Uma crescente onda de protecionismo comercial está varrendo o cenário global, com diversas nações implementando novas tarifas e barreiras de importação. Este movimento, que ecoa as políticas adotadas pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante seu mandato, sinaliza uma mudança preocupante nas dinâmicas de comércio internacional.
Desde a América Latina até a Ásia e a África, governos estão recorrendo a sobretaxas em produtos estrangeiros, alegando desde a proteção de indústrias domésticas até a falta de cooperação em questões de segurança e retaliações por medidas tarifárias anteriores. Essa escalada de tensões comerciais envolve países como Equador, Colômbia, Índia, China e México, entre outros.
As consequências desse cenário são amplas e preocupantes, com especialistas alertando para a diminuição do livre comércio e um recuo no dinamismo do mercado internacional. O professor de ciências econômicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Josilmar Cordenonssi, destaca que a Organização Mundial do Comércio (OMC) perdeu grande parte de sua relevância, deixando um vácuo de regras e princípios no comércio global, conforme análise das recentes ações governamentais.
Guerras Comerciais: De Washington a Quito, um Cenário de Protecionismo Crescente
A política de imposição de tarifas adotada por Donald Trump durante seu período na Casa Branca, há pouco mais de um ano, contra praticamente todos os outros países e territórios do mundo, estabeleceu um precedente. Essa abordagem agressiva, que visava reequilibrar balanças comerciais e proteger a indústria americana, parece ter inspirado outros líderes a seguir um caminho semelhante, deflagrando o que muitos chamam de guerras tarifárias.
O impacto das ações de Trump foi sentido globalmente, forçando nações a reconsiderar suas próprias estratégias comerciais e de defesa econômica. O que antes era uma exceção, tornou-se uma ferramenta mais comum nas relações internacionais, com governos buscando vantagens competitivas ou simplesmente retaliando o que consideram práticas comerciais injustas por parte de seus parceiros.
Esse novo panorama reflete uma fragmentação do sistema de comércio multilateral que, por décadas, buscou a redução de barreiras e a promoção do livre fluxo de bens e serviços. A ascensão do protecionismo, portanto, não é apenas uma série de incidentes isolados, mas um sintoma de uma transformação mais profunda na forma como as nações interagem economicamente.
A Tensão Regional na América do Sul: Equador e Colômbia em Disputa Comercial
Um dos exemplos mais recentes dessa onda protecionista emergiu na América do Sul, envolvendo Equador e Colômbia. Na quarta-feira passada, o presidente equatoriano, Daniel Noboa, anunciou uma tarifa de 30% sobre as importações de produtos colombianos. A justificativa para essa medida foi a alegada falta de cooperação da Colômbia nas ações contra o narcotráfico, um problema transnacional que afeta ambos os países.
A resposta do governo colombiano, liderado por Gustavo Petro, não demorou a vir. Bogotá retaliou com a suspensão da venda de energia elétrica ao Equador, uma medida de impacto significativo, e impôs uma tarifa da mesma porcentagem, 30%, sobre mais de 50 produtos equatorianos. Essa escalada rápida demonstra a facilidade com que as disputas comerciais podem se intensificar e os amplos setores que podem ser afetados.
De acordo com o professor Josilmar Cordenonssi, essa disputa pode ter raízes mais profundas, incluindo uma rivalidade ideológica, dado que Noboa é de direita e Petro, de esquerda. A proximidade da eleição presidencial colombiana, com o primeiro turno agendado para 31 de maio, também pode influenciar as decisões políticas. Contudo, Cordenonssi expressa a esperança de que essas tarifas regionais possam ser renegociadas ou revogadas rapidamente, dada a interdependência econômica entre os dois vizinhos.
Ásia na Vanguarda do Protecionismo: Índia e China Reagem com Novas Barreiras
A Ásia também tem sido um palco ativo para a imposição de novas barreiras tarifárias. Na semana passada, o governo da Índia, sob a gestão do primeiro-ministro Narendra Modi, elevou a taxa básica de alfândega para a importação de telas planas de 10% para 20%. Essa medida faz parte do programa “Make in India” (“Fazer na Índia”), lançado em 2014, cujo objetivo é incentivar empresas a desenvolver e fabricar produtos dentro do país, promovendo a autossuficiência e a criação de empregos.
A China, que foi um dos principais alvos das guerras tarifárias de Trump, também não hesitou em usar suas próprias armas comerciais. Na virada do ano, Pequim implementou uma tarifa de 55% sobre as importações de carne bovina que excederem novos limites de cotas. Essa medida demonstra um controle mais rígido sobre o volume e o preço de produtos essenciais que entram no país, impactando exportadores globais.
Em dezembro, a China já havia anunciado tarifas de até 42,7% sobre produtos lácteos da União Europeia, alegando subsídios injustos por parte do bloco. Essa ação veio em retaliação às sobretaxas que a UE impôs, de até 45,3%, sobre veículos elétricos fabricados na China. Esse ciclo de retaliações ilustra como as disputas comerciais podem se espalhar e afetar múltiplos setores e regiões, criando um ambiente de incerteza para o comércio global.
A Estratégia Mexicana e a Influência Norte-Americana no Comércio Regional
Outro país que se juntou à tendência de elevação de tarifas foi o México. Na virada do ano, o governo mexicano implementou tarifas que variam de 5% a 50% sobre as importações de 1.463 linhas de produtos. Essas medidas foram direcionadas a países com os quais o México não possui acordos comerciais, incluindo potências como China, Rússia e Brasil, afetando uma vasta gama de mercadorias.
O professor Josilmar Cordenonssi aponta uma conexão direta entre as tarifas mexicanas e as políticas de Trump. Segundo o especialista, Washington estaria pressionando o México a impor tarifas semelhantes às que os Estados Unidos aplicam a seus parceiros comerciais. O objetivo é evitar que o México se beneficie ao importar produtos mais baratos que os EUA e, posteriormente, reexportá-los para o mercado americano, o que contornaria as barreiras tarifárias impostas pelos Estados Unidos.
Essa dinâmica revela a complexidade das relações comerciais regionais, onde a pressão de uma grande potência pode moldar as políticas de seus vizinhos. A estratégia do México, portanto, pode ser vista não apenas como uma medida protecionista autônoma, mas também como uma resposta a pressões externas, buscando manter um alinhamento com seu principal parceiro comercial, os Estados Unidos.
África do Sul e a Proteção da Indústria Nacional: Tarifas contra Parceiros dos Brics
A onda protecionista não se restringe a potências tradicionais ou blocos econômicos antigos. A África do Sul, membro do grupo Brics, também está considerando adotar medidas tarifárias significativas. Nesta terça-feira, a agência Bloomberg noticiou que o país está estudando impor tarifas de até 50% sobre veículos da China e da Índia, que são seus parceiros dentro do próprio Brics.
A motivação por trás dessa potencial medida é a proteção da indústria automotiva sul-africana. O país busca salvaguardar sua produção local e seus empregos contra a concorrência de veículos importados, especialmente de mercados asiáticos que se destacam pela competitividade de preços. Essa situação ilustra um dilema enfrentado por muitos países em desenvolvimento: como equilibrar a necessidade de acesso a bens mais baratos com a urgência de proteger e desenvolver suas próprias indústrias.
A possibilidade de a África do Sul aplicar tarifas contra parceiros de um bloco de cooperação como o Brics é um indicativo da prioridade que muitos governos estão dando à proteção doméstica, mesmo que isso signifique tensionar relações com aliados. Isso sublinha a tendência de um nacionalismo econômico crescente, onde os interesses internos prevalecem sobre os acordos multilaterais ou de blocos.
O Declínio da OMC e a Ausência de Regras no Comércio Internacional
A proliferação de guerras tarifárias e medidas protecionistas reflete um cenário mais amplo de enfraquecimento das instituições que historicamente regulamentaram o comércio global. Para o professor Josilmar Cordenonssi, a Organização Mundial do Comércio (OMC) “praticamente não existe mais”. Essa afirmação contundente sugere uma perda significativa de sua capacidade de mediação e de imposição de regras entre as nações.
A ausência de uma autoridade global forte e de um conjunto de regras claras e aceitas universalmente cria um vácuo. Nesse ambiente, cada país se sente mais à vontade para agir de forma unilateral, sem as restrições ou as consequências de um sistema multilateral robusto. Isso leva a um aumento da imprevisibilidade e da instabilidade no comércio internacional, tornando mais difícil para empresas e governos planejar a longo prazo.
A falta de um “código de conduta” global no comércio não apenas permite a ascensão do protecionismo, mas também pode levar a disputas que se arrastam, sem soluções negociadas ou arbitradas. A capacidade de um país impor tarifas sem maiores repercussões sistêmicas é um sinal claro de que a arquitetura do comércio global, como a conhecíamos, está em profunda crise, necessitando de uma reavaliação urgente de seus fundamentos e mecanismos.
Caminhos para Potências Médias: O Brasil entre o Protecionismo e a Revitalização da OMC
Diante desse cenário global de protecionismo crescente e enfraquecimento das instituições multilaterais, o professor Josilmar Cordenonssi oferece uma perspectiva para potências médias, como o Brasil. Segundo o especialista, esses países têm mais a ganhar ao buscar uma revitalização da OMC e negociar ativamente acordos comerciais fora do eixo principal China-EUA, que atualmente domina grande parte das tensões comerciais.
Exemplos de tais pactos incluem os acordos entre União Europeia e Mercosul, bem como entre Japão e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean). A estratégia, para Cordenonssi, é evitar cair na armadilha de aderir à guerra tarifária e ao protecionismo. Ao invés disso, o Brasil e outras nações de porte médio deveriam focar em abrir seus mercados de forma estratégica e buscar parcerias que promovam o livre comércio, ainda que em um contexto de fragmentação.
Cordenonssi alerta para os perigos do populismo econômico. “Pode ter países que vão cair na tentação populista de se fechar, ter ganhos políticos de curto prazo, mas [devem] perder a corrida no médio e longo prazo”, pondera o economista. Ele enfatiza que uma população e uma economia mais fechadas tendem a ser “menos produtivas e mais pobres”, ressaltando a importância de manter a competitividade e a integração global para o desenvolvimento sustentável.
Impactos e Perspectivas: Um Cenário de Menor Dinamismo e Mais Incerteza
Em suma, o que se observa no cenário econômico global é um momento de “diminuição do livre comércio, aumento do protecionismo e tendência de recuo do dinamismo no mercado internacional”, conforme alertado por Cordenonssi. Essa tendência tem implicações significativas para a economia mundial, podendo levar a um crescimento mais lento, cadeias de suprimentos menos eficientes e preços mais altos para os consumidores.
A incerteza gerada pelas disputas tarifárias afeta investimentos, planejamento de negócios e até mesmo a estabilidade política em diversas regiões. Empresas que dependem de cadeias de suprimentos globais se veem forçadas a reavaliar suas estratégias, buscando diversificação ou relocalização da produção, o que acarreta custos e complexidades adicionais. Os consumidores, por sua vez, podem enfrentar uma menor variedade de produtos e custos mais elevados devido às tarifas de importação.
A perspectiva para o futuro, sem uma reforma ou revitalização da OMC e um compromisso renovado com o comércio multilateral, é de um ambiente mais volátil e menos cooperativo. A capacidade dos países de encontrar soluções negociadas para suas diferenças comerciais será crucial para mitigar os impactos negativos dessa nova era de guerras tarifárias, que se espalha pelo globo inspirada em políticas que priorizam o interesse nacional acima da integração econômica global.