Acordo de Paz com as Farc molda eleição presidencial colombiana em disputa acirrada
A Colômbia se prepara para o segundo turno de sua eleição presidencial neste domingo (21), em um cenário de intensa polarização. A disputa entre o senador esquerdista Iván Cepeda, apoiado pelo atual presidente Gustavo Petro, e o advogado nacionalista de direita Abelardo de la Espriella reflete as profundas divisões do país, com a segurança pública emergindo como a principal preocupação e o acordo de paz com as Farc, que completa uma década em 2026, exercendo uma influência decisiva.
Cepeda, com histórico como ativista de direitos humanos e participante das negociações de paz, defende a continuidade da política de “Paz Total” de Petro, que visa acordos com diversos grupos armados. Em contrapartida, Espriella advoga por uma postura mais dura, rejeitando negociações e priorizando o enfrentamento militar, argumentando que os acordos anteriores foram um “desfile de impunidade”.
As divergências entre os candidatos extrapolam a política externa e a economia, concentrando-se na forma como a Colómbia deve lidar com a violência e os grupos armados. A polarização é alimentada por acusações mútuas, com a direita acusando Cepeda de ligações com as Farc e a esquerda apontando vínculos de Espriella com grupos paramilitares. Conforme análises de especialistas em segurança e política colombiana, esta eleição se tornou um “plebiscito sobre segurança”.
Segurança Pública: O Eixo da Polarização Eleitoral
A questão da segurança pública emergiu como o principal motor da polarização na atual eleição presidencial colombiana. A população, marcada por décadas de conflito armado, demonstra uma preocupação profunda com a violência, o que coloca o legado e o futuro do acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colómbia (Farc) no centro do debate.
O pacto de paz, que em 2026 completará dez anos, é visto de maneiras radicalmente opostas pelos dois candidatos. Iván Cepeda, com sua experiência nas negociações e como defensor da “Paz Total” do presidente Petro, aposta na continuidade do diálogo e na reintegração de grupos armados. Ele argumenta que a pacificação é um processo contínuo que requer a presença do Estado e reformas sociais.
Por outro lado, Abelardo de la Espriella e seu movimento “Defensores da Pátria” defendem uma abordagem de “lei e ordem”, considerando que qualquer forma de negociação com grupos armados resultou em impunidade. A plataforma de Espriella prega uma ofensiva militar enérgica contra guerrilhas e grupos criminosos, com o objetivo de “impor a ordem” e “recuperar a honra” do país. Essa divergência fundamental sobre a estratégia de segurança molda o eleitorado e as propostas de cada candidato.
O Legado do Acordo de Paz e Suas Críticas
O acordo de paz assinado em 2016 entre o governo colombiano e as Farc visava encerrar mais de meio século de conflito armado. No entanto, dez anos após sua implementação, o país ainda enfrenta desafios significativos em relação à segurança e à consolidação da paz.
Críticos, como o movimento de Abelardo de la Espriella, argumentam que o acordo abriu caminho para a impunidade e não resolveu os problemas estruturais que alimentam a violência. A persistência de grupos dissidentes das Farc, a atuação do Exército de Libertação Nacional (ELN) e a expansão do narcotráfico são frequentemente citados como evidências de que a pacificação está incompleta. O discurso de Espriella ressoa com uma parcela da população que se sente insegura e frustrada com a lentidão dos resultados do processo de paz.
Por outro lado, os defensores do acordo, como Iván Cepeda, destacam os avanços obtidos, como a desmobilização de milhares de combatentes e a redução de certos tipos de violência. Eles argumentam que a “Paz Total” busca justamente abordar as causas profundas do conflito, incluindo a desigualdade social e a falta de presença do Estado em regiões remotas. A visão de Cepeda é de que a paz é um processo complexo que exige paciência, negociação e a construção de confiança.
A Taxa de Homicídios e a Percepção de Insegurança
Os dados sobre homicídios na Colômbia, embora tenham diminuído em comparação com o pico do conflito armado no início dos anos 2000, permanecem em um nível preocupante. Segundo o Banco Mundial, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes se manteve estagnada em torno de 25 nos últimos anos, um índice considerado epidêmico pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que considera taxas acima de dez como um sinal de violência generalizada.
Essa estatística, combinada com a ocorrência de crimes de grande repercussão, como o atentado que vitimou o senador Miguel Uribe Turbay e o ataque a bomba no departamento de Cauca, alimenta a percepção de insegurança entre a população. Para muitos colombianos, a situação atual sugere que as promessas de pacificação não foram totalmente cumpridas, e que a ameaça de grupos armados e criminosos ainda é real e presente.
A liderança de Abelardo de la Espriella nas pesquisas reflete, em parte, essa insatisfação com o status quo da segurança. Seu discurso de linha dura e a promessa de uma ação mais enérgica contra a violência encontram eco em um eleitorado que anseia por mais ordem e estabilidade. A comparação com o modelo de segurança implementado em El Salvador pelo presidente Nayib Bukele, com sua política de “mão dura” contra gangues, é frequentemente evocada nesse contexto.
A Influência da “Paz Total” e a Proposta de “Ordem e Progresso”
A política de “Paz Total”, implementada pelo governo de Gustavo Petro, busca negociar acordos com diversos grupos armados, incluindo o ELN e remanescentes de outras organizações. Iván Cepeda, como principal expoente dessa linha, defende a continuidade dessa abordagem, acreditando que a negociação é o caminho para desmobilizar grupos e reintegrá-los à sociedade.
Para Cepeda e seus apoiadores, a “Paz Total” é uma estratégia abrangente que visa não apenas o fim da violência, mas também a promoção de justiça social, a reforma agrária e a expansão dos serviços públicos em regiões historicamente marginalizadas. A ideia é que a pacificação só será duradoura se as causas profundas do conflito forem abordadas.
Em contrapartida, Abelardo de la Espriella propõe uma visão oposta, centrada na “ordem e progresso”. Seu discurso é de que a única forma de garantir a segurança é através do fortalecimento do Estado e da imposição da lei, sem concessões a grupos criminosos. A proposta de “megaprisões” e uma ofensiva militar implacável contra todos os grupos armados são bandeiras de sua campanha, atraindo o apoio daqueles que veem a negociação como um sinal de fraqueza do Estado.
Acusações Mútuas e a Divisão do Eleitorado
A campanha eleitoral tem sido marcada por acusações mútuas entre os candidatos e seus apoiadores, evidenciando a profunda polarização. A direita colombiana acusa Iván Cepeda de ter ligações com as Farc e com as dissidências que não aderiram ao acordo de paz. Essa narrativa busca associar o candidato esquerdista a grupos que ainda representam uma ameaça à segurança do país.
Por sua vez, a campanha de Cepeda aponta supostos vínculos de Abelardo de la Espriella com grupos paramilitares, que historicamente atuaram em paralelo ou em conflito com as guerrilhas, e que também são responsáveis por graves violações de direitos humanos. Essas acusações visam questionar a legitimidade e as intenções do candidato de direita.
Essa polarização é um reflexo da memória coletiva do povo colombiano, marcada pelo trauma do conflito armado, pelo narcotráfico e pela violência. A escolha entre negociar ou reprimir, entre a “Paz Total” ou a “ordem”, torna-se um dilema central para os eleitores, que buscam a melhor forma de construir um país seguro e pacífico após décadas de violência.
O Papel da Geopolítica e a Influência Externa
A eleição colombiana também ganha contornos geopolíticos, com a influência de potências estrangeiras sendo um fator a ser considerado. O apoio declarado do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a Abelardo de la Espriella foi denunciado pelo presidente Gustavo Petro como uma tentativa de “interferência” no processo eleitoral colombiano.
Essa aliança sugere uma aproximação da Colómbia com a agenda de segurança promovida pelos Estados Unidos sob a administração Trump, que historicamente priorizou o combate ao narcotráfico e a repressão a grupos armados. Para Trump e seus aliados, a eleição de Espriella representaria um retorno a uma política externa mais alinhada com os interesses americanos em termos de segurança.
Por outro lado, a continuidade da política de Petro, representada por Cepeda, aponta para uma busca por maior autonomia na política externa colombiana e para a priorização de soluções internas para os desafios do país. A decisão dos eleitores colombianos terá implicações significativas para as relações da Colómbia com seus vizinhos e com as potências globais, definindo o tipo de país que emergira do pós-Farc.
O Futuro da Paz e a Escolha do Povo Colombiano
O segundo turno da eleição presidencial na Colômbia representa um momento crucial para o futuro do país. A escolha entre Iván Cepeda e Abelardo de la Espriella não é apenas uma disputa entre dois projetos políticos distintos, mas sim um referendo sobre o caminho que a Colômbia deverá seguir para consolidar a paz e garantir a segurança de seus cidadãos.
A população colombiana terá que ponderar os resultados e as promessas do acordo de paz com as Farc, a persistência da violência e as diferentes visões sobre como lidar com os grupos armados. A decisão final refletirá o desejo do país por estabilidade, justiça e um futuro livre do medo, moldado pelas complexas lições do passado recente.
A eleição é, em essência, um debate sobre a memória, o trauma compartilhado e a visão de país que se deseja construir. A forma como a Colômbia responderá a este dilema terá implicações profundas não apenas para a segurança interna, mas também para sua posição no cenário regional e internacional, especialmente no contexto do pós-Farc.