Morre Ettore Zuim, voz inesquecível de animes e filmes, aos 66 anos
O mundo da dublagem brasileira amanheceu com uma notícia triste nesta segunda-feira (4): o falecimento do renomado ator e dublador Ettore Zuim. Aos 66 anos, Zuim deixou sua marca em diversas produções icônicas, especialmente no universo dos animes, onde emprestou sua voz a personagens amados como Mihawk em ‘One Piece’ e Mugen em ‘Samurai Champloo’. A Associação Brasileira de Dubladores confirmou o óbito, mas a causa específica não foi divulgada, embora o artista tenha sido diagnosticado com Doença Arterial Obstrutiva Periférica (DAOP) em 2023, o que o levou a enfrentar fragilidades de saúde.
Ettore Zuim construiu uma carreira sólida e respeitada ao longo de mais de quatro décadas, transitando com maestria entre o teatro, o cinema e a dublagem. Sua versatilidade o permitiu dar vida a uma vasta gama de personagens, conquistando fãs de diferentes gerações. A notícia de seu falecimento repercutiu rapidamente entre colegas de profissão e admiradores, que lamentam a perda de um talento singular e de uma voz que marcou profundamente a cultura pop.
A trajetória de Ettore Zuim na dublagem é marcada por atuações memoráveis que se estendem para além dos animes. Ele também foi a voz de Heiter em ‘Frieren e a Jornada para o Além’, além de ter participado de séries como ‘Astro Boy’ (2003), ‘Dragon Ball Super’, ‘Vinland Saga’ e ‘My Hero Academia’. Sua expertise vocal também brilhou no tokusatsu, como Tetsuo em ‘Ultraman Tiga’ e o monstro Mephilas em ‘Shin Ultraman’. Conforme informações divulgadas pela imprensa especializada em dublagem e confirmadas pela Associação Brasileira de Dubladores.
Uma paixão precoce pelos palcos
Nascido no Rio de Janeiro em 11 de janeiro de 1960, Ettore Zuim descobriu sua vocação artística ainda na adolescência. Aos 13 anos, uma apresentação de teatro durante férias em Sepetiba despertou nele uma paixão avassaladora pelos palcos. Essa experiência foi o ponto de partida para uma carreira que se iniciou no teatro musical carioca no início dos anos 1980, quando integrou o grupo Nós Que Bebemos. Sua paixão pelo teatro moldou sua expressividade e técnica, que seriam fundamentais em sua futura carreira como dublador.
A entrada no universo da dublagem
O convite para adentrar o mundo da dublagem veio de colegas de elenco que já trilhavam esse caminho: Nizo Neto e Nádia Carvalho. Eles foram os responsáveis por apresentar Ettore Zuim ao estúdio Herbert Richers, onde ele deu seus primeiros passos como estagiário. Após um período de aprendizado de cerca de 45 dias, Zuim demonstrou seu talento e dedicação, consolidando-se rapidamente na profissão. Essa oportunidade marcou o início de uma jornada de mais de 40 anos dedicados à arte de dar voz a personagens, um ofício que ele descrevia como um complexo exercício de coordenação motora e interpretação, exigindo a sincronia perfeita entre audição, leitura e expressão.
O icônico Mihawk e a força de Mugen
No universo dos animes, Ettore Zuim deixou uma marca indelével. Sua interpretação de Mihawk Olho de Falcão em ‘One Piece’, o espadachim mais forte do mundo, é uma das mais lembradas pelos fãs. A voz grave e imponente de Zuim capturou perfeitamente a aura de mistério e poder do personagem, tanto na série animada quanto na adaptação live-action da Netflix. Outro papel que se tornou sinônimo de sua genialidade foi Mugen, o samurai errante e imprevisível de ‘Samurai Champloo’. A energia selvagem e a atitude despojada de Mugen encontraram em Ettore Zuim a voz ideal para expressar sua personalidade única.
A versatilidade de Zuim também brilhou em ‘Frieren e a Jornada para o Além’, onde deu vida a Heiter, um personagem que exigiu nuances emocionais e uma interpretação cuidadosa. A participação em séries tão distintas como ‘Astro Boy’ (versão de 2003), ‘Dragon Ball Super’, ‘Vinland Saga’ e ‘My Hero Academia’ demonstra a amplitude de seu talento e sua capacidade de se adaptar a diferentes estilos e gêneros. Sua presença em produções como ‘One-Punch Man’ apenas reforça seu legado no universo otaku.
Além dos animes: dublando estrelas de Hollywood
Ettore Zuim não se limitou ao mundo da animação japonesa. Sua carreira foi recheada de trabalhos notáveis na dublagem de filmes e séries, onde emprestou sua voz a atores de renome internacional. Ele foi a voz brasileira de astros como Antonio Banderas e Owen Wilson, interpretando-os em diversos papéis. No entanto, uma de suas dublagens mais marcantes foi a de Christian Bale.
A relação de Zuim com Christian Bale é particularmente curiosa. Durante seu período como diretor de dublagem no estúdio Delart, Ettore se auto-escalou para dublar o personagem do ator no filme ‘Extra! Extra!’ (1992). Essa oportunidade o levou a se tornar a voz oficial de Christian Bale no Brasil. Essa parceria se solidificou com a dublagem de Bale na aclamada trilogia do Batman dirigida por Christopher Nolan, um trabalho que o consagrou ainda mais. Posteriormente, a voz de Ettore Zuim se tornou sinônimo do Cavaleiro das Trevas em diversas animações e jogos do universo DC Comics, marcando gerações de fãs do super-herói.
Versatilidade em desenhos animados e tokusatsu
O talento de Ettore Zuim se estendeu por uma vasta gama de personagens em desenhos animados ocidentais. Ele deu voz ao adorável Príncipe Encantado nos filmes da franquia ‘Shrek’, emprestando seu carisma e humor a um dos personagens mais carismáticos da animação. Outro papel de destaque foi o Hércules, o herói da Disney, onde sua interpretação transmitiu a força e a bravura do semideus. Além disso, Zuim deu vida ao vilão Raio de Fogo em ‘Super Choque’, mostrando sua capacidade de atuar em papéis antagônicos com a mesma maestria.
No universo do tokusatsu, Ettore Zuim também deixou sua marca. Ele foi a voz de Tetsuo em ‘Ultraman Tiga’, uma série que conquistou uma legião de fãs no Brasil. Mais recentemente, ele interpretou o monstro Mephilas no filme ‘Shin Ultraman’, demonstrando que seu talento continuava ativo e relevante em diferentes gêneros e franquias.
Um legado de dedicação e arte
Ettore Zuim não foi apenas dublador, mas também ator, diretor e professor. Sua trajetória foi pautada por uma dedicação absoluta à arte de atuar, desde suas primeiras incursões no teatro musical até seus trabalhos mais recentes. Ele entendia a dublagem como um ato de profunda conexão com o personagem, um complexo exercício de interpretação que exigia não apenas técnica, mas também sensibilidade. Sua partida representa uma perda significativa para a indústria da dublagem e para a cultura pop brasileira.
O legado de Ettore Zuim reside nas vozes que ele imortalizou, nos personagens que ganharam vida através de seu talento e na inspiração que ele proporcionou a inúmeros artistas. Sua contribuição para o entretenimento é inegável, e sua voz ecoará na memória de fãs de ‘One Piece’, ‘Samurai Champloo’, ‘Frieren’, dos filmes do Batman e de tantas outras produções que ele ajudou a tornar ainda mais especiais. Aos 66 anos, Ettore Zuim se despede, mas sua arte permanece viva.