O que é a fase lútea e por que algumas mulheres se sentem ‘mais feias’ durante ela?

Um fenômeno crescente nas redes sociais, especialmente no TikTok, tem dado voz a milhares de mulheres que descrevem uma sensação de mal-estar físico e emocional na segunda metade do ciclo menstrual. Os chamados ‘luteal uglies’ ou ‘feiura da fase lútea’ se referem a alterações na aparência e no humor que muitas experimentam antes da menstruação.

Vídeos com milhões de visualizações relatam sentimentos como inchaço, pele opaca, acne, sensibilidade nos seios, além de letargia, dificuldade de concentração e alterações de humor. Essas descrições, antes restritas a conversas privadas, ganham destaque online, promovendo um debate sobre a normalização e o impacto desses sintomas no bem-estar feminino.

Especialistas explicam que as mudanças hormonais características dessa fase do ciclo menstrual são as responsáveis por essas manifestações, que vão muito além do que é comumente associado à TPM. Conforme informações divulgadas pela BBC News Brasil.

A ciência por trás dos ‘luteal uglies’: alterações hormonais e seus efeitos

A fase lútea, que ocorre após a ovulação e antecede o início da menstruação, é marcada por uma dinâmica hormonal específica. Após a queda acentuada nos níveis de estrogênio, a progesterona assume o protagonismo. Essa variação hormonal tem um impacto direto em diversas funções corporais, afetando a pele, o humor e o bem-estar geral.

A médica Louise Newson, especialista em hormônios femininos, explica que os hormônios influenciam diretamente a saúde da pele, incluindo a produção de colágeno. “Os hormônios afetam a nossa pele, afetam o colágeno. Por isso, muitas pessoas percebem que a pele fica mais ressecada, a aparência perde o viço, podem surgir acne e espinhas”, afirma Newson. Além disso, o corpo tende a reter mais líquidos nesse período, o que pode levar a inchaço facial e corporal, bem como aumento e sensibilidade nas mamas.

Helen O’Neill, professora associada de genética reprodutiva e molecular, complementa que a elevação da progesterona na fase lútea estimula a produção de oleosidade na pele, contribuindo para o surgimento de acne e alterações na textura. A retenção hídrica, por sua vez, é uma resposta comum às flutuações hormonais, resultando em sensação de inchaço generalizado e desconforto mamário.

Impacto na aparência: pele, inchaço e seios sensíveis

Mulheres que vivenciam a fase lútea frequentemente relatam mudanças visíveis em sua aparência. Elena Spaven, de 25 anos, descreve sentir-se “extremamente inchada” e com a pele “opaca, com textura irregular e, de modo geral, parece mais cansada”. A sensibilidade e o aumento do volume dos seios também são queixas comuns, atribuídas à ação da progesterona, que prepara o corpo para uma possível gravidez.

Essas alterações físicas podem afetar a autoconfiança de muitas mulheres. Charlotte Dodds, empresária de 36 anos, menciona que o inchaço e o surgimento de espinhas abalam sua autoconfiança, especialmente em sua atuação profissional. “Mas, quando você trabalha por conta própria, como eu, sua agenda não pode simplesmente parar porque seus hormônios estão mudando”, relata.

A percepção de uma aparência “menos atraente” durante a fase lútea é, portanto, uma combinação de fatores fisiológicos e psicológicos. A pele mais seca ou oleosa, o inchaço e a sensibilidade mamária, somados a uma percepção alterada de si mesma, contribuem para o sentimento de “feiura” relatado em vídeos virais.

Além da aparência: o impacto no humor e na cognição

Os efeitos da fase lútea não se limitam às mudanças físicas. Muitas mulheres experimentam alterações significativas no humor e na função cognitiva. Elena descreve sentir-se letárgica, “completamente sem motivação” e com o cérebro funcionando em “câmera lenta”. A desastrada, esquecida e com menor desejo de socializar são outras características relatadas.

A jornalista freelancer Henrietta, de 30 anos, descreve sentir “desespero e angústia” durante esse período, incluindo a sensação de inutilidade e “flashbacks intensos de situações constrangedoras ou dolorosas” do passado. Seus sintomas incluem visão embaçada, dificuldade para lembrar palavras básicas e falta de concentração, o que pode ser constrangedor no ambiente de trabalho.

A Dra. Newson enfatiza que esses sintomas podem ser debilitantes, afetando a capacidade das mulheres de trabalhar, socializar e levar uma vida normal. Ela compara a situação à de homens com baixa testosterona, questionando a aceitação de que mulheres simplesmente “tenham que conviver” com tais desconfortos. A desvalorização dessas queixas, muitas vezes minimizadas como “apenas TPM”, é um ponto de frustração.

A influência da fase lútea nos relacionamentos interpessoais

As flutuações hormonais da fase lútea também podem impactar significativamente os relacionamentos. Henrietta relata que, se percebe prestes a se irritar com seu parceiro, há uma “chance enorme” de não ter comido, tomado café ou estar na fase lútea. Essa sensibilidade exacerbada pode levar a reações desproporcionais e conflitos desnecessários.

Com os amigos, a jornalista conta que tende a agir de forma oposta ao que gostaria: ou fala demais e se arrepende, ou se isola e depois se arrepende. Essa dificuldade em gerenciar interações sociais demonstra o quão profundo pode ser o impacto emocional dessa fase do ciclo menstrual. A falta de vontade de socializar e o sentimento de “estar para baixo” contribuem para o distanciamento.

A Dra. Newson ressalta que a forma como essas preocupações são recebidas pode ser frustrante. A falta de compreensão e o julgamento podem agravar o sofrimento das mulheres, que muitas vezes se sentem incompreendidas ou excessivamente emocionais. A busca por um parceiro ou amigos compreensivos e pacientes torna-se fundamental.

Desmistificando a ‘TPM’: a fase lútea vai além do senso comum

Muitas vezes, os sintomas da fase lútea são genericamente rotulados como “TPM”, um termo popular que, embora reconheça o desconforto pré-menstrual, pode simplificar excessivamente a complexidade dessas manifestações. Charlotte Dodds, por exemplo, lista inchaço, espinhas e dificuldade de concentração como sintomas que enfrenta, mas que frequentemente são minimizados.

A Dra. Newson argumenta que a fase lútea não é algo do qual as mulheres conseguem “sair de uma hora para outra” e que muitas são levadas a acreditar que seus sintomas são normais ou que estão sendo “excessivamente emocionais”. Essa normalização pode impedir a busca por alívio e tratamento adequados, perpetuando o sofrimento.

A falta de conscientização sobre como e por que os hormônios afetam a saúde e o bem-estar das mulheres é um obstáculo significativo. Henrietta expressa o desejo por mais informação e debate sobre o tema, destacando que ainda existem muitos equívocos sobre a influência hormonal.

Buscando alívio: estratégias para lidar com os sintomas da fase lútea

A busca por estratégias para mitigar os desconfortos da fase lútea tem levado muitas mulheres a recorrerem às redes sociais em busca de conselhos. Um vídeo com 2,4 milhões de visualizações mostra uma jovem perguntando: “Meninas, o que vocês fazem durante a fase lútea para se sentir melhor? Sinceramente, eu não estou conseguindo mais lidar com isso.” As respostas variam, desde “usar roupas largas e evitar o espelho” até “comer chocolate”, conselhos que, segundo especialistas, podem não ser os mais eficazes ou saudáveis.

Helen O’Neill sugere que o primeiro passo é entender a fase lútea como um período “previsível e temporário”. Ela destaca a importância da alimentação, da hidratação para reduzir o inchaço, e a diminuição do consumo de alimentos salgados, álcool e a manutenção da atividade física regular.

A Dra. Newson reforça a recomendação de evitar alimentos ultraprocessados e bebidas alcoólicas, pois eles podem aumentar a inflamação no organismo. Ela também incentiva fortemente a busca por um profissional de saúde caso os sintomas causem sofrimento significativo, ressaltando a importância de insistir em um atendimento adequado. “Se a pessoa não receber um cuidado que considere adequado na primeira, na segunda ou na terceira consulta, deve procurar outro profissional. Esses sintomas normalmente não desaparecem sozinhos”, alerta.

Educação sobre o ciclo menstrual: um passo fundamental para o bem-estar

Elena Spaven compartilha que só descobriu o que era a fase lútea aos 24 anos, por meio das redes sociais, evidenciando a lacuna na educação sobre o ciclo menstrual. Helen O’Neill concorda, afirmando que “as mulheres recebem muito pouca educação sobre aspectos fundamentais do funcionamento do próprio corpo”. Essa falta de informação contribui para que muitas mulheres não compreendam a origem de seus sintomas, atribuindo-os erroneamente a fraqueza ou “exagero”.

A falta de conhecimento sobre o ciclo menstrual e suas fases pode levar a estratégias de enfrentamento inadequadas. A busca por chocolate ou álcool, por exemplo, pode oferecer um alívio temporário, mas não aborda as causas subjacentes e pode até mesmo agravar outros sintomas, como inchaço e alterações de humor.

A conscientização e a educação sobre a fase lútea são cruciais para que as mulheres possam identificar seus sintomas, buscar o apoio adequado e desenvolver estratégias de autocuidado eficazes. Ao desmistificar o tema e promover um diálogo aberto, é possível transformar a experiência dessa fase, reduzindo o sofrimento e melhorando a qualidade de vida.

A importância de buscar ajuda profissional e validação dos sintomas

A Dra. Newson é enfática ao afirmar que os sintomas da fase lútea, quando impactam negativamente a vida de uma mulher, não devem ser ignorados ou minimizados. Ela compara a situação a um homem que busca tratamento para baixa testosterona, ressaltando que as mulheres merecem o mesmo nível de atenção e cuidado médico.

A busca por um profissional de saúde é fundamental, e a Dra. Newson incentiva as mulheres a serem persistentes em suas consultas. Se a primeira ou segunda opinião médica não for satisfatória, é crucial procurar outros especialistas. A validação dos sintomas por parte dos profissionais de saúde é um passo importante para que as mulheres se sintam amparadas e compreendidas.

A normalização dos sintomas da fase lútea como “apenas TPM” pode levar a um ciclo de sofrimento silencioso. Ao promover o conhecimento sobre as alterações hormonais e seus efeitos, a sociedade pode avançar em direção a um cuidado mais integral e empático com a saúde feminina, reconhecendo e tratando os desafios que muitas mulheres enfrentam mensalmente.

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