O que é o Conselho da Paz de Trump e por que ele é tão polêmico?
Um acordo histórico entre o Hamas e o Conselho da Paz, um órgão internacional criado pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, promete o “desarmamento total” do grupo e um plano gradual para a retirada das forças israelenses de Gaza. O conselho descreve o pacto como um marco, mas a iniciativa já gera controvérsias significativas, levantando questionamentos sobre sua legitimidade, representatividade e o impacto em instituições globais como a ONU.
A proposta do Conselho da Paz surgiu em setembro de 2025, como parte de um plano de paz mais amplo do governo Trump para encerrar o conflito de dois anos entre Israel e o Hamas, além de supervisionar a reconstrução da Faixa de Gaza. Embora a ideia tenha sido endossada por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, a carta constitutiva do órgão não menciona explicitamente Gaza ou os territórios palestinos, alimentando temores de um escopo mais amplo que poderia sobrepor funções tradicionais da própria ONU.
Lançado formalmente em janeiro, à margem do Fórum Econômico Mundial em Davos, o conselho tem Donald Trump como presidente vitalício, conferindo-lhe ampla autoridade decisória. Para adesão permanente, é exigida uma taxa de US$ 1 bilhão, um valor que já excluiu alguns potenciais membros, como o Canadá. Conforme informações divulgadas pela BBC e outras fontes internacionais, a polêmica em torno do Conselho da Paz reside em sua estrutura, composição e nos objetivos declarados, que divergem em alguns pontos do consenso internacional.
Origem e Estrutura do Conselho da Paz de Trump
A gênese do Conselho da Paz remonta ao final de setembro de 2025, quando o governo do então presidente Donald Trump apresentou um plano de paz de 20 pontos com o objetivo de pôr fim à guerra entre Israel e o Hamas. Uma das peças centrais desse plano era a criação de um órgão internacional para supervisionar não apenas o cessar-fogo, mas também a complexa e dispendiosa reconstrução da Faixa de Gaza. A iniciativa, posteriormente, recebeu o endosso de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, conferindo-lhe um certo grau de legitimidade internacional.
No entanto, a redação da carta constitutiva do Conselho da Paz gerou preocupações. A ausência de menções explícitas a Gaza ou aos territórios palestinos levantou o receio de que o órgão pudesse ter um escopo de atuação mais amplo do que o pretendido, potencialmente assumindo ou ofuscando funções historicamente desempenhadas pela Organização das Nações Unidas. A formalização da iniciativa ocorreu quatro meses após sua proposição, em 22 de janeiro, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.
A estrutura do Conselho da Paz confere a Donald Trump um papel de presidente vitalício, o que lhe garante uma autoridade considerável nas tomadas de decisão. Para que um país se torne membro permanente, é necessário o pagamento de uma taxa de adesão de US$ 1 bilhão. Essa exigência financeira, somada a outros fatores, contribuiu para a composição heterogênea e as controvérsias que cercam o órgão desde sua concepção.
Quem são os Membros e Quais as Exclusões Notáveis?
O Conselho da Paz convidou 60 países para participar de sua iniciativa, e mais de 20 aceitaram o convite até o momento. Entre os membros confirmados estão nações com relevância regional e internacional no contexto do Oriente Médio, como Israel, Catar, Arábia Saudita, Turquia e Egito. A participação desses países indica um interesse em contribuir para a estabilidade da região e a reconstrução de Gaza, embora suas próprias relações e políticas possam adicionar camadas de complexidade ao processo.
Por outro lado, a ausência de alguns dos principais aliados europeus dos Estados Unidos, como o Reino Unido e a França, é notável. Esses países manifestaram preocupação de que o Conselho da Paz pudesse minar o papel e a autoridade da Organização das Nações Unidas. China e Rússia também não aderiram ao grupo, apesar de Donald Trump ter estendido um convite ao presidente russo, Vladimir Putin. A decisão de não participar por parte dessas potências globais sinaliza uma divisão na abordagem internacional para a resolução do conflito e a reconstrução de Gaza.
Outro caso emblemático é o do Canadá. O país foi convidado, chegou a sinalizar interesse, mas teve seu convite retirado por Trump sem explicações. A condição imposta ao Canadá, que não estava disposto a pagar a taxa de adesão de US$ 1 bilhão, parece ter sido um fator determinante. O Brasil, representado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também foi convidado, mas condicionou sua participação à inclusão de representantes palestinos, argumentando que um conselho de paz não deveria excluir os diretamente envolvidos. Lula chegou a criticar a iniciativa, afirmando que Trump parecia querer “ser dono da ONU”.
Os Conselhos Executivos: Composição e Controvérsias
Em paralelo ao Conselho da Paz principal, foram anunciados dois conselhos executivos subordinados, com responsabilidades específicas: o Founding Executive Board (Conselho Executivo Fundador) e o Gaza Executive Board (Conselho Executivo de Gaza). O primeiro, com foco em investimentos e diplomacia de alto nível, será presidido pelo próprio Donald Trump e composto por nove membros. Entre eles, destacam-se o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, o enviado especial dos EUA para o Oriente Médio, Steve Witkoff, Jared Kushner, genro de Trump, e o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair.
A inclusão de Tony Blair tem sido particularmente criticada, dada sua controversa participação na decisão de levar o Reino Unido à Guerra do Iraque em 2003, baseada em alegações de armas de destruição em massa que se provaram falsas. Essa escolha levanta dúvidas sobre os critérios de seleção e a experiência que o conselho busca. O Gaza Executive Board, por sua vez, terá a responsabilidade de supervisionar todo o trabalho em campo, incluindo a governança temporária e a reconstrução do território, sob a égide do Comitê Nacional para a Administração de Gaza.
Um ponto crucial de controvérsia é a **ausência total de representantes palestinos nos conselhos executivos**. Essa exclusão tem sido amplamente criticada por políticos palestinos e por observadores internacionais, que a veem como uma falha fundamental em um processo que deveria envolver diretamente os afetados pelo conflito. Políticos israelenses também expressaram descontentamento com a composição dos conselhos executivos, afirmando que ela não foi coordenada com Israel e contraria a política do governo. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, chegou a declarar que Gaza deveria ser “limpa de terroristas do Hamas”, em vez de ter “comitês administrativos”.
A Reconstrução de Gaza: Custos e Desafios
A tarefa de reconstruir a Faixa de Gaza é monumental, com estimativas apontando para um custo superior a US$ 70 bilhões, segundo uma avaliação conjunta da ONU, União Europeia e Banco Mundial realizada no ano passado. A destruição em Gaza é vasta, com cerca de 80% dos edifícios danificados ou destruídos, gerando aproximadamente 61 milhões de toneladas de escombros. Milhares de famílias permanecem deslocadas, enfrentando condições precárias, especialmente durante o inverno, com abrigo limitado e escassez de alimentos.
O cessar-fogo mediado pelos EUA, que entrou em vigor em outubro, buscou interromper mais de dois anos de combates intensos entre Israel e o Hamas. Apesar da diminuição da violência em larga escala, o conflito resultou na morte de pelo menos 1.168 palestinos em ataques israelenses, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas, cujos números são considerados confiáveis pela ONU. A escala da destruição e a crise humanitária em curso exigem um esforço de reconstrução sem precedentes e um plano de paz sustentável.
Durante a cerimônia de assinatura do Conselho da Paz em Davos, Jared Kushner apresentou um “plano diretor” para Gaza que incluía projetos ambiciosos como arranha-céus, novas cidades e uma zona turística costeira. Ele estimou que a construção poderia levar de dois a três anos e exigir um investimento de pelo menos US$ 25 bilhões, com a ajuda humanitária sendo a prioridade imediata. A viabilidade e a aceitação desse plano, contudo, dependem de um processo político inclusivo e da resolução das questões fundamentais do conflito.
Por Que o Conselho da Paz é Considerado Polêmico?
A iniciativa do Conselho da Paz de Trump tem sido alvo de críticas contundentes, que abrangem desde questões de legitimidade e representatividade até preocupações sobre seu potencial de enfraquecer instituições internacionais estabelecidas. Embora Trump apresente o conselho como um futuro mediador de conflitos, muitos aliados dos EUA alertam que ele pode atuar como um instrumento pessoal, sem mecanismos de responsabilização claros perante os palestinos ou a própria ONU.
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, descreveu o Conselho da Paz como um “instrumento pessoal de Trump”, criticando a falta de mecanismos de responsabilização e a omissão de elementos cruciais presentes na resolução do Conselho de Segurança da ONU que apoiava a criação de um conselho temporário para Gaza, incluindo participação palestina e referência explícita ao território. “Acho que existe uma resolução do Conselho de Segurança, mas o Conselho da Paz não a reflete”, afirmou Kallas.
A ausência de representantes palestinos nos conselhos executivos é um dos pontos mais criticados. O político palestino Mustafa Barghouti lamentou que o conselho pareça ser “basicamente um conselho americano, com alguns elementos internacionais”, e que os palestinos esperavam “uma representação muito mais ampla”. Ele também apontou como problemático o fato de o papel do grupo administrativo palestino, aprovado em negociações no Cairo, não estar claro. A inclusão de membros israelenses nos conselhos executivos, como o bilionário Yakir Gabay e o capitalista de risco Michael Eisenberg, e a participação de países como Catar e Turquia, que têm criticado a atuação de Israel em Gaza, também geraram críticas entre políticos israelenses, que viram a composição como um “fracasso diplomático para Israel”.
A ONU e o Conselho da Paz: Relação e Potencial Conflito
A relação entre o Conselho da Paz de Trump e a Organização das Nações Unidas é um dos focos centrais da polêmica. Críticos alertam que a nova entidade pode não apenas ofuscar, mas também minar o papel do Conselho de Segurança da ONU, que é o principal órgão responsável pela manutenção da paz e segurança internacionais e pela aplicação de sanções. Essas preocupações são agravadas pelo histórico do governo Trump, que já havia reduzido o financiamento dos EUA para a ONU e retirado o país de 31 entidades da organização, alegando que operavam contra os interesses nacionais americanos.
Apesar das críticas, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, declarou em abril estar cooperando com o Conselho da Paz em relação a Gaza. Essa cooperação, no entanto, não dissipa as dúvidas sobre a autonomia e a complementaridade das duas entidades. A resolução do Conselho de Segurança da ONU que apoiou a criação de um conselho temporário para Gaza previa explicitamente a participação palestina e uma referência clara ao território, elementos que, segundo Kaja Kallas, da União Europeia, foram omitidos na carta constitutiva do Conselho da Paz de Trump.
A falta de clareza sobre como o Conselho da Paz se integrará ou coexistirá com os mecanismos existentes da ONU levanta questões sobre a governança futura de Gaza e a eficácia de longo prazo dos esforços de paz. Se o novo conselho for visto como um empreendimento pessoal de Trump, com pouca transparência e representatividade, seu potencial para alcançar uma paz duradoura e para a reconstrução sustentável de Gaza pode ser significativamente comprometido, gerando desconfiança e resistência por parte dos atores regionais e internacionais.
O Futuro do Conselho da Paz e a Busca por Estabilidade
O Conselho da Paz de Trump surge em um momento de profunda crise humanitária e política em Gaza, com a necessidade urgente de reconstrução e de um cessar-fogo duradouro. A promessa de “desarmamento total” do Hamas e a retirada israelense representam um avanço potencial, mas a viabilidade desses objetivos depende de uma série de fatores complexos, incluindo a aceitação de todas as partes envolvidas e a construção de confiança mútua.
A iniciativa busca apresentar uma nova abordagem para a resolução de conflitos e a reconstrução pós-conflito, centrada em investimentos privados e em um plano de desenvolvimento ambicioso. No entanto, a polêmica em torno de sua criação, a exclusão de atores-chave como os palestinos e as preocupações sobre o enfraquecimento da ONU lançam uma sombra sobre seu futuro. A comunidade internacional observará atentamente se o Conselho da Paz conseguirá superar suas controvérsias e entregar resultados concretos para a estabilidade e a prosperidade de Gaza, ou se se tornará mais um capítulo na complexa e dolorosa história do conflito israelo-palestino.
O sucesso do Conselho da Paz, caso venha a ocorrer, dependerá de sua capacidade de adaptação, de incorporar as preocupações dos palestinos e de trabalhar em colaboração com as estruturas internacionais existentes, em vez de tentar substituí-las. A reconstrução de Gaza é um desafio que exigirá um esforço global coordenado e inclusivo, e a forma como o Conselho da Paz se posicionará nesse cenário determinará seu legado e sua real contribuição para a paz na região.