Três décadas após “Choque de Civilizações”, 5 teses de Huntington sobre conflitos globais se provam assustadoramente precisas
Há 30 anos, o mundo acadêmico reagiu com ceticismo e até irritação à publicação do artigo “The Clash of Civilizations?”, de Samuel Huntington, na revista Foreign Affairs. Em um momento pós-Guerra Fria, onde a vitória da democracia liberal parecia iminente e Francis Fukuyama proclamava o “fim da história”, a tese de Huntington, que previa conflitos moldados por identidades culturais e civilizacionais em vez de ideologias, soava anacrônica.
Contudo, o tempo e os eventos globais demonstraram uma notável aderência às previsões do professor de Harvard. Embora sua teoria simplifique a complexidade das relações internacionais, a essência de seu diagnóstico sobre a ascensão de identidades culturais e o declínio relativo do poder ocidental ressoou com força nos acontecimentos das últimas décadas, tornando sua análise incômoda e relevante.
As previsões de Huntington, que evoluíram para o livro “O Choque de Civilizações e a Nova Ordem Mundial” em 1996, abordaram cinco pontos centrais que merecem um balanço após 30 anos. Estes pontos oferecem uma lente para entender os conflitos e as dinâmicas geopolíticas que moldaram o início do século XXI, conforme informações divulgadas pelo artigo original e análises subsequentes.
1. A identidade cultural como força motriz nos conflitos globais
A principal aposta de Samuel Huntington foi a transição de conflitos ideológicos, como a disputa entre capitalismo e socialismo, para disputas baseadas em identidades culturais, religiosas, étnicas e nacionais. Ele previu que, após o fim da Guerra Fria, a política internacional seria cada vez mais definida por clivagens civilizacionais, e não mais por ideologias universais que buscavam uniformizar o mundo.
Os eventos que se seguiram, especialmente a partir do início do século XXI, deram um peso considerável a essa previsão. Os atentados de 11 de setembro de 2001, por exemplo, não foram articulados por discursos de luta de classes ou rivalidades econômicas tradicionais, mas sim por uma retórica explicitamente religiosa e civilizacional, promovida por grupos como a Al-Qaeda e, posteriormente, o Estado Islâmico, com sua aspiração de reconstruir um califado.
Esse padrão se repetiu em diversas partes do globo, demonstrando a força das identidades em detrimento das ideologias. Na Índia, o nacionalismo de Narendra Modi se entrelaçou com a identidade hindu. Na Hungria, Viktor Orbán passou a defender explicitamente a “civilização cristã”. Na China, Xi Jinping associou o fortalecimento nacional ao “rejuvenescimento da civilização chinesa”. O vocabulário civilizacional, considerado datado nos anos 1990, retornou com força ao centro do debate político global, evidenciando a tese de Huntington.
2. O declínio relativo do poder ocidental frente a outras civilizações
Huntington não previu o colapso do Ocidente, mas sim uma diminuição de sua supremacia relativa. Ele antecipou que outras civilizações, com destaque para a civilização sínica (referindo-se à China), expandiriam sua influência econômica, política e militar, tornando-se rivais estratégicos dos Estados Unidos. A China, segundo ele, buscaria consolidar sua hegemonia regional e resistiria às pressões ocidentais por liberalização política.
As últimas três décadas confirmaram essa projeção de forma marcante. A China ascendeu para se tornar a segunda maior economia do mundo, expandiu significativamente sua presença militar, especialmente no Mar do Sul da China, e ampliou sua influência global através de iniciativas como a “Cinturão e Rota”. Crucialmente, o país modernizou sua economia e tecnologia sem adotar as instituições liberais ocidentais, desfazendo a expectativa de que a integração econômica levaria à convergência política.
Outro conceito de Huntington que ganhou relevância foi o de “balancing”, ou o ato de países buscarem equilibrar o poder ocidental em vez de aderir automaticamente à ordem liderada pelos EUA. A expansão do BRICS, a aproximação estratégica entre Rússia e China, e o fortalecimento do chamado “Sul Global” são exemplos dessa tendência de “balancing”, onde nações buscam afirmar sua autonomia e influência em um cenário multipolar.
3. Modernização sem ocidentalização: a persistência de identidades locais
Nos anos 1990, a globalização e o avanço da internet alimentavam a crença de que sociedades não ocidentais se tornariam progressivamente mais semelhantes às democracias liberais do Ocidente com o desenvolvimento econômico. Huntington discordava dessa visão, argumentando que países poderiam se modernizar, enriquecer e se integrar à economia global sem abandonar suas tradições culturais e políticas. Para ele, o próprio desenvolvimento poderia, em alguns casos, fortalecer identidades nacionais preexistentes.
A China se tornou o exemplo mais emblemático dessa hipótese. O país construiu uma economia complexa, desenvolveu alta capacidade tecnológica e formou uma vasta classe média urbana, tudo isso sem adotar o pluralismo político ocidental. A Rússia também seguiu um caminho semelhante. Após um período de aproximação com o Ocidente nos anos 1990, sob Vladimir Putin, o país passou a enfatizar seus elementos nacionais, religiosos e civilizacionais. Na Turquia, Recep Tayyip Erdoğan afastou-se do secularismo tradicional, aproximando o discurso político da identidade islâmica nacional.
A Primavera Árabe, embora inicialmente vista como um movimento pró-democracia, reforçou a complexidade desse cenário. Em muitos países, os protestos resultaram em guerras civis, ascensão de regimes autoritários ou instabilidade prolongada, demonstrando que a modernização econômica e a integração tecnológica não garantem homogeneização cultural nem convergência política. A diversidade de caminhos de desenvolvimento e a resiliência das identidades locais foram mais fortes do que as expectativas liberalizantes.
4. O mundo islâmico como epicentro de conflitos regionais e migratórios
Um dos pontos mais controversos da análise de Huntington foi sua observação sobre o crescimento populacional no mundo islâmico. Ele alertou que mudanças demográficas aceleradas poderiam intensificar tensões regionais, crises migratórias e conflitos em “zonas de contato” entre civilizações, cunhando o termo “fronteiras sangrentas do Islã”. Essa tese foi considerada alarmista por muitos à época.
No entanto, o cenário descrito por Huntington em parte se materializou nas décadas seguintes. Guerras civis, radicalização religiosa e colapsos econômicos em regiões como o Oriente Médio, o Sahel e o Afeganistão geraram grandes fluxos migratórios em direção à Europa. Em 2015, mais de um milhão de migrantes e refugiados chegaram ao continente europeu pelo Mediterrâneo, provocando impactos políticos imediatos, como o crescimento de partidos nacionalistas e movimentos anti-imigração, reacendendo o debate sobre fronteiras e identidade nacional.
O conceito de “fronteiras sangrentas” permanece controverso e não deve ser visto como a única explicação para os conflitos. Fatores econômicos, rivalidades regionais e disputas geopolíticas continuam sendo cruciais. Ainda assim, Huntington antecipou com precisão o crescente peso dos fatores culturais e religiosos na instabilidade internacional, uma previsão que se mostrou mais precisa do que muitos de seus críticos esperavam.
5. A tendência de guerras atraírem aliados baseados em afinidade civilizacional
Uma das ideias mais originais de Huntington foi o conceito de “fault line wars”, ou guerras em linhas de falha civilizacionais, que tendem a atrair apoio de países culturalmente próximos. Ele observou esse padrão na Guerra da Bósnia nos anos 1990, onde países ortodoxos apoiaram os sérvios, enquanto nações islâmicas se alinharam aos bósnios muçulmanos. Mecanismos semelhantes foram vistos em conflitos no Cáucaso e na Caxemira.
A guerra na Ucrânia reabriu o debate sobre essa interpretação. Huntington classificou a Ucrânia como um “país dilacerado”, dividido entre influências ocidentais e a tradição ortodoxa russa. Embora a tese seja discutível e não explique sozinha a totalidade do conflito iniciado em 2022, a dinâmica internacional da guerra reproduziu parcialmente o padrão descrito por Huntington. Países ocidentais apoiaram Kiev, enquanto a Rússia aprofundou laços com China, Irã e Coreia do Norte, evidenciando a influência de afinidades históricas e culturais.
Em diversos conflitos recentes, as afinidades históricas, culturais e religiosas demonstraram pesar tanto quanto, e por vezes mais do que, os interesses estratégicos tradicionais. Essa dinâmica sugere que a projeção de Huntington sobre a formação de coalizões baseadas em laços civilizacionais, embora simplificadora, capturou uma tendência persistente nas relações internacionais.
Legado incômodo e relevante de Huntington
Samuel Huntington simplificou o mundo em muitos aspectos, ignorando divisões internas significativas dentro de cada civilização e a complexidade multifacetada da política internacional do século XXI. Sua teoria não oferece uma explicação exaustiva de todos os eventos globais.
No entanto, uma parte essencial de sua percepção resistiu ao teste do tempo. A religião, a cultura e a identidade continuam a moldar a política global de maneira muito mais intensa do que o otimismo liberal dos anos 1990 imaginava. Trinta anos depois, o legado mais incômodo e, paradoxalmente, mais preciso de “O Choque de Civilizações” parece ser justamente essa constatação: a persistência e a crescente importância das identidades civilizacionais no palco mundial.