IA: O motor inflacionário inesperado antes dos ganhos de produtividade
O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) tem sido um catalisador de otimismo nos mercados financeiros globais, com a promessa de revolucionar a produtividade e impulsionar a economia mundial. Contudo, um contraponto surge com a perspectiva de que, antes de entregar seus benefícios prometidos, a tecnologia pode gerar um efeito colateral significativo: a inflação.
Essa análise é apresentada por Igor Barenboim, em entrevista detalhando os mecanismos pelos quais a IA já está impactando a economia e criando desafios para as autoridades monetárias. O especialista aponta que a atual fase de expansão do setor de IA está provocando uma reconfiguração econômica, com transferências de capital e pressões sobre a oferta de componentes essenciais.
A perspectiva é que, enquanto o potencial de longo prazo da IA é promissor, o curto e médio prazo exigirá atenção redobrada para os efeitos inflacionários. As informações foram detalhadas em uma análise da Reach Capital e em declarações de Barenboim, conforme divulgado pela CNN Brasil.
A transferência de riqueza e os gargalos de oferta na corrida pela IA
A dinâmica atual, segundo Igor Barenboim, é marcada por uma substancial transferência de riqueza. Essa movimentação ocorre das chamadas “hyperscalers” – gigantes tecnológicas como Apple, Amazon, Google, OpenAI e Anthropic, que investem massivamente em IA – para os fornecedores de infraestrutura computacional. Esses últimos são os responsáveis por viabilizar a infraestrutura necessária para o desenvolvimento e operação de sistemas de IA cada vez mais complexos.
Barenboim cita estimativas da Goldman Sachs que preveem um investimento de US$ 5,3 trilhões em capacidade computacional para suportar a demanda crescente por IA. Esse volume colossal de investimento, no entanto, esbarra em gargalos de oferta. A capacidade produtiva das fábricas de componentes essenciais, como processadores e memórias, não acompanha a velocidade da demanda, o que, por sua vez, pressiona os preços para cima.
Empresas como Nvidia, SK Hynix e Micron, que são cruciais na fabricação desses componentes, tornam-se protagonistas nesse cenário inflacionário. “A inflação é bastante alta nesses setores”, afirma Barenboim, destacando o impacto direto no custo dos insumos para o desenvolvimento da IA.
A “economia em formato de K” e a sucção de capital
Além dos gargalos de oferta, o especialista alerta para um fenômeno de “sucção de capital”. O setor de inteligência artificial, com seus investimentos vultosos, está atraindo recursos que poderiam ser direcionados para outros setores da economia. Isso cria o que Barenboim descreve como uma “economia em formato de K”.
Nesse modelo, os setores e empresas diretamente ligados à tecnologia e à IA experimentam um crescimento acelerado, enquanto aqueles que não estão inseridos nessa revolução enfrentam dificuldades e estagnação. Essa divisão acentua as desigualdades econômicas e cria um cenário complexo para a gestão macroeconômica.
A concentração de investimentos e recursos na IA, em detrimento de outros setores, pode levar a uma alocação ineficiente de capital em toda a economia. A “economia em K” sugere que a expansão tecnológica não beneficia a todos igualmente, gerando um desafio adicional para a coesão social e o crescimento equilibrado.
O dilema dos bancos centrais: calibrando juros em um cenário dual
O cenário de expansão acelerada em um setor e potencial retração em outros impõe um dilema complexo às autoridades monetárias, como o Federal Reserve (Fed) nos Estados Unidos. Com um único instrumento de política monetária – a taxa de juros –, os bancos centrais precisam calibrar a economia em um contexto profundamente dividido.
Barenboim ilustra essa dificuldade: “O Fed só tem um instrumento. Ele precisa, com uma taxa de juros, calibrar esses dois setores – um está com o pé no forno e outro com a cabeça no freezer”. Essa metáfora evidencia a dificuldade de aplicar uma política monetária que atenda simultaneamente às demandas de um setor superaquecido e de outros que podem estar sofrendo com a escassez de capital.
O desafio para gestores como Kevin Walsh, que busca equacionar a política monetária diante dessa economia dividida, é imenso. A decisão sobre aumentar ou diminuir as taxas de juros pode ter efeitos opostos e indesejados nos diferentes segmentos da economia. A incorporação do impacto da IA nas projeções de inflação torna-se, portanto, uma necessidade urgente, especialmente nos Estados Unidos.
O impacto da IA na inflação: uma realidade já em curso?
Questionado sobre se os bancos centrais já deveriam considerar o impacto da IA em suas projeções de inflação, Barenboim é categórico: “Não tenha dúvida, acho que isso já é uma coisa que está acontecendo, em especial nos Estados Unidos”. A rápida adoção e os investimentos massivos no setor já estão criando pressões inflacionárias que não podem ser ignoradas.
Para o Brasil, o especialista avalia que o impacto, no momento, é marginal. No entanto, ele pondera que se trata de um choque de oferta, um tipo de distorção de preços sobre o qual o Banco Central tem pouca capacidade de atuação direta. Choques de oferta, como a escassez de componentes ou o aumento dos custos de produção, são mais difíceis de serem controlados por meio da política monetária tradicional.
O cenário global, impulsionado pela revolução da IA, sugere que as economias emergentes, como a brasileira, também sentirão os efeitos, seja pela pressão sobre os custos de tecnologia, seja pela realocação de investimentos globais. A atenção às dinâmicas inflacionárias globais, impulsionadas pela IA, é crucial para a formulação de políticas econômicas eficazes.
IA e o mercado de trabalho: ansiedade, mas também oportunidade
No que diz respeito ao mercado de trabalho, Igor Barenboim adota uma postura cautelosamente otimista. Ele argumenta que, historicamente, novas tecnologias, embora disruptivas, tendem a criar mais oportunidades do que eliminar empregos em um saldo líquido positivo.
“Boa parte dos empregos que todos nós temos hoje não existia há 100 anos”, ressalta Barenboim, citando o surgimento de profissões inteiramente novas impulsionadas por inovações tecnológicas. Como exemplo, ele menciona os aplicativos de transporte: ao facilitar a navegação urbana, permitiram que mais pessoas atuassem como motoristas, ampliando o mercado de trabalho, ainda que com impacto sobre os salários do setor.
Outro exemplo citado é o dos revisores de texto. Com o advento de ferramentas como o Word e seus corretores ortográficos automatizados, algumas tarefas foram simplificadas. No entanto, o valor de profissionais capazes de interpretar contextos complexos, nuances de linguagem e garantir a qualidade editorial aumentou, demonstrando uma adaptação e valorização de novas habilidades. “A gente não sabe ainda exatamente qual é o impacto dessas tecnologias em todo o mercado de trabalho, mas com certeza traz ansiedade e oportunidade”, conclui, reconhecendo a incerteza, mas também o potencial criativo da IA.
Brasil e a revolução da IA: um debate público ausente
Barenboim expressa preocupação com a ausência do tema da IA no debate público brasileiro, especialmente em contextos eleitorais. “Eu não vejo no debate eleitoral ninguém conversando sobre isso, sobre uma revolução que talvez a gente esteja vivendo em 100 anos”, afirma.
Para ele, o Brasil precisa discutir estrategicamente como participar ativamente da cadeia produtiva global de IA. Um ponto crucial é a exploração e o uso inteligente das terras raras, minerais essenciais para a fabricação de chips e nos quais o país é abundante. “A gente tem que usar isso de uma forma inteligente para que o país participe de uma forma mais ampla desse setor”, defende.
A falta de um debate estratégico sobre IA pode deixar o Brasil à margem de uma das maiores transformações tecnológicas da história, impactando seu desenvolvimento econômico e sua competitividade global. A discussão sobre como o país pode se posicionar na produção de hardware, desenvolvimento de software e aplicação de IA em setores chave é fundamental.
Perspectivas futuras: IA e o risco de uma “bolha .com”?
O economista relativiza os riscos de uma desaceleração brusca semelhante ao estouro da bolha ponto-com dos anos 1990. Ele aponta que, diferentemente daquela época, as empresas que hoje lideram os investimentos em IA, como Google e Microsoft, possuem balanços sólidos e forte geração de caixa. Isso confere maior resiliência ao setor.
“A gente não deve enfrentar uma desaceleração tão brusca como a gente viveu no pós-boom .com”, avalia Barenboim. A base financeira sólida das empresas atuais reduz a probabilidade de um colapso generalizado como o observado no início dos anos 2000.
Quanto ao prazo para que os benefícios da IA se materializem plenamente na economia, Barenboim é otimista: “Talvez em 15 anos ela já vá ter um impacto integral na economia”. Esse horizonte de 15 anos é significativamente mais curto do que o observado em revoluções tecnológicas anteriores, como a do motor a vapor ou da eletricidade, indicando a velocidade sem precedentes da transformação impulsionada pela IA.