Flávio Dino revela detalhes de esquema de corrupção e obstrução no Maranhão após quebra de sigilo
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, decidiu quebrar o sigilo de decisões relacionadas a investigações sobre um complexo esquema de corrupção e obstrução da Justiça no Maranhão. As apurações, que tiveram início a partir de um homicídio ocorrido em 2022, apontam para o envolvimento de políticos, parentes de autoridades públicas e até mesmo policiais federais e civis na tentativa de impedir o avanço das investigações.
As decisões, agora tornadas públicas, detalham como a organização criminosa teria atuado desde as fases iniciais da apuração, ainda na polícia estadual, até atos mais recentes, em junho de 2026. As medidas de cooptação processual e obstrução à justiça teriam envolvido a manipulação de vagas e indicações para o Tribunal de Contas do Maranhão (TCE-MA), além de pressões sobre o Poder Judiciário em diferentes instâncias, incluindo o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o próprio STF.
Entre os nomes citados nas decisões está o do senador Weverton Rocha (PDT-MA), que teria atuado para travar no STJ o andamento da apuração do assassinato de um empresário maranhense. O caso também envolve o ministro do STJ Humberto Martins, que relatava o caso e foi alvo de queixa pela família do autor do assassinato. As informações foram divulgadas após a decisão de Dino de retirar o sigilo dos processos, permitindo um maior escrutínio público sobre as complexas ramificações do caso. Conforme detalhes divulgados pelo STF.
Homicídio como ponto de partida: a teia de corrupção e impunidade
A investigação centraliza-se em um homicídio que ocorreu em 2022, o qual, segundo a Polícia Federal (PF), foi motivado por desavenças no pagamento de contratos públicos e propinas. A partir desse crime, a PF identificou um amplo esquema de corrupção que teria levado à prática de outros delitos, incluindo a suposta “compra” de vagas e nomeações no Tribunal de Contas do Maranhão. O objetivo seria garantir a impunidade dos envolvidos no agrupamento criminoso.
O ministro Flávio Dino, em sua análise, destaca que o homicídio, derivado de atos de corrupção, culminou em vacâncias e nomeações no TCE-MA. Além disso, desencadeou uma série de atos voltados a impedir ou embaraçar as investigações e a atuação do Poder Judiciário. A atuação obstrutiva teria se estendido por diversas esferas, alcançando a Justiça estadual, o STJ e o STF, evidenciando a amplitude e a sofisticação do plano para blindar os envolvidos.
A PF aponta que, na cena do crime, além do autor confesso do homicídio, estavam presentes políticos e parentes de autoridades públicas de alto escalão, incluindo um conselheiro do TCE-MA. Essa presença, segundo a investigação, foi o estopim para uma série de medidas voltadas à obstrução da justiça, que se estenderam desde os primeiros passos da investigação na polícia estadual até atos recentes, objeto de medidas cautelares já executadas.
Senador Weverton Rocha e a tentativa de travamento no STJ
Um dos pontos cruciais revelados pelas decisões é a atuação do senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo Lula no Senado. De acordo com a PF, o parlamentar teria buscado impedir o andamento de uma apuração no Superior Tribunal de Justiça (STJ). O objetivo seria travar o processo relacionado ao assassinato do empresário maranhense em 2022.
A investigação aponta que diálogos entre o senador e o ministro Humberto Martins, que na época relatava o caso no STJ, foram registrados. A família do autor do assassinato chegou a protocolar uma queixa contra o ministro no STF, buscando sua atuação no caso. A PF considera a interferência do senador como um ato de obstrução à justiça, visando proteger os envolvidos no esquema.
A assessoria do senador Weverton Rocha foi contatada pelo UOL para comentar as informações, mas até o momento da publicação, aguardava um posicionamento. A manifestação do parlamentar é aguardada para esclarecer sua suposta participação nos fatos e a natureza de suas conversas com o ministro Humberto Martins.
Ministro Humberto Martins e o sigilo processual
Em nota, o ministro do STJ, Humberto Martins, declarou que, devido ao processo tramitar sob segredo de justiça, não se manifestaria sobre o caso. Ele também informou que os autos de um habeas corpus foram encaminhados ao ministro Flávio Dino, relator do caso no STF. Essa declaração reforça a complexidade do caso e a necessidade de sigilo em determinadas fases da investigação para garantir sua eficácia.
A menção ao encaminhamento dos autos para o STF indica que a investigação ultrapassou as instâncias iniciais e agora envolve a mais alta corte do país, dada a participação de figuras com foro privilegiado, como o senador. A decisão de Dino em quebrar o sigilo foi fundamental para trazer à tona os detalhes que ligam o homicídio a um esquema maior de corrupção e obstrução.
A postura do ministro Martins, de não se manifestar publicamente em respeito ao sigilo, é um procedimento padrão em casos sensíveis como este. No entanto, a transferência do caso para o STF, sob relatoria de Flávio Dino, sinaliza a gravidade das alegações e a necessidade de uma análise aprofundada por parte da corte.
A PF teve de “cortar na própria carne”: o agente infiltrado
A complexidade da investigação é evidenciada pelo fato de que a própria Polícia Federal teve que tomar medidas drásticas, como afastar um de seus agentes. O policial federal, identificado como Edvar Rodrigues dos Santos, é suspeito de atuar para a organização criminosa sob investigação, chegando a visitar o autor do assassinato e seus familiares.
A PF registrou contatos reiterados e não autorizados do agente com o pai de um investigado preso e com uma pessoa diretamente vinculada à apuração sigilosa. A suspeita é de que ele estivesse agindo para obstruir a colaboração com o inquérito em curso no STF. Essa revelação demonstra o quão profundo o esquema de corrupção e obstrução pode ter se infiltrado nas instituições de segurança pública.
O afastamento do agente pela própria PF, sob determinação do STF, sinaliza a seriedade da acusação e a determinação das autoridades em apurar todos os envolvidos, independentemente de suas posições. A ação demonstra a importância de mecanismos de controle interno e a capacidade de auto-correção das instituições diante de desvios de conduta.
Megaesquema de corrupção: fraudes em licitações e desvio de verbas
Um detalhado despacho descreve o que seria um megaesquema de corrupção envolvendo empresários e políticos do Maranhão, com indícios de ter levado ao homicídio investigado. A PF aponta uma sucessão de fraudes em licitações, desvios de contratos públicos e uso indevido de emendas parlamentares em benefício de um grupo ligado ao atual governador do estado, Carlos Brandão (MDB).
Os valores envolvidos em apenas um dos casos de desvio ultrapassam R$ 14 milhões, indicando a magnitude do esquema financeiro ilícito. A investigação sugere que o homicídio foi a consequência de uma disputa interna relacionada ao pagamento de contratos e propinas, o que acabou por expor a rede de ilegalidades.
Esse esquema de corrupção, conforme a PF, seria o pano de fundo para as manobras que visavam garantir a impunidade dos partícipes do grupo criminoso, inclusive através da manipulação de cargos no Tribunal de Contas do Estado. A investigação busca desarticular não apenas os crimes de homicídio e obstrução, mas também a estrutura de corrupção que os viabilizava.
Conexão com o governador Carlos Brandão e o TCE-MA
O grupo político e empresarial sob investigação no STF teria o apoio de figuras ligadas ao atual governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB). A investigação aponta que o sobrinho do governador, Daniel Brandão, que ocupa um cargo no Tribunal de Contas do Estado, é apontado como possível participante de discussões que teriam levado ao homicídio.
A assessoria do governador Carlos Brandão emitiu nota afirmando que o STF não teria competência para julgar casos envolvendo governadores, atribuição legal do Superior Tribunal de Justiça. A nota também expressa surpresa com a quebra de sigilo por parte de Flávio Dino, comparando-a com a decisão de Alexandre de Moraes sobre a quebra de sigilo de fonte jornalística. A assessoria ressalta que o grupo que se intitula “dinistas” é adversário político do governador.
A defesa de Daniel Brandão, por sua vez, alega que o próprio confesso autor do crime afirmou que Daniel não tinha qualquer participação ou relação com os fatos. Segundo a nota, familiares do autor do crime teriam passado a ameaçá-lo, buscando auxílio jurídico e financeiro, e alterando a versão dos fatos para atribuir participação a Daniel no episódio do assassinato.
Emendas parlamentares e a disputa política no Maranhão
A investigação no gabinete do ministro Flávio Dino também apura um megaesquema de corrupção que teria sido viabilizado através de emendas parlamentares e fraudes em licitações. Este esquema é considerado central para a compreensão do homicídio do empresário maranhense.
As investigações se estendem a pelo menos dois parlamentares com foro privilegiado: um deputado federal e o senador Weverton Rocha. A atuação desses parlamentares estaria ligada à liberação e direcionamento de verbas públicas, que teriam sido desviadas em benefício do grupo criminoso.
O caso ganhou ainda mais relevância com a revelação de que um dos supostos envolvidos no crime, Raimundo Cutrim, ex-secretário de Estado, teria sido o autor da violação de protocolos de segurança para monitorar ilegalmente Flávio Dino e sua família no Maranhão. Isso sugere uma tentativa de intimidação e controle sobre as autoridades que investigavam o esquema.
O papel do STF e a quebra de sigilo por Flávio Dino
O ministro Flávio Dino, ao decidir pela quebra do sigilo das decisões, busca dar transparência a uma investigação complexa que envolve figuras públicas de alto escalão e instituições importantes. A ação visa, também, garantir que a opinião pública tenha acesso a informações relevantes sobre o combate à corrupção e à obstrução da justiça.
A nota da assessoria do governador Carlos Brandão critica a quebra de sigilo, mas a decisão de Dino está fundamentada na necessidade de avançar com as apurações e de permitir o controle social sobre os atos de investigação. A atuação de Dino como relator no STF demonstra a importância da corte em casos que envolvem crimes contra a administração pública e a ordem judiciária.
A quebra de sigilo por Flávio Dino é um passo significativo para a elucidação completa do caso, permitindo que a sociedade acompanhe os desdobramentos e que os responsáveis sejam, eventualmente, punidos. A transparência é vista como um elemento crucial para a manutenção da confiança nas instituições democráticas e no sistema de justiça.