China enfrenta o pior índice de natalidade desde 1949, com famílias e governo preocupados com o futuro demográfico do país.

A China registrou em 2025 a menor taxa de natalidade desde a fundação da República Popular em 1949, com apenas 5,63 nascimentos por mil habitantes. O número de mortes superou os nascimentos pelo quarto ano consecutivo, resultando em uma queda populacional de 3,4 milhões de pessoas no último ano. Especialistas preveem que a população chinesa continuará a diminuir, podendo perder mais da metade de seus habitantes até o fim do século.

Esse cenário contrasta drasticamente com as projeções de apenas duas décadas atrás, quando se esperava que a população atingisse 1,5 bilhão de pessoas até 2033. A queda abrupta levanta questões sobre a precisão das previsões e a eficácia das políticas governamentais para incentivar o crescimento populacional.

As autoridades chinesas agora buscam reverter essa tendência, mas enfrentam desafios complexos, incluindo o desequilíbrio de gênero, a pressão econômica sobre as famílias e a mudança de prioridades dos jovens. As informações são baseadas em reportagem da BBC News China.

A “Aposta no Baby Boom”: Como a Política do Filho Único Moldou a Demografia Chinesa

No final dos anos 1970, com a população chinesa aproximando-se de um bilhão, o governo de Deng Xiaoping implementou a controversa política do filho único em 1979. O objetivo era frear o crescimento populacional, visto como um obstáculo ao desenvolvimento econômico. A política oferecia incentivos financeiros e trabalhistas para famílias que tivessem apenas um filho, ao mesmo tempo em que aplicava multas e, em alguns casos, medidas coercitivas como abortos forçados e esterilizações.

Estima-se que a política tenha evitado o nascimento de cerca de 400 milhões de bebês, mas seu impacto no equilíbrio geracional e social foi profundo. Com o tempo, a preocupação mudou do excesso de nascimentos para o envelhecimento da população, com a consequente redução da força de trabalho e o aumento da proporção de pensionistas em relação aos contribuintes.

Especialistas em planejamento populacional por anos acreditaram que a baixa taxa de natalidade era temporária, prevendo uma recuperação após o relaxamento das restrições. Um relatório de 2007, compilado por mais de 300 especialistas, indicava um forte “potencial de recuperação” e alertava contra a flexibilização apressada das políticas de controle.

O Declínio Constante: Fatores Sociais e Econômicos Além da Política Governamental

Contrariando as expectativas de recuperação, a China tem visto um declínio constante na taxa de natalidade desde muito antes da política do filho único ser implementada, segundo o professor Kerry Brown, diretor do Instituto Lau China do King’s College de Londres. Ele aponta que a taxa de fertilidade já vinha caindo desde o início dos anos 1970, com o pico de crescimento populacional em termos de filhos por família ocorrendo nas décadas de 1950 e 1960.

A partir dos anos 1980, uma série de fatores, incluindo razões financeiras e o alto custo de vida, levaram cada vez mais pessoas a optar por ter apenas um ou dois filhos, independentemente da política governamental. “Acho que o partido pode não ter realmente entendido as dificuldades econômicas enfrentadas pelas famílias para criar seus filhos e como é prioritário para elas decidir se conseguirão fazer isso bem ou se não terão filhos”, afirma Brown.

O professor destaca que essas mudanças, observadas mundialmente, ocorreram na China com uma rapidez surpreendente. A economia chinesa passou por transformações radicais em questão de meses ou anos, enquanto os efeitos das políticas demográficas se desenvolvem ao longo de décadas, pegando o governo de surpresa com a velocidade das mudanças socioeconômicas.

A “Crise dos Solteiros”: Desequilíbrio de Gênero e o Legado da Política do Filho Único

A política do filho único deixou um legado duradouro no equilíbrio de gênero na China. A preferência cultural por filhos homens, combinada com a restrição a um único filho, levou em muitos casos ao aborto seletivo de fetos femininos. Essa prática distorceu a proporção entre homens e mulheres, criando uma “crise de solteiros” com dezenas de milhões de homens que não conseguem encontrar parceiras.

O aumento do acesso à educação superior também remodelou o mercado de casamentos. Com mais mulheres do que homens cursando universidades, homens com menor nível de formação passaram a enfrentar dificuldades para encontrar noivas. Brown descreve esse fenômeno como o de “homens dos galhos vazios”, uma metáfora para homens incapazes de encontrar parceiras e gerar descendência, comparável ao movimento incel no Ocidente.

Por outro lado, mulheres com alto nível de educação passaram a adiar o casamento ou a optar por não se casar. A imprensa estatal chinesa chegou a cunhar o termo depreciativo shèngnǚ (剩女), “solteirona”, para se referir a essas mulheres, discriminadas por darem prioridade à carreira em detrimento do casamento e da estabilização familiar. Em 2023, 43% das mulheres chinesas entre 25 e 29 anos eram solteiras, reduzindo ainda mais a janela para terem filhos e impactando negativamente a taxa de natalidade.

As Políticas de Incentivo ao “Baby Boom”: Bônus, “Taxa das Camisinhas” e Seus Fracassos

Diante da queda acentuada da natalidade, Pequim tem implementado diversas medidas para reverter o quadro. Uma delas é a oferta de incentivos financeiros, como um bônus anual de 3,6 mil yuans (aproximadamente US$ 500) para cada filho com menos de três anos. Contudo, esses incentivos têm se mostrado insuficientes para mudar o comportamento da população.

Algumas medidas controversas também surgiram, como a “taxa das camisinhas”, um imposto de 13% introduzido este ano sobre contraceptivos, incluindo preservativos, dispositivos e pílulas anticoncepcionais. Essa decisão gerou preocupações sobre o aumento da gravidez indesejada e dos índices de HIV, além de ser vista por muitos como uma tentativa equivocada de incentivar a natalidade, ignorando as verdadeiras razões que levam os jovens a não querer ter mais filhos.

A principal barreira, segundo muitos jovens chineses, continua sendo os altos custos associados à criação dos filhos. Mesmo com as políticas de incentivo, a realidade econômica e as pressões sociais impedem que muitos casais realizem o desejo de ter mais filhos.

Histórias Reais: Os Custos da Paternidade e a Hesitação em Ter Mais Filhos

As dificuldades enfrentadas por casais chineses são ilustradas por histórias como a de Millie, controladora de tráfego aéreo em Pequim. Após ter seu primeiro filho há 10 anos, ela considera ter um segundo, mas hesita. Durante a pandemia, a falta de apoio familiar (mãe e sogra impossibilitadas de ajudar devido a restrições de viagem) e a necessidade de conciliar trabalho e cuidados com o filho evidenciaram a dificuldade de equilibrar a vida profissional e familiar. “Existe uma regra implícita de que a vida familiar não deve interferir com as obrigações do trabalho”, relata Millie, que teme a falta de flexibilidade e apoio para um segundo filho.

Li Hongfei, dono de uma produtora de vídeos em Chongqing, compartilha uma perspectiva semelhante. Casado há 10 anos e pai de uma filha nascida durante a pandemia, ele e sua esposa consideraram ter um segundo filho, mas as pressões financeiras se tornaram um obstáculo intransponível. “Meu trabalho vem diminuindo, mas o custo de manutenção da empresa permanece o mesmo. As mensalidades da minha filha estão subindo e minhas economias estão acabando”, descreve Li, que vê a possibilidade de ter um segundo filho como cada vez mais improvável.

Esses relatos evidenciam que, apesar das campanhas governamentais sobre a importância patriótica de ter filhos, a realidade econômica e as demandas da vida moderna pesam mais nas decisões dos jovens chineses. O governo, por sua vez, tem um alcance limitado em forçar as pessoas a terem filhos.

O Futuro Demográfico da China: Envelhecimento Precoce e Desafios Globais

Com uma taxa de fertilidade de cerca de um filho por mulher, a China está muito abaixo dos 2,1 filhos por mulher necessários para manter sua população estável. O declínio populacional traz consigo sérias consequências socioeconômicas para a segunda maior economia do mundo, como o esgotamento da força de trabalho e a diminuição da demanda dos consumidores. Esse cenário pode ter um efeito cascata na economia global, potencialmente gerando aumentos de preços em outras partes do mundo.

O perigo para a China reside no fato de que o país está envelhecendo antes de enriquecer. Embora outras economias asiáticas e de outros continentes também apresentem baixas taxas de natalidade, elas o fazem em um estágio de maior desenvolvimento econômico, o que lhes confere mais margens para gerenciar o desequilíbrio causado pelo envelhecimento populacional. A China, por outro lado, enfrenta o desafio de prover assistência social e pensões para uma população idosa crescente sem ter atingido o nível de riqueza necessário.

A Academia Chinesa de Ciências Sociais já alertou que os recursos para as pensões podem estar diminuindo, pressionando o governo a encontrar soluções urgentes. Apesar dos desafios, o professor Kerry Brown expressa um otimismo cauteloso, sugerindo que a China poderá utilizar a tecnologia e seu poder político para encontrar soluções. “Acho que as pessoas costumam ter ideias pessimistas sobre a capacidade da China de fazer as coisas. Mas, no fim, eles acabam encontrando uma solução”, conclui Brown, indicando a resiliência e a capacidade de adaptação do país diante de seus complexos problemas demográficos.

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