A qualidade do sono tem um impacto direto na saúde do cérebro, e um novo estudo acende um alerta sobre a ligação entre dormir mal e o risco de desenvolver a doença de Parkinson.

A apneia obstrutiva do sono, um distúrbio comum que interrompe a respiração durante o repouso, tem sido associada a um risco significativamente maior para essa condição neurológica crônica.

Essa conexão alarmante foi detalhada em uma pesquisa publicada no JAMA Neurology, liderada pela Universidade de Saúde e Ciência de Oregon (OHSU) e o Sistema de Saúde do Veteran Affairs de Portland, nos Estados Unidos, conforme informações divulgadas pelo estudo.

O que é apneia do sono e como ela afeta o cérebro?

A apneia obstrutiva do sono (AOS) ocorre quando os músculos da garganta relaxam excessivamente durante o sono, bloqueando as vias aéreas e impedindo a passagem do ar para os pulmões. Para compensar a falta de oxigênio, o cérebro força o corpo a acordar repetidamente, gerando os chamados “microdespertares”, muitas vezes sem que a pessoa perceba.

Esse sono fragmentado impede que o indivíduo atinja os estágios mais profundos, essenciais para a “limpeza” de toxinas acumuladas no sistema nervoso central ao longo do dia. O distúrbio se torna mais frequente após os 40 anos, devido ao envelhecimento natural dos tecidos e à perda de firmeza da musculatura da faringe.

Além disso, alterações metabólicas e o ganho de peso podem aumentar o volume de tecido no pescoço, estreitando ainda mais a passagem de ar. As consequências de dormir mal devido à apneia vão além do cansaço, incluindo irritabilidade, dificuldade de concentração, falhas de memória e aumento do risco de acidentes, conforme alerta Rubens Giberty, neurologista especialista em doença de Parkinson.

A condição também afeta a saúde cardiovascular, pois o esforço constante para respirar eleva a pressão arterial e o risco de problemas cardíacos. O corpo permanece em estado de alerta, impedindo o relaxamento profundo necessário para a restauração do organismo. Para evitar esses danos, a Academia Americana de Neurologia destaca o uso do CPAP (Continuous Positive Airway Pressure) como tratamento principal, que mantém as vias aéreas abertas mecanicamente.

A descoberta da ligação entre apneia e Parkinson

A análise dos prontuários de mais de 11 milhões de veteranos norte-americanos trouxe, pela primeira vez, embasamento para os pesquisadores entenderem a relação entre apneia do sono e a doença de Parkinson. O estudo identificou que 13,7% dos participantes receberam o diagnóstico de apneia entre 1999 e 2022.

Ao verificar a saúde desses indivíduos seis anos após o diagnóstico do distúrbio do sono, os pesquisadores notaram um padrão alarmante: os veteranos com apneia apresentavam quase o dobro da probabilidade de desenvolver a doença de Parkinson em comparação àqueles que respiravam normalmente à noite.

Para garantir a precisão, os cientistas isolaram outras variáveis, como idade, índice de massa corporal (IMC), diabetes, hipertensão e tabagismo. A associação se manteve mesmo após descontar esses fatores. Curiosamente, o efeito nocivo da apneia foi notavelmente mais forte entre as mulheres veteranas.

O ponto central da pesquisa envolve a oxigenação cerebral. Lee Neilson, neurologista da OHSU e autor principal, explica: “Se você para de respirar e o nível de oxigênio não está normal, seus neurônios provavelmente também não estão funcionando normalmente.” Neilson complementa que o efeito cumulativo é perigoso: “Somando isso noite após noite, ano após ano, pode explicar por que resolver o problema usando CPAP pode gerar alguma resistência contra doenças neurodegenerativas, incluindo Parkinson.”

Apneia causa Parkinson? O tratamento precoce é a chave

O estudo da OHSU não comprovou que a apneia do sono é a causa direta da doença de Parkinson. O que a pesquisa identificou foi uma forte associação estatística, em que a apneia atua como um fator de risco agravante. Ela cria um ambiente interno, com inflamação e falta de oxigênio, que favorece o desenvolvimento da doença em quem já pode ter predisposição.

Da mesma forma, os cientistas ressaltam que o uso do CPAP não é uma garantia de prevenção total do Parkinson. O estudo indica que o tratamento está associado a uma probabilidade menor de desenvolver a doença, sugerindo que cuidar do sono é uma estratégia válida de redução de danos e proteção da saúde cerebral, especialmente para quem tem o cérebro exposto à falta de oxigênio por dormir mal.

O levantamento trouxe um dado de esperança: o tempo de resposta importa. Aqueles que iniciaram o uso do CPAP dentro de dois anos após o diagnóstico tiveram cerca de 30% menos chance de desenvolver Parkinson. Em números absolutos, o tratamento rápido representou 2,3 casos a menos da doença a cada 1.000 pessoas.

Os pacientes que demoraram mais de dois anos para aderir ao CPAP não apresentaram essa redução estatística de risco, igualando-se aos não tratados. O pesquisador Gregory D. Scott, do Sistema de Saúde VA de Portland, reforça a importância da ação: “Embora nosso estudo tenha encontrado um risco aumentado (…), a boa notícia é que as pessoas podem fazer algo a respeito, usando CPAP assim que forem diagnosticadas.” Uma limitação apontada pelos autores é que o estudo baseou-se na posse do equipamento, não sendo possível verificar se os pacientes o utilizavam todas as noites conforme a prescrição, o que reforça a necessidade de disciplina no tratamento.

Sinais de alerta: quando procurar ajuda para o sono?

A medicina classifica a apneia em três categorias: Apneia Obstrutiva do Sono (AOS), Apneia Central e Apneia Mista. O estudo recente focou especificamente na AOS, que é a forma mais comum e ocorre pelo bloqueio físico das vias aéreas. Estima-se que a AOS afete 1 bilhão de adultos globalmente, com cerca de 425 milhões sofrendo com quadros moderados ou severos, medidos pelo índice de apneia-hipopneia.

Muitos pacientes convivem com a apneia do sono por anos sem saber, pois os sintomas ocorrem enquanto dormem ou são confundidos com o cansaço da rotina. A avaliação médica é recomendada caso a pessoa apresente:

  • Ronco alto e frequente, especialmente se for interrompido por silêncios seguidos de engasgos ou ruídos sufocantes;
  • Cansaço excessivo durante o dia, mesmo após uma noite de sono aparentemente longa;
  • Dor de cabeça matinal recorrente;
  • Alterações de humor e cognitivas, como irritabilidade, dificuldade de concentração e falhas de memória.

O tratamento precoce da apneia, seja com CPAP ou outras terapias indicadas por especialistas, mostra-se uma alternativa eficiente para proteger a saúde cognitiva na maturidade. Para quem se identifica com os sintomas, o passo mais inteligente é buscar um médico do sono. O diagnóstico correto transforma uma condição de risco em uma oportunidade de viver com mais energia e segurança neurológica para o cérebro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar

FMI Alerta: Desaceleração da Economia Brasileira em 2026 É Preocupante, com Impacto Bilionário e Reaquecimento Só em 2027

O Brasil enfrenta um cenário econômico desafiador nos próximos anos, com o…

França aciona “escudo anti-coerção” da UE contra Trump: Entenda como a Europa planeja responder à nova guerra tarifária dos EUA e proteger sua economia.

A França, por meio de seu presidente Emmanuel Macron, sugeriu recentemente à…

Executivo investigado por ligação com PCC representou fundo em aquisição de resort da família Toffoli, aponta jornal

Uma trama envolvendo figuras do mercado financeiro, investigações policiais e propriedades ligadas…

Narcotraficante ligado ao regime da Venezuela é condenado a 30 anos nos EUA: Entenda a conexão com o Cartel de los Soles

Um tribunal federal de Nova York proferiu uma sentença pesada contra Carlos…