Doutrina Donroe: Embaixadores Políticos de Trump Desafiam Diplomacia Tradicional e Moldam Relações Internacionais
A nomeação de Daniel Perez como novo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, aprovada pelo Senado americano e ainda aguardando o aval do governo Lula, é o mais recente exemplo de uma estratégia que tem marcado a política externa da gestão Donald Trump: a priorização de embaixadores com perfil político em detrimento de diplomatas de carreira.
Essa abordagem, que reflete a consolidação da chamada Doutrina Donroe, visa expandir a influência americana nas Américas, combater ameaças como o tráfico de drogas e a migração ilegal, e conter o avanço de potências como China e Rússia na região. A escolha de nomes de outros segmentos profissionais, incluindo doadores de campanha e aliados políticos, sinaliza uma mudança significativa no modus operandi diplomático de Washington.
A prática tem gerado atritos diplomáticos, como no caso do Brasil, onde a demora na concessão do agrément para Perez levou à revogação do visto da embaixadora brasileira nos EUA, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A situação espelha tensões em outros países latino-americanos e na Europa, demonstrando o alcance global dessa nova política, conforme informações divulgadas pelo jornal The Washington Post e análises de especialistas em relações internacionais.
A Ascensão da Doutrina Donroe e a Escolha de Embaixadores Políticos
A Doutrina Donroe, inspirada na histórica Doutrina Monroe do século XIX, que proclamava a América para os americanos, tem sido reinterpretada e adaptada pela gestão Trump como um pilar de sua política externa. O objetivo central é reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos nas Américas, confrontando o que a administração considera interferências indevidas de China e Rússia, além de combater flagelos como o narcotráfico e a imigração irregular.
Para Ricardo Caichiolo, professor de relações internacionais e diretor do Ibmec Brasília, essa mudança de perfil na escolha de embaixadores se deve à priorização de executivos, doadores e aliados políticos que demonstram maior lealdade e alinhamento com a agenda nacionalista e de confronto geopolítico de Trump. Essa estratégia, segundo ele, visa garantir que os enviados americanos sigam estritamente o pensamento do presidente, minimizando a moderação técnica que caracteriza os diplomatas de carreira.
A tendência é clara nos números. Dados da Associação do Serviço Exterior Americano (AFSA) revelam que, em julho, a segunda administração Trump contava com 65 embaixadores “políticos” contra apenas 25 diplomatas de carreira em postos globais. Essa inversão é notável quando comparada ao primeiro mandato de Trump, que teve 91 diplomatas de carreira e 36 indicados políticos, e ao governo de Joe Biden, com 84 diplomatas de carreira e 50 indicados políticos. A escolha de Daniel Perez, filiado ao Partido Republicano e com forte ligação com o Secretário de Estado Marco Rubio, apelidado de “Mini Rubio”, exemplifica essa dinâmica.
Impactos na América Latina: Alinhamentos e Atritos
A Doutrina Donroe, aplicada através de embaixadores com forte viés político, tem gerado reações diversas na América Latina, com a formação de alianças com governos de direita e o aprofundamento de tensões com a esquerda regional e com a China.
No Panamá, o embaixador Kevin Marino Cabrera, com histórico no Partido Republicano, estabeleceu uma parceria com o presidente José Raúl Mulino para combater o crime organizado e a imigração ilegal na região de Darién. Cabrera tem elogiado a liderança conjunta de Trump e Mulino no fechamento da área para cartéis e imigrantes ilegais, criticando as políticas de “fronteiras abertas” da gestão Biden.
Na Argentina, o embaixador Peter Lamelas, com carreira em medicina e negócios na área de saúde, alinhou-se ao presidente Javier Milei. A relação foi simbolizada por uma visita conjunta a um porta-aviões americano. Lamelas tem defendido um “alinhamento profundo e estratégico” com a Argentina, o que tem irritado a esquerda local e a China. Antes de ser confirmado, Lamelas criticou publicamente a ex-presidente Cristina Kirchner, levantando questionamentos sobre seu suposto envolvimento em casos de corrupção e no acobertamento de iranianos ligados ao atentado da AMIA. A Embaixada da China na Argentina, por sua vez, criticou Lamelas por sua oposição à tecnologia chinesa em setores estratégicos argentinos, acusando-o de agir com uma “mentalidade de Guerra Fria”.
Tensões no México: Narcotráfico e Interferência Diplomática
No México, a atuação do embaixador Ronald Johnson, com carreira nas forças armadas e na CIA, também tem gerado controvérsia. Johnson, que já foi embaixador em El Salvador durante o primeiro mandato de Trump, tem desagradado a esquerda mexicana.
Em abril, a morte de dois membros da equipe da embaixada americana e de agentes de investigação de Chihuahua em um acidente automobilístico serviu de palco para questionamentos do governo da presidente Claudia Sheinbaum e de seu partido, o Morena, sobre a presença de agentes americanos no estado. A gestão Sheinbaum solicitou esclarecimentos aos EUA e abriu uma investigação, enquanto Washington pressionou o México a intensificar o combate ao narcoturco.
Posteriormente, Johnson anunciou o oferecimento de denúncia criminal contra o então governador de Sinaloa, RubéN Rocha, do Morena, e outras nove pessoas, sob acusação de envolvimento com o Cartel de Sinaloa. A divulgação pública do processo pelo governo Trump foi criticada pelo governo Sheinbaum, que alegou violação de protocolos diplomáticos de comunicação prévia e confidencialidade, evidenciando a complexidade das relações bilaterais e a abordagem assertiva dos embaixadores nomeados.
A Doutrina Donroe Além das Américas: Europa e Outras Regiões
A estratégia de nomear embaixadores políticos com uma agenda assertiva não se restringe às Américas, estendendo-se também a outras regiões, como a Europa, onde têm surgido atritos com governos locais.
Na Bélgica, o embaixador Bill White gerou irritação no governo de centro-direita ao exigir publicamente que as autoridades retirassem um processo considerado antissemita contra líderes religiosos judeus. A polêmica envolveu acusações de circuncisões realizadas em desacordo com a legislação belga. Após o governo belga pedir que os EUA não interferissem em “assuntos internos”, White respondeu de forma contundente, criticando o ministro da Saúde belga e acusando-o de ter uma antipatia por Trump.
Essas ações, embora visem defender os interesses americanos e promover a agenda da administração, frequentemente esbarram nas convenções diplomáticas e na soberania dos países anfitriões. A atuação desses embaixadores, muitas vezes vista como mais intervencionista, contrasta com a diplomacia tradicional, que preza pelo respeito às leis e costumes locais.
Reações dos Diplomatas de Carreira e Especialistas
A ascensão de embaixadores políticos tem sido fonte de desagrado para diplomatas de carreira americanos. John Dinkelman, presidente da AFSA e um dos diplomatas afastados pela gestão Trump, ironizou a situação comparando a presença de doadores de campanha em cargos diplomáticos à situação de “benfeitores” que superam em número os “cirurgiões” em uma sala de cirurgia, sugerindo um desequilíbrio prejudicial à eficiência diplomática.
Especialistas como Ricardo Caichiolo ressaltam que, embora os embaixadores devam defender os interesses de seus países, é fundamental que respeitem a soberania local e não interfiram em escolhas soberanas de outros Estados. Declarações que criticam decisões domésticas ou criam pressão interna podem ultrapassar o papel negocial e ferir o princípio de não intervenção, conforme estabelecido pelas convenções internacionais que regem a atividade diplomática.
Apesar das críticas, o Departamento de Estado, por meio de seu porta-voz Tommy Pigott, defendeu as mudanças implementadas por Trump e Rubio. Pigott afirmou que o Departamento foi “reorganizado para garantir que aqueles que estão na linha de frente — os escritórios regionais e as embaixadas — estejam em condições de influenciar políticas públicas”. A declaração sugere que a intenção é ter representantes mais alinhados e proativos na promoção dos objetivos presidenciais, mesmo que isso gere controvérsias e desafie as normas diplomáticas estabelecidas.
O Equilíbrio entre Interesses Nacionais e Respeito à Soberania
A Doutrina Donroe, materializada pela nomeação de embaixadores políticos, levanta um debate crucial sobre o equilíbrio entre a defesa dos interesses nacionais e o respeito à soberania dos países com os quais os Estados Unidos mantêm relações diplomáticas. A abordagem assertiva, embora possa trazer resultados imediatos em áreas como segurança e combate ao crime, corre o risco de gerar atritos e minar a confiança mútua.
A atuação de embaixadores como Daniel Perez no Brasil, Peter Lamelas na Argentina e Ronald Johnson no México demonstra uma nova fase nas relações exteriores americanas, marcada por uma postura mais intervencionista e ideologicamente orientada. Essa estratégia, que visa combater a influência de rivais geopolíticos e promover a agenda doméstica, tem o potencial de remodelar alianças e gerar novas dinâmicas de poder no cenário internacional.
O futuro dirá se essa abordagem, focada em embaixadores com forte alinhamento político e dispostos a confrontar diretamente os desafios percebidos, será mais eficaz a longo prazo do que a diplomacia tradicional. A necessidade de adaptação às novas realidades globais é inegável, mas o respeito às convenções e à soberania dos Estados permanece como um pilar fundamental para a estabilidade das relações internacionais, como apontam especialistas e diplomatas de carreira.