Equador tenta replicar modelo de segurança de El Salvador, mas enfrenta desafios únicos
A América Latina vive uma onda conservadora, impulsionada pela demanda popular por políticas mais rigorosas de segurança. Nesse cenário, o modelo de tolerância zero contra o crime implementado por Nayib Bukele em El Salvador tem sido visto como um exemplo a ser seguido. O Equador, eleito em 2023 com a promessa de combater o narcotráfico, busca espelhar as ações do líder salvadorenho, que obteve resultados expressivos na redução da criminalidade.
No entanto, apesar das inspirações e da adoção de medidas semelhantes, como o estado de exceção e a militarização de presídios, o presidente equatoriano Daniel Noboa ainda não conseguiu replicar o sucesso de Bukele. A diferença crucial reside na natureza e na estrutura dos grupos criminosos que operam em cada país, como aponta Ricardo Caichiolo, professor de relações internacionais.
Enquanto El Salvador focou no combate a gangues urbanas de controle local, o Equador se tornou um palco para os maiores cartéis internacionais, com poder financeiro e operações de escopo global. Essa disparidade na complexidade e no poderio dos inimigos, somada a outros fatores, explica a dificuldade equatoriana em obter resultados comparáveis, conforme informações analisadas por especialistas.
A raiz do problema: Diferenças estruturais entre gangues e cartéis
Um dos principais pontos que explicam a dificuldade do Equador em replicar o modelo de El Salvador reside na diferença fundamental entre as organizações criminosas combatidas. El Salvador enfrentou gangues urbanas de controle territorial restrito, como a MS-13 e o Barrio 18, cujas atividades se concentravam em bairros e envolviam crimes de menor potencial ofensivo, como extorsão.
Em contrapartida, o Equador se tornou um refúgio e ponto estratégico para cartéis internacionais de grande porte, como o Cartel de Sinaloa, do México. Essas organizações utilizam o território equatoriano como rota para o escoamento de drogas em direção aos Estados Unidos e Europa, operando com um poder financeiro e logístico incomparavelmente maior do que as facções salvadorenhas.
O analista Ricardo Caichiolo destaca que a complexidade do cenário equatoriano, com organizações transnacionais de financiamento “praticamente ilimitado”, torna a ação estatal mais desafiadora. Essa situação se reflete no aumento da violência, mesmo com a militarização das ruas, o aumento das prisões e a declaração de conflito armado interno, medidas que buscam emular o sucesso de Bukele.
Medidas de segurança implementadas pelo Equador: Uma tentativa de emular Bukele
O Equador atravessa uma grave crise de segurança pública, intensificada a partir de 2021 com confrontos sangrentos em seu sistema prisional, resultando na morte de mais de 600 detentos em cinco anos. Em resposta, o presidente Daniel Noboa declarou um “conflito armado interno” em janeiro de 2024, militarizando presídios e ruas para combater a violência generalizada, que elevou o país à posição de maior taxa de homicídios da América Latina.
Essa medida assemelha-se ao regime de exceção implementado por Bukele em El Salvador desde 2019. Outro projeto inspirado no modelo salvadorenho é a construção de uma prisão de seguranç;a máxima na província costeira de Santa Elena, com capacidade para 736 detentos, uma das principais promessas de Noboa.
Desde que assumiu o poder, o governo equatoriano também decretou estados de emergência em diversas províncias e unidades prisionais, impondo toque de recolher, restrições de mobilidade e suspensão de garantias constitucionais. Além disso, em março, o Equador anunciou uma megaoperação conjunta com os EUA contra o crime organizado, integrando o “Escudo das Américas”, alianç;a internacional lanç;ada pelo ex-presidente Donald Trump.
Desafios financeiros e institucionais limitam o âmbito da ação equatoriana
Apesar das ações enérgicas, o Equador enfrenta obstáculos significativos que diferenciam sua situação da de El Salvador. Um dos principais entraves é a influência profunda do narcotráfico dentro do próprio aparato estatal, o que dificulta a eficácia das políticas de seguranç;a. Essa corrupção sistêmica mina a confianç;a nas instituições e facilita a operação do crime organizado.
Outro fator limitador é a fragmentação das facções criminosas, especialmente após a fuga de lideranç;as importantes, como “Fito”, líder do grupo Los Choneros. Enfrentar um inimigo pulverizado e descentralizado torna a tarefa das autoridades mais complexa e menos efetiva do que combater organizações mais coesas.
Adicionalmente, o Equador lida com limitações institucionais e jurídicas para a implementação de políticas linha-dura. O Poder Judiciário tem imposto restrições à renovação ilimitada dos estados de exceção, argumentando que tais medidas podem configurar abuso de autoridade. Essa vigilância jurídica contrasta com a maior margem de atuação do executivo em El Salvador.
Diferenças geográficas e a complexidade do território equatoriano
As diferenças geográficas entre El Salvador e Equador também desempenham um papel crucial na eficácia das políticas de seguranç;a. El Salvador, com uma área territorial significativamente menor (aproximadamente 13 vezes menor que o Equador), apresenta uma gestão política e de seguranç;a mais centralizada e, potencialmente, mais fácil de controlar.
O Equador, por outro lado, possui um território vasto e diversificado, incluindo áreas de difícil acesso e fronteiras extensas e vulneráveis. Essas características geográficas facilitam a ação de cartéis e grupos criminosos locais aliados, tornando o monitoramento e o controle territorial mais complexos e dispendiosos.
A dificuldade em gerenciar regiões extensas e com acesso limitado pelo crime organizado representa um obstáculo adicional para o governo equatoriano. Enquanto Bukele pode concentrar recursos em um país menor e mais homogêneo, Noboa precisa lidar com a complexidade de um território maior e mais fragmentado, o que exige estratégias adaptadas e recursos consideravelmente maiores.
O impacto da crise econômica no combate ao crime
A situação econômica do Equador representa outro fator que diferencia o país de El Salvador e impacta diretamente o combate ao crime. O país sul-americano enfrenta um déficit fiscal crônico e um alto endividamento, figurando entre os países mais endividados com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em outubro do ano passado, a dívida externa foi estimada em US$ 8,85 bilhões, o que representa 6,8% do PIB.
Esse quadro fiscal restringe a capacidade do governo de realizar os investimentos massivos em seguranç;a pública que seriam necessários para implementar políticas de longo prazo e combater efetivamente as organizações criminosas de alta complexidade. A necessidade de gerenciar as contas públicas pode levar a cortes em áreas essenciais, incluindo as de seguranç;a, ou a uma dependência maior de financiamento externo.
Em contraste, embora El Salvador também enfrente desafios econômicos, o governo Bukele tem demonstrado uma capacidade maior de direcionar recursos para as políticas de seguranç;a, muitas vezes priorizando essas ações em detrimento de outras demandas sociais ou de desenvolvimento. Essa priorização de recursos é um fator chave para a implementação de medidas drásticas e extensivas.
A influência internacional e a colaboração com os EUA
O Equador busca fortalecer sua capacidade de combate ao crime organizado através da cooperação internacional. Em março, o país anunciou uma megaoperação em colaboração com os Estados Unidos, visando especificamente os cartéis de drogas que atuam em seu território. Esta iniciativa faz parte do “Escudo das Américas”, um plano de ação internacional contra o crime organizado.
Em julho, o presidente Noboa assinou um decreto executivo para integrar o Plano Nacional de Seguranç;a 2025-2029 à política pública do país. Este plano visa orientar a estratégia de seguranç;a do Estado para os próximos quatro anos, com ênfase no fortalecimento da cooperação internacional para combater o crime organizado transnacional, considerado pelo governo uma das principais ameaç;as à nação andina.
A colaboração com potências como os EUA pode fornecer ao Equador acesso a recursos, tecnologia e inteligência que são cruciais para o combate a organizações criminosas sofisticadas. No entanto, a eficácia dessa cooperação dependerá da integração das ações e da superação dos desafios internos já mencionados.
O futuro incerto: A busca por seguranç;a em um cenário complexo
A inspiração em modelos de seguranç;a de sucesso, como o de El Salvador, é uma tendência crescente na América Latina, impulsionada pela insatisfação popular com a violência. No Brasil, por exemplo, políticos de direita também têm proposto abordagens semelhantes.
Contudo, a experiência equatoriana demonstra que a simples replicação de políticas pode não ser suficiente quando as realidades contextuais são significativamente distintas. O Equador enfrenta um desafio multifacetado, que exige não apenas ações de linha-dura, mas também o combate à corrupção sistêmica, o fortalecimento das instituições, a superação de limitações jurídicas e a gestão de uma economia fragilizada.
O sucesso a longo prazo do Equador em estabilizar a seguranç;a pública dependerá de sua capacidade de adaptar estratégias, inovar em suas abordagens e construir um consenso social e político duradouro para enfrentar as complexas causas da criminalidade em seu território.