Alerta no Setor Elétrico: Cortes em Energia Renovável Crescem e Preocupam Especialistas
O Brasil está testemunhando um aumento alarmante nos cortes de geração de energia solar e eólica. Entre janeiro e agosto de 2026, foram registrados 51 dias em que as restrições ultrapassaram 60% da produção potencial dessas fontes limpas. Este número representa um acréscimo de 21 dias em relação ao mesmo período de 2025, o que equivale a um dia a cada cinco em que uma parcela significativa da energia renovável gerada não chega ao consumidor.
A situação é ainda mais crítica em 12 desses dias, quando as restrições superaram 80% da geração de referência, um salto considerável em comparação aos sete dias registrados no ano anterior. Esses cortes, conhecidos no setor como “curtailment”, são impostos pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para garantir a segurança e a confiabilidade do sistema. O volume de energia não utilizada, segundo a consultoria Volt Robotics, já é 18,3% maior em 2026 do que em 2025, e poderia suprir todas as residências de São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza.
O CEO da Volt Robotics, Donato Filho, aponta a falta de planejamento como um dos principais vilões. “O Brasil investiu bilhões em geração renovável, muitas vezes incentivada por políticas públicas, mas hoje precisa desligar essas usinas porque faltou planejamento para garantir a entrega da energia gerada aos consumidores. Com isso, desperdiçamos energia limpa, barata e um enorme potencial para o país, principalmente para a região nordeste”, lamentou. As informações foram divulgadas pela consultoria Volt Robotics, com base em dados do ONS.
Entendendo o “Curtailment”: O Que Significa a Energia Desperdiçada
É fundamental esclarecer que o termo “desperdício” no contexto do curtailment não se refere à energia que foi efetivamente gerada e depois descartada. Tampouco significa que toda a produção potencial poderia ser consumida nas condições atuais de operação. Na verdade, trata-se da produção potencial que deixou de ocorrer devido a restrições operacionais impostas pelo sistema.
O volume contabilizado representa a diferença entre a energia que os empreendimentos solares e eólicos poderiam produzir, dadas as condições ideais de sol, vento e disponibilidade dos equipamentos, e a geração efetivamente realizada após a imposição dessas restrições. Essa energia, considerada limpa e com potencial de baixo custo, é impedida de chegar ao consumidor final por diversos fatores.
O Crescimento Preocupante dos Cortes e Seus Impactos
Entre janeiro e agosto de 2026, os cortes de geração solar e eólica alcançaram um volume médio de 3.853 megawatts (MW), totalizando aproximadamente 22,47 milhões de megawatts-hora (MWh) no período. Esse montante representa um aumento expressivo de 18,3% em comparação com o mesmo intervalo de 2025. A frequência de dias com restrições acima de 60% saltou de 30 para 51, indicando uma tendência preocupante.
A consultoria Volt Robotics alerta que essa frequência maior de cortes elevados merece atenção especial, pois pode sinalizar uma redução na margem de manobra do sistema elétrico. Quando uma grande parcela da geração eólica e solar, que é flexível e pode ser controlada pelo operador, já está limitada, diminui a capacidade de resposta do sistema diante de imprevistos, como uma queda súbita no consumo ou a indisponibilidade de outras fontes.
As Causas Por Trás das Restrições na Geração Renovável
As restrições na geração de energia solar e eólica, o “curtailment”, ocorrem por uma combinação de fatores. A principal causa está relacionada à falta de infraestrutura de transmissão adequada. Isso inclui linhas de transmissão danificadas, atrasos em obras planejadas ou a simples saturação da capacidade existente, impedindo que a energia gerada seja escoada para os centros de consumo.
Um segundo motivo é quando as linhas de transmissão já atingem o limite máximo de sua capacidade. Mesmo que a infraestrutura esteja em bom estado, se ela não for suficiente para transportar toda a energia produzida, a geração precisa ser reduzida. Por fim, o excesso de oferta em relação à demanda em determinados momentos também força os cortes. Nos dois últimos cenários, que envolvem limites de capacidade e excesso de oferta, as usinas geradoras não têm direito a compensação financeira pelos cortes impostos.
Mudança na Composição das Restrições: O Papel do Excesso de Oferta
O levantamento da Volt Robotics também aponta uma mudança significativa na composição das restrições. Os cortes classificados como de razão energética, diretamente associados ao excesso de oferta em relação ao consumo, foram responsáveis por 67% do total até agosto de 2026. Essa participação era de 49% no mesmo período de 2025 e de apenas 21% em 2024, evidenciando um crescimento expressivo dessa categoria.
As demais categorias de restrições envolvem limitações relacionadas à indisponibilidade de equipamentos na rede de transmissão ou à necessidade de preservar a confiabilidade da operação do sistema. A predominância dos cortes por excesso de oferta sugere que o sistema está gerando mais energia limpa do que consegue consumir ou transportar em determinados momentos, um reflexo direto do rápido crescimento das fontes renováveis sem o acompanhamento da expansão da rede.
O Caso Extremo do Dia dos Pais de 2026 e a Manutenção de Fontes Convencionais
Um dos episódios mais notórios da necessidade de curtailment ocorreu no Dia dos Pais de 2026, em 10 de agosto. Naquele dia, as restrições de energia solar e eólica chegaram a aproximar-se de 100% em determinados momentos. O relatório destaca que, coincidentemente, havia cerca de 13 gigawatts (GW) de geração termelétrica em operação durante o período de menor demanda diurna.
A persistência dessas usinas termelétricas ligadas, mesmo com a alta geração renovável, pode ocorrer por exigências técnicas, como tempos mínimos de funcionamento para evitar danos aos equipamentos, ou pela necessidade de mantê-las prontas para atender a um eventual e rápido aumento do consumo. Essa situação levanta questionamentos sobre a otimização do despacho de usinas e a integração eficiente das fontes renováveis.
Impacto Econômico: Bilhões em Receitas Potenciais Não Realizadas
A dimensão econômica dos cortes na geração renovável também é um ponto de atenção. Entre outubro de 2021 e agosto de 2026, o levantamento estima que pelo menos 73,4 milhões de MWh de geração foram restringidos. O valor desse volume, calculado com base no Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) – referência do mercado de curto prazo – chega a R$ 8,6 bilhões.
Se considerarmos a modelagem das regras contratuais das usinas geradoras, essa estimativa de receita potencial frustrada alcança R$ 13,1 bilhões, sem correção monetária. É importante ressaltar que essa leitura de prejuízo não corresponde a uma apuração oficial de indenizações ou a uma cobrança definida aos consumidores. Trata-se de uma frustração de expectativas de geração de receita para as empresas geradoras, que investiram em capacidade e agora veem parte dessa capacidade ociosa.
Soluções Propostas e o Futuro do Planejamento Energético
Para mitigar o problema dos cortes de energia renovável, a Volt Robotics aponta diversas alternativas. Entre elas, destacam-se o reforço da infraestrutura de transmissão, o investimento em sistemas de armazenamento de energia, como baterias, e o aumento da flexibilidade das usinas existentes. Além disso, é crucial o desenvolvimento de incentivos para deslocar o consumo de energia para horários em que há maior oferta de fontes renováveis.
O Ministério de Minas e Energia já propôs a Portaria 140, que regulamenta procedimentos para celebração de Termos de Compromisso destinados à compensação financeira pelos cortes. No entanto, a raiz do problema reside na necessidade de um planejamento mais integrado e de longo prazo, que antecipe o crescimento da geração renovável e garanta a expansão da rede de transmissão e a flexibilidade do sistema de forma proporcional. Sem isso, o potencial energético limpo e barato do Brasil corre o risco de continuar sendo subutilizado, com perdas financeiras e oportunidades perdidas.
A Necessidade de Transparência e Detalhamento nas Restrições
A Volt Robotics também defende uma maior transparência e detalhamento nos dados que sustentam a classificação de cada restrição de energia. A consultoria reconhece que diferenças nos cortes entre estados ou a manutenção de geração termelétrica e hidrelétrica não demonstram, por si só, um erro na classificação. Contudo, considera essencial identificar quais limitações específicas impediram o aproveitamento integral da produção potencial das fontes renováveis.
Essa clareza é fundamental para que o setor possa direcionar investimentos e políticas públicas de forma mais eficaz. Compreender as causas exatas de cada curtailment permite que os agentes envolvidos – geradores, transmissores, distribuidores e o próprio ONS – trabalhem em conjunto para encontrar as soluções mais adequadas, garantindo que o Brasil continue avançando em sua matriz energética limpa e sustentável, sem desperdícios significativos de seu vasto potencial renovável.