EUA cogitam suspender Espanha da Otan e retirar apoio ao Reino Unido por Malvinas em retaliação por guerra com Irã
O Pentágono, departamento de defesa dos Estados Unidos, estaria avaliando medidas drásticas contra aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que não apoiaram Washington em operações militares relacionadas ao conflito com o Irã. Entre as opções discutidas, segundo reportagem da agência Reuters publicada nesta sexta-feira (24), estão a suspensão da Espanha da aliança militar e a reavaliação do suporte diplomático dos EUA a territórios europeus como as Ilhas Malvinas, reivindicadas pela Argentina.
A frustração americana, detalhada em um e-mail interno do Pentágono, surge da relutância ou recusa de alguns países em conceder direitos de acesso, base e sobrevoo (conhecidos como ABO) essenciais para as operações militares dos EUA contra o Irã, país que atualmente se encontra em um cessar-fogo. A notícia gerou reações imediatas, com o governo espanhol minimizando a informação e um representante da Otan apontando que o tratado fundador da aliança não prevê mecanismos de expulsão.
A reportagem da Reuters, baseada em informações de um funcionário do governo americano, detalha o escopo das punições em consideração, que vão desde o impacto simbólico de uma suspensão até a potencial alteração de alianças históricas e o apoio a disputas territoriais. A fonte, no entanto, não especificou o cronograma para a tomada de decisões ou o nível de apoio que essas propostas teriam dentro do governo americano, conforme informações divulgadas pela Reuters.
Tensão entre EUA e aliados europeus sobre acesso militar e guerra no Oriente Médio
A raiz da insatisfação americana reside na negativa de alguns parceiros da Otan em fornecer o suporte logístico e de infraestrutura necessário para as operações militares dos Estados Unidos no contexto do conflito com o Irã. O e-mail interno do Pentágono, citado pela Reuters, expressa claramente a frustração com a postura de certos aliados em relação aos direitos de acesso, base e sobrevoo (ABO) solicitados por Washington.
Esses direitos ABO são cruciais para a mobilidade e eficiência das forças armadas em teatros de operação complexos. A falta de cooperação, especialmente em um cenário de alta tensão geopolítica como o Oriente Médio, é vista pelos Estados Unidos como um obstáculo significativo à sua capacidade de projetar poder e garantir seus interesses estratégicos na região. A guerra em questão, que envolve os EUA e Israel contra o Irã, encontra-se atualmente em um período de cessar-fogo, mas as implicações da falta de apoio logístico persistem.
A reportagem da Reuters destaca que a hesitação ou recusa em conceder esses acessos tem gerado um clima de descontentamento no Pentágono. A busca por punições visa, segundo a agência, sinalizar a importância do cumprimento dos compromissos de aliança e, possivelmente, pressionar outros membros da Otan a serem mais cooperativos em futuras situações de crise. A forma como essa pressão se manifestará ainda é incerta, mas as opções discutidas são de grande envergadura, conforme informações divulgadas pela Reuters.
Espanha na mira: suspensão da Otan como possível retaliação
Uma das medidas mais contundentes consideradas pelo Pentágono é a suspensão da Espanha da Otan. Embora o e-mail interno classifique essa ação como tendo um “efeito limitado nas operações militares americanas”, o impacto simbólico seria “significativo”. Essa proposta reflete uma tensão preexistente entre os governos dos EUA e da Espanha, especialmente em relação aos gastos com defesa e ao posicionamento em conflitos internacionais.
A Espanha, sob o governo do primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez, tomou a decisão de fechar seu espaço aéreo para voos americanos envolvidos no conflito com o Irã. Além disso, o país ibérico negou o uso de suas bases aéreas em Rota e Morón por aeronaves dos EUA. Essa postura contrasta com a de outros aliados europeus e tem sido alvo de críticas por parte da administração americana.
A relação entre os EUA e a Espanha já havia sido tensionada anteriormente. No ano passado, após cobranças do então presidente Donald Trump, os países da Otan concordaram em aumentar seus investimentos em defesa. No entanto, a Espanha foi o único país da aliança a se recusar a firmar um compromisso com a nova meta de gastos, levando Trump a sugerir publicamente a expulsão do país da organização militar. A atual consideração de suspensão ecoa essas tensões passadas, conforme informações divulgadas pela Reuters.
Reino Unido e o dilema das Malvinas: apoio diplomático em risco
Outra opção sob análise em Washington é a reavaliação do apoio diplomático dos Estados Unidos a antigas “possessões imperiais” europeias, com foco específico nas Ilhas Malvinas. Este território ultramarino britânico, localizado no Atlântico Sul, foi palco de um conflito armado entre o Reino Unido e a Argentina na década de 1980 e continua sendo objeto de reivindicação por parte de Buenos Aires. A menção às Malvinas sugere uma estratégia de pressão que visa equilibrar as relações de poder e influenciar as políticas de aliados europeus.
A hesitação do Reino Unido em permitir o uso de suas bases aéreas para operações ofensivas relacionadas ao conflito EUA-Irã, inicialmente permitindo apenas fins defensivos, também contribuiu para a frustração americana. Embora o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, posteriormente tenha flexibilizado essa restrição, permitindo ações ofensivas, o atraso e a cautela iniciais foram notados por Washington.
A ameaça de retirar o apoio diplomático em questões sensíveis como as Malvinas representa um movimento significativo por parte dos EUA. Tal ação poderia ter implicações profundas nas relações diplomáticas e na estabilidade regional, além de impactar a percepção do Reino Unido como um aliado confiável. A estratégia americana parece visar a criação de um cenário onde os aliados sintam o peso da falta de cooperação em questões de segurança de interesse vital para os Estados Unidos, conforme informações divulgadas pela Reuters.
Trump e a pressão por maior contribuição de defesa na Otan
A postura crítica do presidente americano Donald Trump em relação aos aliados europeus na Otan não é novidade. Ele tem repetidamente pressionado os países membros a aumentarem seus gastos com defesa e a assumirem uma maior responsabilidade pela segurança coletiva. A questão da reabertura do Estreito de Ormuz, bloqueado pelo Irã devido à guerra, tem sido um ponto focal dessa pressão.
Trump chegou a ridicularizar publicamente o Reino Unido, afirmando que o país “sequer tem Marinha”, em um comentário que reflete sua insatisfação com o que ele considera ser uma contribuição desproporcionalmente pequena dos aliados europeus para a segurança global. Essa retórica agressiva, embora controversa, tem sido uma marca registrada de sua política externa, visando forçar mudanças e compromissos mais firmes por parte dos parceiros.
A ameaça de cortar o comércio com a Espanha, mencionada em resposta à negativa de acesso às bases aéreas, é mais um exemplo da abordagem de Trump de usar o poder econômico como ferramenta de negociação em questões de segurança. A insistência em um maior investimento em defesa por parte dos membros da Otan, com a meta de 5% do PIB até 2035, e a recusa da Espanha em se comprometer com essa meta, criaram um precedente para as atuais considerações de punição, conforme informações divulgadas pela Reuters.
O Tratado da Otan e a impossibilidade formal de expulsão
Apesar das ameaças e cogitações vindas de Washington, a estrutura formal da Otan apresenta um obstáculo para a suspensão ou expulsão de um país membro. Um funcionário da organização, em declaração à emissora britânica BBC, salientou que o tratado fundador da Otan “não prevê nenhuma disposição para a suspensão da adesão à Otan ou expulsão”. Isso significa que, juridicamente, a exclusão de um membro não está contemplada nos acordos que regem a aliança militar.
Essa informação sugere que, mesmo que os Estados Unidos desejem formalmente punir a Espanha, o caminho para a expulsão seria extremamente complexo e, possivelmente, inviável dentro das regras atuais da organização. No entanto, isso não impede que os EUA busquem outras formas de pressão, como a redução da cooperação bilateral, a exclusão de certos programas ou a retaliação em outras esferas, como o comércio ou o apoio diplomático.
A declaração do funcionário da Otan reforça a ideia de que a aliança busca a unidade e a cooperação entre seus membros, e a expulsão seria um sinal de profunda divisão e fragilidade. As possíveis ações americanas, portanto, podem se concentrar em medidas que não envolvam a remoção formal da Espanha, mas que ainda assim transmitam uma mensagem clara de descontentamento e busquem impor custos pela falta de alinhamento, conforme informações divulgadas pela Reuters e BBC.
Reação da Espanha: minimização e reafirmação de compromissos
O governo espanhol, por meio de seu primeiro-ministro Pedro Sánchez, reagiu à reportagem da Reuters com uma postura de minimização e confiança. Sánchez afirmou que o governo espanhol “não trabalha” com base em e-mails internos, mas sim em “documentos oficiais e posicionamentos públicos”. Essa declaração busca descreditar a informação como especulação baseada em comunicações internas, em vez de uma política oficial consolidada.
Sánchez reiterou a posição oficial da Espanha, enfatizando a “absoluta colaboração com os aliados, mas sempre dentro do marco da legalidade internacional”. Essa fala sublinha o compromisso da Espanha com a aliança, mas também estabelece limites claros para essa colaboração, vinculando-a ao respeito pelo direito internacional. A menção à legalidade internacional pode ser interpretada como uma salvaguarda contra ações que possam ser consideradas unilaterais ou contrárias a normas estabelecidas.
O primeiro-ministro espanhol expressou “absoluta tranquilidade” em relação à possibilidade de os EUA exigirem a suspensão da Espanha da Otan, argumentando que o país cumpre suas obrigações e é um “parceiro leal”. Essa resposta confiante visa projetar uma imagem de estabilidade e de cumprimento dos deveres, buscando neutralizar a pressão americana. A Espanha, portanto, parece determinada a manter sua posição, ao mesmo tempo em que reafirma seu valor como membro da aliança, conforme informações divulgadas pela agência EFE.
Implicações futuras: reconfiguração de alianças e segurança global
As potenciais retaliações dos Estados Unidos contra aliados da Otan, caso se concretizem, podem ter implicações profundas para a segurança global e a reconfiguração das alianças. A ideia de suspender um membro da aliança ou retirar apoio diplomático em questões sensíveis como as Malvinas sinaliza uma nova fase de assertividade americana, onde a lealdade e a cooperação serão exigidas com mais rigor.
A guerra contra o Irã e a subsequente falta de apoio logístico de alguns aliados expuseram tensões latentes dentro da Otan, especialmente em relação à divisão de responsabilidades e ao alinhamento estratégico em conflitos fora do perímetro europeu. A forma como os EUA responderão a essa situação poderá definir o futuro da aliança e a dinâmica das relações transatlânticas.
A postura da Espanha, ao priorizar a legalidade internacional e a soberania em suas decisões, reflete uma tendência crescente entre algumas nações europeias de buscar uma maior autonomia em suas políticas externas e de defesa. O desfecho dessas discussões em Washington poderá influenciar o equilíbrio de poder dentro da Otan e as estratégias de segurança de longo prazo dos Estados Unidos e de seus parceiros, conforme informações divulgadas pela Reuters.