Inteligência Artificial Revoluciona Campanhas Eleitorais, Mas Não é Atalho para Vitória

A menos de dois meses do primeiro turno das eleições de 2026, a inteligência artificial (IA) surge como uma ferramenta com potencial para redefinir as estratégias de campanha política. A tecnologia generativa permite que partidos reduzam custos na produção de material digital e criem conteúdo altamente segmentado para diferentes perfis de eleitores. No entanto, especialistas alertam que o mero aumento no volume de publicações, impulsionado pela IA, não será suficiente para assegurar o êxito de um candidato.

Segundo o cientista político Renato Dolci, a IA possibilita a criação de múltiplas variações de uma mesma mensagem e abre espaço para maior experimentação criativa. Contudo, a eficácia da distribuição dessas mensagens nas redes sociais permanece como um fator crucial para determinar quais propostas efetivamente alcançarão o eleitorado.

A análise de Dolci aponta que, embora a IA amplie a capacidade de oferta de conteúdo, as plataformas digitais continuam a ser as guardiãs da atenção do público. Conforme informações divulgadas em levantamento próprio e entrevistas com o especialista.

O Papel das Redes Sociais na Era da IA em Campanhas

Renato Dolci enfatiza que a principal inovação da inteligência artificial no contexto eleitoral reside na drástica redução do custo para produzir diversas versões de um mesmo material de campanha. Essa otimização financeira e de tempo permite que as equipes de marketing político explorem diferentes abordagens e mensagens, testando quais ressoam melhor com o público. No entanto, o protagonismo na disseminação dessas mensagens ainda recai sobre as redes sociais. São elas que orquestram a distribuição do conteúdo e definem o que, de fato, chega aos olhos e ouvidos dos eleitores.

Em outras palavras, a IA funciona como um multiplicador de conteúdo, ampliando a oferta disponível. Todavia, a capacidade de capturar e reter a atenção do eleitorado, que é finita e altamente disputada, continua sendo um desafio gerido pelas dinâmicas e algoritmos das plataformas. Dolci compara a situação a um supermercado: a IA pode encher as prateleiras com uma variedade imensa de produtos, mas são as estratégias de marketing, a localização dos produtos e os hábitos de compra dos consumidores que determinam quais itens serão vendidos.

A distribuição nas redes sociais, portanto, não se trata apenas de volume, mas de estratégia. A capacidade de viralização, o engajamento orgânico e a segmentação precisa de anúncios pagos são fatores que a IA pode auxiliar a otimizar, mas não substituem a necessidade de uma compreensão profunda do comportamento do eleitor e das particularidades de cada plataforma digital. A atenção do eleitor é um recurso escasso, e as redes sociais são os principais campos de batalha para conquistá-la.

Engajamento x Volume: A IA Ainda Não Traduz Produção em Aprovação

Um dos pontos mais intrigantes sobre o uso da IA em campanhas é a aparente dissociação entre o aumento exponencial na produção de conteúdo e o engajamento efetivo do eleitorado. Renato Dolci apresenta dados de um levantamento próprio que ilustram essa tendência. Nas últimas duas semanas de julho, foram identificados 6.022 vídeos rotulados como produzidos por IA, um salto significativo em comparação com os aproximadamente 600 vídeos registrados nas duas semanas anteriores. Esse crescimento de dez vezes no volume de conteúdo gerado artificialmente, contudo, não se refletiu em um aumento proporcional de interações.

Ao analisar o engajamento, Dolci observou um comportamento oposto. Quando os vídeos de grandes candidatos foram excluídos da análise, os outros 6.012 conteúdos de IA somaram apenas 117 interações. Isso sugere que, apesar da capacidade da IA de gerar conteúdo em larga escala, a relevância e o interesse gerado por esses materiais, especialmente quando não associados a figuras políticas de grande projeção, são consideravelmente baixos. O eleitorado parece não se engajar de forma significativa com conteúdos produzidos artificialmente, a menos que estes venham carregados de um apelo político já estabelecido.

Esse achado corrobora os resultados de pesquisas recentes, como a realizada pela Quaest, que indicam uma rejeição considerável por parte dos brasileiros ao uso de IA em campanhas eleitorais. O baixo engajamento observado no levantamento de Dolci pode ser um reflexo dessa desconfiança ou de uma preferência por conteúdos que pareçam mais autênticos e menos fabricados. A mera quantidade de material, portanto, não se traduz em aprovação ou interesse genuíno por parte do eleitor, destacando a importância da qualidade, da autenticidade percebida e da conexão emocional na comunicação política.

Rejeição do Eleitorado: Brasileiros Reprovam Uso de IA em Campanhas

A desconfiança em relação à inteligência artificial no contexto eleitoral não é apenas uma percepção de especialistas, mas um sentimento compartilhado por uma parcela significativa da população brasileira. Uma pesquisa recente da Quaest revelou que 73% dos brasileiros desaprovam o uso de IA em campanhas promovidas por candidatos. Esse percentual expressivo demonstra uma preocupação generalizada com a aplicação dessa tecnologia na esfera política.

A rejeição ao uso de IA em campanhas é transversal a diferentes faixas etárias. Entre os jovens de até 34 anos, 68% expressam desaprovação. O percentual aumenta consideravelmente entre os eleitores mais velhos, atingindo 76% entre aqueles com mais de 60 anos. Essa ampla reprovação sugere que a adoção de táticas que envolvam IA pode não ser um caminho seguro para conquistar a confiança do eleitorado, e pode, na verdade, gerar um efeito contrário ao desejado pelos candidatos.

A preocupação dos eleitores pode estar ligada a diversos fatores, como o medo de manipulação, a disseminação de desinformação através de deepfakes, ou simplesmente a preferência por uma comunicação política que percebam como mais humana e direta. A pesquisa da Quaest reforça a ideia de que, apesar do potencial técnico da IA para otimizar campanhas, a aceitação social e a receptividade do público são elementos cruciais que não podem ser ignorados. Ignorar essa rejeição pode representar um risco estratégico para as candidaturas que apostarem fortemente em ferramentas de IA sem considerar a percepção pública.

O Caso Flávio Bolsonaro e a Atenção do TSE ao Uso de IA

O debate sobre o uso de inteligência artificial em campanhas ganhou destaque e mobilizou a atenção da Justiça Eleitoral após um episódio envolvendo o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Durante a convenção nacional do partido, foi exibido um vídeo com a imagem de seu pai, Jair Bolsonaro, que endossava a candidatura. A peça publicitária foi produzida com IA, visto que Jair Bolsonaro, por impedimento judicial, não poderia conceder declarações públicas e estava em prisão domiciliar.

No vídeo, a representação artificial de Jair Bolsonaro aparecia em um breve comunicado, manifestando apoio a Flávio e afirmando que o filho daria continuidade ao seu projeto político. A produção com IA foi explicitamente declarada para contornar as restrições impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A veiculação do conteúdo gerou denúncias por parte de diversos partidos, especialmente aliados do governo federal, que questionaram a legalidade da peça e se a representação artificial violaria os termos da prisão domiciliar do ex-presidente.

Este caso específico levantou questões complexas sobre os limites éticos e legais do uso da IA na política, especialmente quando se trata de representações de figuras públicas com restrições judiciais. A repercussão levou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a se reunir, a portas fechadas, para discutir o tema. Embora os integrantes da Corte tenham relatado um “clima tranquilo” na reunião, com a apresentação de argumentos prévios, o presidente do TSE ainda não agendou uma data para um julgamento formal sobre o uso da IA em campanhas eleitorais, indicando a complexidade e a necessidade de cautela na tomada de decisões.

TSE e a Regulamentação da IA: Foco na Manipulação e Deepfakes

Diante do crescente uso da inteligência artificial nas campanhas eleitorais e das preocupações éticas e legais que ele suscita, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem intensificado seus esforços para estabelecer diretrizes e regulamentações. Para Renato Dolci, a atuação do TSE deve concentrar-se primordialmente na produção de conteúdo fraudulento, como os chamados deepfakes, e em materiais que visem manipular a percepção do eleitorado sobre determinados temas ou candidatos. O foco deve ser na intenção de enganar e no potencial de dano à democracia.

Dolci argumenta que a regulamentação precisa ir além da simples rotulagem do conteúdo gerado por IA. Embora a identificação clara de que um material foi criado ou alterado artificialmente seja um passo importante, ela não pode servir como um escudo para a disseminação de falsidades. O especialista ressalta que a regulamentação deve considerar a relevância política da manipulação, o alcance que ela pode atingir e a capacidade do eleitor de identificar a alteração. Uma falsificação que cause dano antes que o público consiga compreendê-la representa um desafio significativo.

O cientista político aponta que o desafio para o TSE é encontrar um equilíbrio: proteger o eleitor da desinformação e da manipulação, sem, contudo, criminalizar toda forma de linguagem política ou confundir criatividade com fraude. A linha a ser traçada deve ser clara, distinguindo entre o uso legítimo da IA para otimizar a comunicação e o uso malicioso para distorcer a realidade e influenciar indevidamente o processo eleitoral. A regulamentação deve ser robusta o suficiente para coibir abusos, mas flexível o bastante para não sufocar a inovação e a liberdade de expressão dentro dos limites democráticos.

Medidas do TSE: Avanços e Limitações na Proteção ao Eleitor

O Tribunal Superior Eleitoral tem implementado medidas que buscam mitigar os riscos associados ao uso da inteligência artificial em campanhas eleitorais. Uma das ações mais relevantes foi a exigência de que os responsáveis pelas propagandas eleitorais informem explicitamente quando um texto, áudio, vídeo ou imagem tiver sido criado ou alterado por IA. Essa medida visa aumentar a transparência e permitir que o eleitor saiba a origem e a natureza do conteúdo que está consumindo.

No entanto, Renato Dolci avalia que, embora necessárias, as medidas adotadas até o momento podem ser insuficientes para cobrir todos os cenários de risco. O especialista sugere que a análise e a regulamentação deveriam ir além da peça produzida isoladamente e considerar também o contexto de sua distribuição. A forma como o conteúdo é impulsionado, para quais públicos ele é direcionado, com que frequência e através de quais sistemas de recomendação são aspectos que também merecem atenção.

Dolci defende que a Justiça Eleitoral deve estabelecer um “piso de proteção” para garantir a integridade do processo eleitoral, mas sem tentar controlar todas as formas de uso da tecnologia. A linha divisória, segundo ele, deve ser traçada no ponto em que a representação política deixa de ser uma escolha estética ou de otimização de comunicação e passa a criar uma impressão materialmente enganosa sobre fatos ou as capacidades de um candidato. O objetivo é proteger o eleitor de manipulações que distorçam a realidade, sem cercear a criatividade ou transformar a comunicação política em um campo minado de infrações.

IA na Disputa Política: Uma Ferramenta Neutra, Mas Poderosa na Distribuição

Renato Dolci desmistifica a ideia de que a inteligência artificial possua um viés político inerente. Segundo o cientista político, a IA é uma ferramenta neutra em sua essência, e sua eficácia em uma campanha eleitoral dependerá fundamentalmente da capacidade de quem a utiliza. Os partidos ou candidatos que possuírem os melhores dados para alimentar os algoritmos de IA e uma maior capacidade de distribuição e alcance nas plataformas digitais serão aqueles que obterão maior proveito da tecnologia.

Portanto, Dolci não prevê uma “vantagem ideológica” intrínseca para nenhum lado político no uso da IA. A disputa não será sobre qual corrente ideológica “domina” a IA, mas sim sobre quem consegue converter o poder computacional e a capacidade de geração de conteúdo em resultados concretos: maior distribuição, aumento da confiança do eleitor e mobilização efetiva. O verdadeiro desafio reside em utilizar a IA de forma a construir pontes de comunicação e confiança, sem, contudo, gerar um eleitorado saturado ou cínico a ponto de desacreditar na busca pela verdade.

Os algoritmos de IA, em sua concepção, são mais mercadológicos do que ideológicos. Eles são otimizados para performance, engajamento e conversão, características que se alinham com objetivos de marketing. O impacto final na política dependerá, portanto, da estratégia, da ética e da habilidade dos atores políticos em utilizar essa poderosa ferramenta de forma responsável e eficaz, sempre com o eleitor como foco principal e a integridade do processo democrático como valor inegociável.

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