Eduardo Bolsonaro Admite Papel em Filme do Pai Após Negação e Revelações
O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) confirmou ter assinado um contrato que lhe conferia poderes de gestão financeira sobre o filme Dark Horse, que narra a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A admissão ocorre menos de 24 horas após o próprio Eduardo ter negado, em redes sociais, qualquer envolvimento na gestão do projeto, afirmando apenas ter cedido direitos de imagem.
A reviravolta na declaração de Eduardo Bolsonaro se deu após uma reportagem do site The Intercept Brasil revelar que ele atuou como produtor-executivo do filme, ao lado do deputado federal Mario Frias (PL-SP). Documentos obtidos pelo site indicam que Eduardo possuía poder sobre a gestão financeira do projeto, incluindo decisões estratégicas de financiamento e captação de recursos.
Diante das novas informações, Eduardo Bolsonaro publicou um vídeo admitindo a assinatura de um contrato com a produtora do filme anos atrás. Ele explicou que o acordo foi feito para garantir a participação de um diretor de Hollywood na fase inicial do projeto, quando o filme ainda era um “sonho”. Segundo ele, utilizou recursos próprios, provenientes de seu projeto “Ação Conservadora”, para viabilizar o contrato com o diretor e que foi nomeado diretor-executivo por sugestão da produtora. As informações foram divulgadas pelo site The Intercept Brasil.
Detalhes do Contrato e Investimento Inicial de Eduardo Bolsonaro
Na gravação divulgada, Eduardo Bolsonaro detalhou que investiu R$ 350 mil de seus próprios recursos, que se transformaram em aproximadamente US$ 50 mil, para assegurar o acordo com um diretor de Hollywood. O objetivo era que este profissional elaborasse o roteiro e desse os primeiros passos na concepção da história, com a expectativa de atrair investidores posteriormente.
“A essa época, o meu contrato era com a produtora, que basicamente disse o seguinte: ‘Eduardo, bota esse dinheiro aqui, como o risco tá cem por cento seu, eu vou te garantir aí você ser diretor-executivo do filme’”, explicou o ex-deputado. Ele também afirmou que, após a entrada de investidores e a decisão de estruturar a produção fora do Brasil, deixou o cargo de diretor-executivo e teve o dinheiro investido devolvido.
Eduardo Bolsonaro também refutou veementemente as alegações de ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro, banqueiro preso sob acusação de fraudes bilionárias, ou de fundos sediados nos EUA. “Quem fala que Eduardo Bolsonaro recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro é mentiroso. Quem fala que Eduardo Bolsonaro recebeu dinheiro desse fundo que foi criado nos EUA está mentindo. Eu recebi o dinheiro de volta por conta do contrato com a produtora, mas isso não passou pelo fundo. E recebi o dinheiro que era meu”, declarou.
Versões e Contradições no Caso do Financiamento do Filme
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), irmão de Eduardo, comentou a reportagem em entrevista à CNN, classificando a informação como referente a um “contrato antigo”. Segundo ele, o acordo foi formalizado com a produtora muito antes da estrutura atual nos Estados Unidos e serviu como plataforma legal para Eduardo investir e garantir a participação do roteirista Cyrus Nowrasteh.
Por sua vez, o deputado Mario Frias, que também aparece em documentos relacionados ao filme, declarou em nota que “Eduardo Bolsonaro não é e nunca foi produtor-executivo da produção do filme Dark Horse”. As declarações geram um cenário de informações conflitantes sobre o papel e a participação financeira de Eduardo no projeto.
A polêmica em torno do filme se intensificou após a divulgação de um áudio em que Flávio Bolsonaro pede apoio financeiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para a produção da obra. Conforme o The Intercept Brasil, Vorcaro teria acertado o repasse de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na época, dos quais R$ 61 milhões teriam sido liberados entre fevereiro e maio de 2025.
A Conexão com Daniel Vorcaro e Cobranças de Flávio Bolsonaro
A relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro ganhou destaque após a divulgação de mensagens em que o senador pressiona o banqueiro pela liberação de valores pendentes para a conclusão do filme. Em uma das mensagens, Flávio trata Vorcaro com grande proximidade, chamando-o de “irmão” e afirmando: “Estou e estarei contigo sempre”.
Daniel Vorcaro encontra-se preso, acusado de comandar fraudes bilionárias no Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central. Ele está em negociação para um acordo de delação premiada. Flávio Bolsonaro, inicialmente, negou qualquer irregularidade em suas negociações com Vorcaro, afirmando que o contato era restrito a assuntos do filme. Posteriormente, admitiu a possibilidade de novos registros de contato e detalhou que o investimento de Vorcaro no filme teria sido de pouco mais de US$ 12 milhões, e não os US$ 24 milhões inicialmente previstos.
Parte dos valores negociados por Flávio com Vorcaro teria sido transferida para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, EUA. A Polícia Federal investiga se esses recursos foram utilizados para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, o que ambos negam veementemente. Eduardo argumentou que seu status migratório não permitiria tal uso de recursos, sob pena de punição pelo governo americano.
Contraditórias Declarações da Produtora e de Mario Frias
A produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse, negou ter recebido qualquer repasse financeiro do banqueiro Daniel Vorcaro para o projeto. Em declaração à Folha de S.Paulo, Karina Ferreira da Gama, sócia-administradora da empresa, afirmou que os investimentos são exclusivamente estrangeiros e sem ligação com Vorcaro. Essa posição contradiz as informações divulgadas sobre as negociações e os repasses financeiros.
Mario Frias, em nota divulgada em sua rede social, também reforçou que não houve participação financeira de Vorcaro na produção. Ele declarou que “não há um único centavo do Sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse” e que, mesmo que houvesse, seria uma relação estritamente privada, sem dinheiro público envolvido. Frias também acusou tentativas de descredibilizar a obra por motivações políticas e ideológicas.
As gravações do filme foram concluídas em dezembro em São Paulo e a obra entrou em fase de edição nos Estados Unidos. A divergência nas declarações entre os envolvidos e as negativas da produtora e de Mario Frias aumentam a complexidade do caso.
Mudanças na Versão de Flávio Bolsonaro e a Intermediação de Thiago Miranda
A postura de Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Daniel Vorcaro tem apresentado mudanças significativas. Inicialmente, ele negou veementemente qualquer negociação de investimento para o filme. Posteriormente, admitiu a negociação, mas a minimizou, alegando que se tratava de busca por patrocínio privado para um projeto privado.
Em entrevista à Globo News, Flávio alegou ter omitido a relação devido a um “contrato de confidencialidade”, justificando que não queria ter que explicar a relação com Vorcaro focada apenas no filme. No entanto, em entrevista posterior à CNN, ele admitiu a possibilidade de outros registros de interação com o banqueiro, como vídeos de estúdio ou encontros. Ele reafirmou que o foco era exclusivamente o filme e que não haveria “surpresinhas”.
A intermediação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para o financiamento do filme foi realizada pelo publicitário Thiago Miranda, fundador do Portal LeoDias. Segundo o Intercept, o primeiro contato ocorreu em dezembro de 2024, com um encontro organizado em Brasília. Miranda teria informado a Vorcaro que Flávio estava ciente de tudo e que o senador queria tratar do “filme do presidente”.
Detalhes das Negociações e o Valor Total do Investimento
As mensagens obtidas pelo Intercept Brasil indicam um avanço nas negociações nos meses seguintes, com um cronograma de pagamentos acompanhado por Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, que também está preso e negociando delação premiada. Inicialmente, o plano previa dez parcelas de US$ 2,5 milhões, totalizando US$ 25 milhões. Posteriormente, um documento enviado por Miranda a Vorcaro indicou uma mudança no fluxo de pagamentos para 14 parcelas, sendo 12 de US$ 1,666 milhão e duas de US$ 2 milhões, totalizando aproximadamente US$ 24 milhões.
Thiago Miranda confirmou ao jornal O Globo ter intermediado negociações que resultaram em repasses de R$ 62 milhões para a produção do filme. Ele explicou que o valor previsto seria maior, mas os repasses foram suspensos devido à crise no Banco Master. Segundo O Globo, em 2025, o Banco Master transferiu R$ 2,329 milhões diretamente à Entre Investimentos, empresa que teria sido usada para os repasses de Vorcaro para a produção.
Miranda relatou que o projeto do filme foi apresentado a ele pelo deputado Mario Frias, que buscava ajuda para o financiamento. Após conversar com diversos empresários, Miranda apresentou o projeto a Daniel Vorcaro, que demonstrou interesse em ser investidor. O contrato foi assinado, e Miranda afirmou que a ligação de Vorcaro com o filme não apareceria publicamente.
Aproximação Direta e Cobranças de Flávio a Vorcaro
A partir de 2025, a interlocução entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro tornou-se mais direta, conforme revelado pelo Intercept. O senador enviou áudios cobrando a liberação de valores pendentes, expressando preocupação com o andamento do filme e o risco de “dar calote” em profissionais renomados como o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Ele enfatizou a necessidade de honrar os compromissos na reta final da produção.
Vorcaro, em resposta, pediu desculpas e prometeu resolver a situação no dia seguinte. Registros indicam que, na mesma noite, eles realizaram uma ligação telefônica. Segundo o Intercept, Flávio e Vorcaro mantiveram contato frequente, com ligações e marcações de encontros presenciais em São Paulo. Houve também registros de áudios e conversas marcando um jantar na casa de Vorcaro para que ele conhecesse os artistas envolvidos no filme.
Em novembro de 2025, Flávio enviou um vídeo de visualização única para Vorcaro, dizendo: “Tá perdendo, irmão. Tudo isso só está sendo possível por causa de você!”. Vorcaro respondeu positivamente. Na semana seguinte, antes da primeira prisão de Vorcaro, Flávio enviou mensagens demonstrando grande proximidade, como “Fala mermao. Pode atender?” e “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.
Reações da Direita e da Esquerda à Divulgação
A divulgação dos áudios gerou reações diversas no campo político. Personalidades conservadoras, como o economista Rodrigo Constantino, questionaram a viabilidade da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. O senador Ricardo Salles manifestou apoio a Romeu Zema (Novo), outro pré-candidato à Presidência, criticando a postura de Flávio.
Romeu Zema considerou o áudio um “tapa na cara dos brasileiros de bem” e criticou a semelhança das práticas com as do PT. Ronaldo Caiado (PSD), também pré-candidato, pediu explicações a Flávio, mas defendeu a unidade da centro-direita. Aliados de Bolsonaro, como Fernando Holiday e Sostenes Cavalcante, minimizam o caso, argumentando que se trata de busca por financiamento privado para um projeto privado, sem uso de dinheiro público.
Por outro lado, políticos da esquerda reagiram com ironia e críticas. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) pediu a prisão de Flávio Bolsonaro. O ministro Guilherme Boulos ironizou a situação, e o ex-ministro Fernando Haddad questionou a normalização de pedidos de grandes somas para projetos pessoais. As revelações também levantaram dúvidas sobre a competitividade de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial, com especialistas apontando um potencial desgaste eleitoral.
Candidatura de Flávio Bolsonaro em Crise? Análises de Especialistas
Especialistas em ciência política avaliam que as revelações sobre o envolvimento de Flávio Bolsonaro no financiamento do filme Dark Horse podem aprofundar as disputas internas na direita e prejudicar a candidatura presidencial do senador. Segundo a cientista política Mayra Goulart, da UFRJ, Flávio, que apostava na transferência de votos do pai, pode ter sua estratégia abalada.
O cientista político Claudio Couto, da FGV, prevê que o episódio tem potencial para interromper o crescimento de Flávio nas pesquisas, com a possibilidade de agravamento caso novas informações venham à tona. Yuri Sanches, da Atlas/Intel, considera prematuro medir o impacto eleitoral total, mas aponta para um desgaste relevante.
A situação levanta questões sobre a ética na política e a transparência em negociações de financiamento para projetos cinematográficos, especialmente quando figuras públicas estão diretamente envolvidas. O caso Dark Horse e as revelações sobre o financiamento continuam a gerar desdobramentos e análises sobre seus impactos no cenário político brasileiro.