos membros do Conselho de Segurança, especialmente aqueles com posições firmes em defesa da democracia e dos direitos humanos, é um ponto de interrogação na corrida pela secretaria-geral.
Acusações contra Israel: “genocídio” e “aspirações colonialistas”
Além das controvérsias relacionadas a Fidel Castro, Carolyn Rodrigues-Birkett também tem um histórico de críticas contundentes ao Estado de Israel. Em discursos proferidos no Conselho de Segurança, ela acusou o país de cometer “genocídio” e de nutrir “aspirações colonialistas”.
A diplomata guianense também atribuiu a Israel responsabilidade pela deterioração do conflito com os palestinos. Em declaração proferida em 2024, ela argumentou que o conflito no Oriente Médio não poderia ser analisado apenas a partir do ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, mas sim a partir de suas origens históricas, apontando 1948 como marco inicial.
Rodrigues-Birkett afirmou que Israel teria “rejeitado violentamente” uma solução de dois Estados. O Wall Street Journal, ao repercutir essa declaração, lembrou que a liderança judaica da época aceitou o plano de partilha da ONU, enquanto as lideranças árabes o rejeitaram, precedendo a guerra que se seguiu à criação do Estado de Israel. Essas posições tendem a polarizar o debate sobre a candidatura, especialmente com países que possuem laços fortes com Israel.
O processo de seleção para Secretário-Geral da ONU
A escolha do próximo Secretário-Geral da ONU é um processo que se inicia com consultas informais no Conselho de Segurança. Nessas rodadas, os membros do conselho classificam os candidatos em categorias como “encorajar”, “desencorajar” ou “sem opinião”, de forma anônima. O objetivo é medir o nível de apoio e rejeição a cada nome antes da etapa decisiva.
Para avançar, um candidato precisa obter o apoio de pelo menos nove dos quinze membros do Conselho de Segurança, sem que nenhum dos cinco membros permanentes (EUA, China, Rússia, França e Reino Unido) utilize seu poder de veto. Uma vez que um candidato atinja esse patamar, o Conselho o recomenda à Assembleia Geral da ONU para votação final.
É importante notar que as consultas informais não representam uma eleição definitiva. Elas servem como um termômetro e uma ferramenta para refinar as candidaturas e as negociações entre os membros do Conselho. A disputa atual reflete a complexidade diplomática e os diferentes interesses geopolíticos em jogo na definição do líder máximo da organização.
Outras candidatas e o cenário político da disputa
Embora Carolyn Rodrigues-Birkett tenha liderado a última consulta informal, a disputa pela Secretaria-Geral da ONU permanece aberta. A costarriquenha Rebeca Grynspan, que liderou a consulta anterior, continua sendo uma forte concorrente, assim como Rafael Grossi, atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), apoiado pelo presidente argentino Javier Milei.
Um nome que perdeu força na disputa foi o da chilena Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e candidata apoiada pelo governo Lula. Em sua última participação nas consultas, ela obteve apenas dois votos de apoio, contra seis manifestações contrárias e sete países sem posição definida. A dinâmica entre os candidatos e seus respectivos apoios políticos são cruciais para o desenrolar do processo.
Analistas consultados pelo portal Geneva Solutions apontam que, até o momento, nenhuma candidatura conseguiu consolidar um apoio esmagador que a credencie como favorita incontestável. Isso sugere que as negociações e as próximas rodadas de consulta serão determinantes para definir quem sucederá António Guterres em janeiro de 2027.
O impacto das declarações no futuro da candidatura
As declarações de Carolyn Rodrigues-Birkett sobre Fidel Castro e Israel, embora feitas em momentos distintos de sua carreira, certamente terão um peso na avaliação de sua candidatura. Em um ambiente diplomático sensível, onde o equilíbrio e a imparcialidade são frequentemente valorizados, posicionamentos considerados polêmicos podem tanto atrair quanto afastar apoios.
A forma como os membros permanentes do Conselho de Segurança, em particular os Estados Unidos, reagirão a essas declarações será um fator determinante. O histórico de Rodrigues-Birkett, que a levou a liderar a consulta informal, demonstra que ela possui um capital político considerável, mas as controvérsias podem se tornar obstáculos significativos em fases posteriores do processo.
A escolha do Secretário-Geral da ONU é um reflexo das complexidades geopolíticas globais. As declarações de Rodrigues-Birkett, portanto, não são apenas um reflexo de suas convicções, mas também um elemento que moldará o debate e as negociações futuras na busca pelo próximo líder da organização mundial.
António Guterres e o fim de seu mandato
A atual disputa ocorre devido ao término do segundo e último mandato de António Guterres como Secretário-Geral da ONU. Ele deixará o cargo em 31 de dezembro, após oito anos à frente da organização, período marcado por crises globais como a pandemia de Covid-19, conflitos geopolíticos e a emergência climática.
O novo Secretário-Geral assumirá em janeiro de 2027 para um mandato inicial de cinco anos, com a possibilidade de uma recondução. A transição de liderança em uma organização com a magnitude e a importância da ONU é sempre um momento crucial, exigindo um líder capaz de navegar por um cenário internacional complexo e multifacetado.
A expectativa é que o processo de seleção continue avançando, com novas rodadas de consultas e intensas negociações diplomáticas, até que um consenso seja alcançado e um nome seja formalmente indicado para liderar a ONU nos próximos anos.