Reviravolta na Itália: Justiça anula extradição de Carla Zambelli e determina sua soltura
A ex-deputada federal Carla Zambelli foi solta na Itália na noite desta sexta-feira (22/5), após a Suprema Corte de Cassaçã de Roma anular a decisão de extradição para o Brasil. Zambelli estava presa no país europeu desde julho do ano passado, aguardando o julgamento de seu pedido de extradição.
A decisão da mais alta instância da justiça italiana representa uma reviravolta significativa no caso, que vinha se desenrolando desde a fuga da ex-parlamentar para a Itália, após sua condenação em primeira instância pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A notícia foi confirmada à BBC News Brasil pelo advogado Fabio Pagnozzi, que integra a equipe de defesa de Zambelli. A soltura imediata marca um novo capítulo na saga jurídica da ex-deputada, que agora aguarda uma decisão final do Ministro da Justiça italiano.
Entenda o processo de extradição e a decisão da Corte de Cassaçã
Em março, a Corte de Apelação de Roma havia determinado a extradição de Carla Zambelli para o Brasil. No entanto, a defesa da ex-deputada recorreu dessa decisão, buscando reverter a medida na Corte de Cassaçã, que é a última instância judicial na Itália. A estratégia da defesa foi bem-sucedida, e a Corte de Cassaçã anulou a extradição, ordenando a libertação de Zambelli.
O caso agora segue para o Ministro da Justiça da Itália, Carlo Nordio. Ele terá um prazo de 45 dias para analisar a decisão da Corte de Cassaçã e emitir um parecer, que pode ser favorável ou contrário à extradição. Essa etapa final é crucial para definir o futuro de Carla Zambelli em relação ao pedido brasileiro.
Carla Zambelli celebra liberdade e dedica vitória a Deus
Em suas primeiras declarações após ser solta, Carla Zambelli expressou alívio e gratidão. Ela afirmou que sua defesa “conseguiu fazer o impossível” e dedicou a vitória a Deus. Em um vídeo publicado nas redes sociais do advogado Pieremilio Sammarco, um dos responsáveis por sua defesa na Itália, Zambelli declarou:
“Eu disse bem alto, dentro da prisão: ‘cada um de vocês que crê em Deus, Deus vai abençoar’. Porque essa vitória nós consagramos a Ele. Ele deu força aos nossos advogados e agora estamos livres, graças a Deus, para continuar uma vida de missão.”
A ex-deputada ressaltou a força da sua fé e o trabalho incansável de sua equipe jurídica para reverter uma situação que ela considerava adversa.
O pedido de extradição e a condenação no Brasil
O pedido de extradição que motivou a prisão de Carla Zambelli na Itália foi apresentado pelo governo brasileiro às autoridades italianas em junho de 2025. A solicitação ocorreu após Zambelli ter sido condenada a 10 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A condenação se deu pela acusação de ter supostamente ordenado a invasão do sistema de mandados judiciais do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com a colaboração do hacker Walter Delgatti.
Após a decisão do STF, Carla Zambelli fugiu para a Itália e passou a ser considerada foragida. Seu nome foi incluído na lista de difusão vermelha da Interpol, o que possibilitou sua prisão em 29 de julho de 2025, através de uma cooperação internacional entre a Polícia Federal brasileira, a Interpol e agências italianas.
A ex-deputada sempre negou seu envolvimento nos crimes pelos quais foi condenada, alegando ser vítima de perseguição política. Ela também enfrenta outro processo no Brasil, que resultou em uma condenação por sacar uma arma e perseguir um homem em São Paulo na véspera da eleição presidencial de 2022. Um pedido de extradição referente a este caso também está pendente de julgamento.
Defesa argumenta condenações desproporcionais e provas fracas
Em entrevista à BBC News Brasil, o advogado Fabio Pagnozzi destacou que a decisão da Corte de Cassaçã foi uma surpresa positiva para a defesa. Ele explicou que a corte italiana entendeu que as condenações de Carla Zambelli no Brasil apresentavam problemas significativos.
“A Corte Superior entendeu que a Carla Zambelli, apesar de ter sido condenada no Brasil, as condenações foram, além de desproporcionais em questões de pena, elas foram também lastreadas em provas muito fracas”, declarou Pagnozzi. Ele ainda ressaltou a importância do caso, afirmando que “um caso totalmente especial, um caso único, que vai servir de jurisprudência para muitos outros casos de pessoas perseguidas em países estrangeiros”.
Essa argumentação da defesa, focada na fragilidade das provas e na desproporcionalidade das penas aplicadas no Brasil, parece ter sido um fator determinante para a decisão da justiça italiana.
Renúncia ao mandato e cassação na Câmara dos Deputados
Antes mesmo de sua prisão na Itália, Carla Zambelli já enfrentava turbulências políticas no Brasil. Ela renunciou ao seu mandato como deputada federal em 14 de dezembro de 2025, após a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) votar pela sua cassação. Embora a decisão da CCJ tenha sido inicialmente revertida pelo plenário da Câmara dos Deputados, a sessão foi posteriormente anulada pelo STF, o que levou Zambelli a apresentar sua carta de renúncia.
A renúncia foi uma manobra estratégica para evitar a cassação, mas não a livrou das consequências legais de seus atos, incluindo os pedidos de extradição. A perda do foro privilegiado por deixar de ser deputada também alterou o curso de alguns processos.
Detalhes da condenação por invasão ao sistema do CNJ
A acusação principal que levou ao pedido de extradição e à condenação de Carla Zambelli no Brasil envolve a suposta invasão ao sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) no início de 2023. Segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), Zambelli teria planejado e coordenado essa invasão com o auxílio do hacker Walter Delgatti.
O objetivo, de acordo com a PGR, seria inserir alvarás de soltura falsos no sistema e emitir um mandado de prisão forjado contra o ministro Alexandre de Moraes, presidente do STF na época. Walter Delgatti confessou a autoria do ataque e afirmou ter agido a mando da ex-deputada, sendo condenado a oito anos e três meses de prisão.
A Primeira Turma do STF, em maio de 2025, condenou Zambelli. O relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, votou pela prisão da ex-deputada, posição acompanhada por unanimidade pelos demais ministros da turma. Na decisão, Moraes argumentou que Zambelli agiu de forma “premeditada, organizada e consciente”, com o intuito de desacreditar as instituições democráticas do país.
O ministro destacou que, como representante do povo e juramentada a defender a Constituição, Zambelli teria utilizado seu mandato para atentar contra a credibilidade do Poder Judiciário. O comportamento social considerado “desajustado” e o “desrespeito às instituições e à democracia” foram citados como agravantes na definição da pena.
Zambelli nega acusações e critica depoimentos de Delgatti
Carla Zambelli sempre sustentou sua inocência, negando veementemente qualquer envolvimento nos crimes pelos quais foi condenada. Ela alega que não existem provas concretas que a liguem diretamente à invasão do sistema do CNJ e acusa Walter Delgatti de ser um “mentiroso patológico”, cujos depoimentos teriam mudado diversas vezes. A defesa da ex-deputada também apontou que a própria Polícia Federal teria classificado Delgatti como “mitômano” em relatórios.
A defesa de Zambelli baseou sua estratégia em questionar a credibilidade e a consistência dos depoimentos de Delgatti, argumentando que as condenações se apoiaram exclusivamente em suas declarações, que seriam contraditórias e imprecisas. Essa linha de defesa parece ter encontrado eco na justiça italiana.
Segunda condenação e a fuga para a Itália
Além da condenação pela invasão ao sistema do CNJ, Carla Zambelli foi condenada em outra ação judicial. Desta vez, pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal, decorrentes do episódio em que sacou uma arma e perseguiu um homem em São Paulo, na véspera da eleição presidencial de 2022. Para este caso, a pena fixada foi de 5 anos e 3 meses de prisão, em regime inicial semiaberto, além do pagamento de multa.
Foi após a determinação de sua prisão preventiva pelo ministro Alexandre de Moraes, no âmbito do caso do CNJ, que Carla Zambelli deixou o Brasil e buscou refúgio na Itália. Ela alegava ter cidadania italiana como um possível impedimento à sua extradição, mas seu nome na lista da Interpol e o pedido formal do Ministério da Justiça brasileiro tornaram sua situação delicada.
A decisão da justiça italiana de anular a extradição abre um novo cenário para a ex-deputada, que agora aguarda o parecer do Ministro da Justiça da Itália, Carlo Nordio, para saber se poderá permanecer no país ou se ainda enfrentará o processo de extradição.